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sábado, 22 de agosto de 2009

COISAS DE MULHER*













O final de semana era um tormento na cabeça de Nicinha porque o maridão Oscar se embonecava todo no poleiro, só esperando dar meia-noite para sair batendo as asas e desencantar para o mundo.
Não adiantava reclamar, fazer chantagens ou dormir na casa da mamãe. A reunião com os amigos do boteco era sagrada e não tinha folga ou dia Santo.
Com lágrimas nos olhos ela gritava que Oscar não era mais aquele de antigamente e que havia se transformado em um monstro cruel.
Sentia-se uma pobre coitada e dona exclusiva de dois quilos de bob’s. Mas, pra quê? Simplesmente para que ele preferisse ficar na gandaia com um monte de homens peludos, voltando no outro dia cedinho com aquela cara de peixe frito como se nada tivesse acontecido!
Como ficaria o seu coração de mulher? Estraçalhado, é claro.
Então, só de birra, comia tudo o que tinha na geladeira, tentando vencer a solidão abraçada a uma panela de macarronada.
- Só você para me compreender, panelinha gostosa!
Oscar fazia chantagem, dizendo que voltaria para Minas Gerais , sozinho e assim Nicinha fingia em concordava com tantas picaretagens.
Ele sempre estava engomado; roupinha da moda, cabelinho com gel, sapato bico fino, desfilando pelos ladrilhos do quintal a procura da chave do fuscão dourado .
Ela nunca estava penteada, cheirosa ou sensual...Nicinha se resumia apenas numa camisola florida, um pouco manchada de cloro, um chinelo de dedos e perfumada naturalmente por cremes de cebola.
Pobre Oscar,era mais atraente encarar o padeiro da esquina que aquele trator empacado!
Às vezes passava de leve o olhar sobre a própria mulher e suspirava aliviado por saber que ainda tinha os amigos de boteco.
Não que desgostasse de Nicinha, pois sempre foi uma pessoa interessante e tinha lá a sua graça, mas de uns tempos pra cá relaxou de vez.
Ficou implicante, ranzinza e o único lugar que a deixava descontraída era a feira, onde soltava a voz brigando com os vendedores.
Depois voltava pra casa muito mais tranqüila.Com a gola do vestido toda suja de caldo de cana, se esbugalhava no chão da sala, folheando uma fotonovela antiga.
Os amigos de Oscar conheciam Nicinha apenas por fotografia, que foi tirada no baile de formatura e achavam que ela era um violão.
Na última briga, ela não quis saber de mais nada, arrumou as suas malas e evaporou para bem longe dali.
Enquanto o ônibus chacoalhava, a sua vida foi passando feito um filme diante de seus olhos e percebeu que também havia contribuído para o triste fim de um romance:
- As pessoas só fazem com a gente aquilo que permitimos, que deixamos acontecer e muitas vezes por falta de amor próprio...-concluiu.
Nicinha foi para casa da mamãe, apenas para dar um tempo e voltar muito mais poderosa.
Conseguiu emagrecer, mudando toda a sua alimentação. Deu um bom corte no cabelo e pintou de caju.Trocou todo o guarda-roupa no brechó da esquina e ressuscitou para o mundo.
Quando Oscar estava se engomando para mais uma noite no “crime” e viu aquela sereia de pernas cruzadas em sua cama, quase enlouqueceu.
Era um milagre da natureza!
- Que mulher é esta, meu Deus?
Lá estava Nicinha, totalmente renovada, pronta para arrepiar!Sair com os amigos peludos e cheirando a suor?! Nunca mais.
Aliás, agora Oscar só saia do quarto para pedir trégua, mas bem baixinho, de medo que alguém escutasse!


SILMARA RETTI -

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

O CUNHADÃO*




















Tem mulher que por infelicidade do destino se casa com o bonitão e ainda leva de brinde o Kit Família muito bem representado pelo Diretor Oficial: o cunhado.E não é um cunhado comum, não senhor. É daqueles que almoça e janta todos os dias e só levanta da cadeira para cair de boca...no fogão. Pede emprestado cigarro, vale-feira, vale-transporte e até vale tudo, já fazendo parte da mobília da casa porque sua cara de pau combina perfeitamente com a estante de peroba da sala.E uma não vive sem a outra; é a peroba e a cara.A cara e a peroba!
Dona Pina que o diga.Foi casada durante vinte anos com seu Coimbra, um Zé Munheca do caramba que não repartia nem o cabelo só de medo que alguém lhe tirasse o que tinha e o que não tinha.
Só que o destino é uma caixinha de surpresas e numa manhã de domingo enquanto voltava da banca de jornal do Didico, se derreteu na calçada como um suco de quiabo.O infeliz teve um mal súbito fulminante ainda com o troco da revista espremido entre os dedos da mão.
Não teve quem conseguisse lhe arrancar as moedas, sendo que Dona Pina foi chamada às pressas para ajudar a socorrer o vitimado.
Pronto, por recomendações médicas, estava de molho.Agora seu Coimbra era o “dodóizinho” da casa, gemendo o tempo inteiro, de touca vermelha e enrolado num cobertor de lã.Santa paciência!
Dona Pina envelheceu cem anos! Ela lhe dava sopinha de legumes na boca, água fresca da bica no pote e doce de goiaba na colher do jeitinho que ele mais gostava! Enquanto seu Coimbra se recuperava aos poucos, Dona Pina se definhava rapidamente.Ela havia se transformado em sua enfermeira de plantão, correndo pela casa a todo vapor com uma bandeja de inox equilibrada na própria cabeça.Lá tinha todos os remédios necessários, inclusive a lista das tarefas diárias: fazer a barba, cortar as unhas do pé, massagear as costas, contar histórias pra dormir...Tudo com muito chamego, é claro!Porém seu Coimbra não estava satisfeito e desconfiava de tamanha dedicação, achando até que tanto carinho assim tinha um nome: sua FORTUNA, muita bem enterrada no fundo do quintal, dentro de uma lata de marmelada.Na sua cabecinha de alho pensava que Dona Pina estaria lhe aplicando um golpe daqueles, querendo mesmo que ele batesse as botas de uma vez.Só que seu Coimbra era um lunático e nem se deu conta que aquele dinheirinho minguado não valia nada diante do grande amor que Dona Pina lhe oferecia todos os dias e de graça.
Então,como não conseguia levantar da cama e muito desconfiado da própria mulher, mandou um convite para Bitello passar uma temporada com o casal.Na verdade ele queria que o seu irmão caçula lhe rastreasse todos os passos, contando detalhes secretos da sabichona.
Para Bitello foi um prato cheio e quase morreu de felicidade! Agora sim teria casa, comida e roupa lavada, no maior capricho do mundo.
Ele chegou, chegando. Exigiu até um quarto com vista pra rua, colchão ortopédico e travesseiro antialérgico.Após uma semana de hospedagem já ficava de ceroula no portão da frente e tomava sol pelado em cima da laje.O cunhadão se sentia o Rei do Mocó, metendo o “pitaco” na vida íntima do casal e fazendo piadinhas picantes sobre o jeito sinistro que o irmão contava as moedinhas, uma por uma, sem se dar conta que o seu verdadeiro tesouro chamava-se Dona Pina.
Seu Coimbra estava doente, de dentro para fora, e não conseguia perceber a grande mulher que possuía.Mas se ele estava cego, Bitello enxergava até demais.Aos poucos foi reparando melhor nas qualidades de Dona Pina, sempre prestativa e dedicada.
- Que potranca! – babava pelos cantos.- Essa tá no papo.
Ela era uma mulher honesta e não merecia tanta desconfiança assim. Nisso Bitello caiu de quatro e, totalmente apaixonado, rendeu-se aos seus encantos. Da noite para o dia mudou completamente o seu jeito de ser.Arrumou um emprego no açougue do Binho, comprou roupas novas e passou a ajudar nas despesas da casa.E durante a madrugada ainda tinha energia de sobra para lhe servir um chazinho com bolachas.
Os dois já não disfarçavam mais nada, dando “bituquinhas” de amor embaixo das barbas de seu Coimbra. Ele aprovou rapidamente o romance desde que pudesse continuar morando num quartinho no fundo do quintal, só para ficar mais próximo da latinha de marmelada.
- Pra mim, tudo bem.Só não quero ficar pobre!- sorria.
Só que seu Coimbra já era um homem rico, muito mais rico do que imaginava, porém preferiu ficar com suas moedas antigas, guardadas durante anos no maior sigilo do mundo. Enquanto que Bitello enriqueceu de vez porque tinha com ele a verdadeira fortuna daquela casa: o carinho de dona Pina.
Porque ela investia na produção, multiplicava os chamegos e fazia render a poupança como ninguém! Existem riquezas na vida que somente os sábios de alma conhecem, valorizam e desfrutam, fazendo delas um caminho próspero para a própria felicidade.

Silmara Retti

UM AMOR DE CARNE E OSSO*













Quando as pessoas encontravam Zulú e Brasinha de bituquinhas pelos cantos sentiam muita inveja e comentavam que não sabiam da onde vinha tanta “melação”.Ela era sequinha como batata palha e ele parecia um fiapo de linha amestrado.Claro! Não comiam e nem bebiam.Só viviam de puro amor!
Este fanatismo começou como uma doença, desde o primeiro dia que avistou aquele príncipe desencantado fugido dos Contos de Fadas para viver um romance misterioso com a Borralheira Zulú. Escreviam bilhetinhos desenhados, trocavam comidinha na boca um do outro e faziam questão de demonstrar o tempo inteiro que estavam totalmente envolvidos num só coração.
Também tinham apelidos carinhosos como “bebê”, “xuxuca” e “gatuna”. Todos os dias arrumavam um motivo especial para comemorar:
- Um mês após a primeira piscada.
- Dois meses após a segundo passeio na Barra Seca.
- Cinco meses após o passeio de bike no Cais.
Juravam que seria amor eterno, mesmo que fosse para viverem numa moita na beira da Praia Vermelha, sem lenço e sem documento, apenas no maior love do mundo! De papo para o ar, felizes para sempre!
Zulú não tinha palavras, idéias e nem assunto.
Brasinha era um pato morto.Nunca falou sobre política, religião ou futebol e apesar de tanta encenação cinematográfica, pouco se conheciam de verdade.
Só que a vida não se resume em um desenho animado com finais felizes a cada instante, porque aqui fora o mundo é de carne e osso.
Após pouco tempo de namoro, eles marcaram a gloriosa data do casamento.Tudo estava muito lindo e cheio de graça!
Brasinha se achava um bem sucedido vendedor de sapatos e exigia que Zulú parasse de trabalhar como diarista para se dedicar exclusivamente ao novo lar.Para ele o importante seria a roupa pendurada no varal, o feijão com torresmo no capricho e o lençol de bolinhas comprado no famoso crediário, em treze vezes sem juros.
O "casal maravilha" estava cego de amor ,feito dois periquitos apaixonados. Até que por zica do destino, ou olho gordo das fofoqueiras encalhadas, aconteceu uma tragédia: Brasinha foi mandado embora do serviço com sapato e tudo!
Pronto, o mundo da fofa caiu!Não estavam preparados para enfrentar os problemas conjugais e o grande amor de Brasinha e Zulú foi para o espaço! Ela se descabelou toda enquanto seu príncipe desencantado se transformou em um sapo do brejo, cheio de dúvidas e dívidas.
Aquela mulher louca de paixão sumiu de mala e cuia para a casa da mamãe, acreditando que na novela das oito tudo seria diferente. Envelhecer numa moita, vivendo de pão duro e água de chuva, nem morta!
Brasinha ficou pasmo de desgosto.Caiu na bebedeira, perdendo o pouco que tinha no balcão do bar do Totó.
Estava no fundo do poço enquanto Zulu se acorrentava aos pés da cama para não ir ao seu encontro, já morta de saudades.Não suportava ver seu Brasinha Maravilha definhado pela sarjeta, clamando piedade com uma caneca de alumínio na mão:
- Uma esmolinha para um pobre infeliz!- resmungava.
Não, aquele não era o seu, sempre seu, Príncipe do Amor! Resolveu escrever um bilhete e pediu que a molecada da rua lhe entregasse imediatamente.
Queria marcar um encontro na praça da Matriz onde pudessem conversar melhor.Ás seis horas em ponto Brasinha chegou com os olhos inchados de tanto chorar, ainda mais seco do que nunca.
Zulú não ficava para trás, disfarçando as lágrimas com os óculos escuros.
Então, o que fazer? Zulú não suportava mais a distância e agora tinha certeza que amava um homem de verdade, com seus defeitos, seus limites e seus problemas. Pareciam dois desconhecidos diante de suas próprias dificuldades e precisavam unir as forças num único objetivo.
Após horas de choradeira, resolveram recomeçar.Ela se prontificou a ajudar em tudo que precisasse.Arregaçou as mangas e conseguiu arrumar um emprego na padaria do Jair.
Enquanto Zulú trabalhava fora, Brasinha se descabelava feito louco para deixar tudo um brinco; lavava, passava e até cozinhava.
Com o tempo conseguiram pagar as contas atrasadas, fazer o financiamento do carro novo e bater a laje da casa.
Ela ainda lhe dava sopa de ervilha na boca e continuava a lhe tratar por apelidinhos carinhosos, como Tigrão e Homem-Cueca.Só que agora era diferente, porque haviam amadurecido com a separação.
Através das dificuldades aprenderam a se conhecer melhor, fortalecendo o companheirismo. Zulú e Brasinha estavam cada vez mais unidos vivendo um casamento de carne e osso, feito por momentos alegres e tristes.Somente assim poderiam reconstruir uma nova,verdadeira e sólida HISTÓRIA de AMOR!

Silmara RETTI

TRABALHAR, NEM PENSAR*












Tibúrcio nunca foi chegado ao cartão de ponto, se coçando todo só de ouvir a palavra TRABALHO, que mais soava como um palavrão cabeludo.Tinha raiva de tudo que lembrasse a dureza do seu dia a dia, prometendo para si mesmo que colocaria fogo no escritório, no próprio crachá e principalmente na peruca vermelha daquele chefe ridículo, que mais parecia um espantalho!
Que desaforo: nasceu pobre e acima de tudo um empregadinho.Era demais para o seu coração!Entra ano e sai ano, servia apenas de tapete para que o patrão dourado pudesse desfilar.
Quanta gente não vai dormir durinho da Silva e quando acorda está nadando na mufunfa? Só que Tibúrcio nunca teve esta sorte.
Ele sonhava de olho aberto, escrevendo uma lista quilométrica das barbaridades que faria, se não precisasse pisar naquele recinto fúnebre.Nem se lembrava que era assim que conseguia pagar o aluguel, fazer crediário na mercearia e comprar uma roupa nova para o baile de gafieira.
O trabalho dignifica, enobrece e abre caminhos, nos deixando cada vez mais preparados para encarar os problemas do cotidiano:
- Bela róba!- pensava Tibúrcio.
O trabalho nos conduz a uma vida melhor:
- Tô fora! - resmungava trincando os dentes.
O seu maior inimigo era um despertador no formato de um galo que ganhou no bingo da Paróquia.Quando aquele galo “bocudo” cantava desesperadamente, ás seis horas da manhã, era uma luta para abrir uma fresta do olho.Tibúrcio fritava nas cobertas como uma coxinha de frango, torrado de raiva e querendo mesmo dar o calote no serviço.
Nem adiantava lhe explicar que o país estava passando por uma crise de desemprego e ter uma fonte de renda, é privilégio de poucos.
Tibúrcio chegava no escritório de cara amassada, se rastejando pelos cantos e parecia uma lagartixa anêmica. Já com o copo cheio de café e um sanduíche de mortadela no bolso da calça, fazia piadinhas com a mãe do chefe e ria alto do sapato da secretária.Assim era um escândalo!
Parecia que estava pedindo para ser mandado embora.
Depois fazia a barba no banheiro do escritório, cortava as unhas na pia da cozinha e puxava uma soneca na poltrona do chefe.Adorava uma fofoquinha apimentada e ainda levava um rádio tamanho família, cantarolando alto um rock progressivo.Mas só que Tibúrcio tinha muita sorte e nem sabia!
O poderoso chefão conhecia as dificuldades financeiras daquele pobre rapaz e muitas vezes fazia “vista grossa” para os seus desaforos, acreditando em sua capacidade interior.
Numa certa manhã ensolarada o relógio despertou no mesmo horário, fazendo Tibúrcio se rachar ao meio, com os olhos trincados de terror.
Ele começou a delirar e não conseguia se mexer.Era como se estivesse num filme sinistro, aonde ele se trocava rapidamente para cumprir mais uma jornada de escravidão.Então vestiu o primeiro trapo velho que encontrou na gaveta, numa preguiça de dar dó!
- Que segundona macabra! - rosnou.
Quando conseguiu abrir a porta do escritório, com aquela cara azeda, um outro funcionário estava no seu lugar, dançando axé, na maior alegria do mundo.Tibúrcio quase enfartou. Ele tentou argumentar e pedir satisfações, só que faltava tanto no serviço, que ninguém lhe conhecia mais.
- Quem é este bololó? – perguntavam, indignados.
Ele foi tratado feito um estranho e seu castelo encantado caiu, percebendo que não fazia nenhuma falta ali! O chefe ria à toa, e sem a presença negativa de Tibúrcio, a firma cresceu como um bolo de fubá!
- Coitadinho de mim! – chorava no rodapé da porta.
Foi quando, num grito assustador, caiu da cama suando frio.Tudo não passou de um pesadelo e Tibúrcio gargalhou de felicidade.
Ele ainda tinha um emprego e então se sentia o homem mais importante deste mundo.Levantou-se rápido como uma flecha e colocou o seu melhor terno. Deu um fino trato no cabelo, engraxou os sapatos e saiu pra labuta, cantarolando músicas de Zeca Pagodinho.
Para a secretária Soninha, levava um vasinho de flores, e para o chefe querido, uma caixa de bombons.
- Fazer hora extra no sábado de madrugada?! Que delícia!- cantava.
- Trabalhar até meia noite??! Que privilégio!
Alguns diziam que Tibúrcio estava enfeitiçado, porque usava um crachá com sua foto tamanho família pendurada no pescoço.Mas a verdade era que ele descobriu o seu imenso valor, através do suor do próprio trabalho.
Agora sentia prazer em ser útil e se tornava cada vez mais prestativo.No final do ano, Tibúrcio foi eleito o Funcionário Beleza, sendo contemplado com um Fusca marrom, ano 65.Mas tudo bem, porque para ele o melhor prêmio que poderia receber na vida era a sensação de bem-estar e tranqüilidade ,por oferecer o melhor de si, aos outros.E com muito prazer, é claro!


Silmara Retti -

TOLERÂNCIA ZERO!*


















Quando Cidinha apareceu em casa em pleno churrasco de domingo com aquele rapaz esquisito pendurado no pescoço, feito um carrapato encardido, o mundo desabou.
- Quem é, hein ?- perguntavam, indignados.
Simplesmente o noivo.E por mais que Cidinha fizesse um charme ao apontar as qualidades supremas de Murilo, a família em peso caiu matando. Todos eram contra aquele romance ridículo e ponto final.Só que os dois estavam apaixonados e isto dizia tudo.
Para fugir de tantas fofocas os pombinhos juntaram os trapos indo morar bem longe dos parentes: em Ubatuba, numa praia deserta.
Viveram felizes para sempre, até que num final de semana, lá em São Paulo, o cunhado xereta pensou com seus botões:
- Por onde anda Murilinho e Cidinha, hein ?
Fez que fez , e descobriu o endereço do casal: rua um, cada dois, em frente ao mar.Delícia! Colocou a boca no trombone e rapidamente organizou uma excursão comunitária.Foi convocado para a viagem o primo Olair, o sindico do prédio, a vizinhança da rua e o alfaiate do avô , que parecia ser gente boa .
Um ônibus de turismo ficou pequeno para toda aquela gente, apertado e entupido até o teto, onde o tio mais velho de Cidinha ficou pregado na janela do motorista.
Ora bolas, família é família e merece consideração.
Tudo estava nos trinques, organizado pelo cunhadão animado, que mais parecia um administrador de empresas:
- Isopor para a cerveja e o gelo, a maionese que sobrou do Natal , uma farofa de miúdos para o almoço e uma pimentinha no capricho.Foram cinco horas de viagem com direito a jogo de truco, dominó e até karaoquê.E os comentários pegavam fogo:
- Talvez Murilo estivesse menos chato e mais alegrinho! E com certeza Cidinha menos otária e mais simpática!
Cantavam alto moda de viola, pagode, hino de igreja e tudo era motivo de farra.Não sabiam nem quanto tempo ficariam hospedados na casa do casal...Seria na medida exata para um relacionamento amigável em ritmo de aventura!
Murilo nem sonhava com aquele reencontro amoroso.Quando acordou assustado, às cinco horas da manhã, e deu de cara com toda a família cantando músicas de Zezé de Camargo no seu portão, quase pirou.
Entraram com tudo como uma boiada enlouquecida.Alguns se apresentaram rapidamente :
- Oi, eu sou o primo do tio.Qual tio? O tio do tio do sorvete, claro!
Escancararam a porta da sala e da geladeira.Fritaram ovo, fizeram vitamina de abacate, caipirinha de vodka e mamadeira pro nenê.
- Nossa Cidinha, como você engordou! E o Murilo tá envelhecido, hein? – comentavam entre um petisco e um gole de cerveja.
Em apenas um minuto estavam todos instalados, menos os verdadeiros donos da casa.Era a chupeta jogada no tapete, o varal improvisado no meio da cozinha e o cardápio do almoço grudado na ponta do armário, com os dizeres:
- O cunhado não come sem feijão ...feijão preto .O sindico é vegetariano e o alfaiate topa tudo, até sapato frito, mas desde que seja no azeite.
A coitada da Cidinha fazia as honras da casa e pediu até dinheiro emprestado para fazer bonito.Murilo se acabava no fogão, ajudando a preparar o rango, enquanto o povo só aparecia para comer.Os dois viraram caseiros e passaram a viver para agradar a turma do barulho.Num minuto de visita mudaram os moveis de lugar, queimaram o chuveiro e brigaram feio com direito a tapa na cara do primo pingaiada. E Cidinha nem viu nada porque tava no tanque, com os nervos em fiapo !
Que atire a primeira pedra quem nunca passou por isto em época de temporada...E a gota d’água daquela patifaria toda foi quando sumiram logo cedo, com sacolas, bronzeador, toalhas de banho e um pedaço de torta recheada, avisando que voltariam apenas para o churrasco da tarde.
Cidinha caiu morta de cansaço no sofá e arrancou os cabelos com as unhas.Teve um surto repentino e não pensou duas vezes. Ainda babando de raiva, em urros enlouquecidos, trancou janela por janela, meteu um cadeado no portão e soltou os cachorros.Totalmente transtornada, pregou uma placa no portão, que dizia:
- Fechado para viagem.Motivo: parentes de temporada.
Murilo não ficou para trás. Enquanto manobrava aquele ônibus maluco, gargalhava de alegria.
- Uma banana pra vocês! – e soltou uma gargalhada sinistra
Agora estavam em férias conjugais, bem longe dali. Conta a lenda que nunca mais ninguém ouviu falar do casal enlouquecido; porque sumiram do mapa, sem deixar rastros. Sem mágoa, sem saudades e muito menos sem estresse, lembrando que a temporada é apenas uma temporada e para este contratempo que parece eterno, a tolerância é ZERO!

Silmara Retti

TITIA RICA*












Tia Isaura era elegante, misteriosa e dona daquela pose que parecia a Rainha da Sucata.Com seus setenta anos de idade, estava sempre besuntada com seu óleo facial de sardinha e o creme de essência de siri, passando milhares de horas relaxando diante do espelho.Viúva há mais de vinte anos, só tinha olhos para o gato persa que fazia questão de levar ao Shopping todas as tardes para o passeio de verão.
Jaiminho chupava sorvete como uma criança gulosa, lambuzando todo o focinho de chantilly.Depois miava alto querendo mais; mais pizza de calabresa, mais pipoca doce, mais carinho...Tanto dengo que aquele gato enjoado só faltava comer de garfo e faca.
A sua sorte era que Tia Isaura não suportava a própria família; sentia calafrios só de pensar no cunhado abelhudo, nas irmãs abelhudas e nos sobrinhos endiabrados.Seu único herdeiro sincero era Jaiminho, que nunca lhe pediu um centavo sequer, lhe fazendo companhia nas noites de solidão.Ela não participava de churrasco de noivado, casamento, batizado ou aniversário de parente.Preferia manter-se à distância, evitando assim o contato familiar.
E como aquela gente perturbava, meu Deus!Ligavam para ela todos os dias, pedindo o apartamento de Santos emprestado, o cortador de grama, a furadeira elétrica, o novo CD do Roberto Carlos...Então tia Isaura simplesmente ignorava tanto blábláblá e se dizia completamente sem tempo para ouvir as lamúrias de ninguém.
Não gostava de assuntos populares, como a prestação do consórcio da moto, a reforma da casa em Cunha, a briga do cunhado com a sogra... Ela preferia ficar ao lado de Jaiminho, que era quase mudo e não perturbava, de forma alguma, a harmonia do seu lar.
Nessas reuniões de domingo o seu nome passava de boca em boca, e não se conformavam com o desprezo da tia rica, que se isolava do mundo, só de medo que pedissem umas moedas emprestadas.
Nesta vida existem privilégios que o dinheiro não pode comprar; tia Isaura era muito pobre e nem havia percebido.Ela não tinha com quem compartilhar suas emoções, não tinha alegria de viver, não tinha amigos!
Tinha apenas um gato sonso que roncava a manhã toda no tapete da sala, se fingindo de morto.

- Jaiminho, você não acha que Anselmo Roberto deveria casar-se com Lorys Lóide, no último capítulo da novela?- sorria.
Ele nem piscava o olho.Tia Isaura se remoia de tédio.Então, o que fazer se não tinha mais ninguém para dialogar?
- Você aceita uma xícara de café com bolachas recheadas?- perguntava.
Jaiminho bufava de raiva, porque na verdade era alérgico a café desde bebê e bolachas recheadas lhe davam espinhas na testa.Ela sabia disto e no fundo só falava para lhe irritar.O tempo foi passando e a relação dos dois estava ligeiramente estremecida.
Tia Isaura havia se transformado em uma mulher muito ranheta e Jaiminho não era mais o mesmo lordy de antigamente.Agora se fuzilavam com um olhar penetrante e aquele apartamento duplex estava ficando apertado para os dois.
Mas titia rica também fica doente e ela sentia-se deprimida e completamente só naquele lugar. Choramingava deitada no seu sofá lilás, enquanto Jaiminho apenas roncava nas almofadas de cetim.Ela quase empacotou de vez! Precisava de remédios, de uma sopinha quente ou até mesmo de um carinho gostoso.Aquele gato traíra abria apenas meio olho, numa preguiça sem fim, fingindo que nem estava ali!
Que raiva de Jaiminho! Não prestava nem para lhe fazer um cafuné no pescoço. Era um ingrato que lhe abandonou naquele momento tão difícil! Então Tia Isaura se arrastou até o telefone, desesperada a procura de alguém.Poderia ser o cunhado, a irmã da tia ou a sogra da sogra.O importante era que lhe fizesse companhia.
Não demorou muito para que toda a sua família entrasse pela porta da sala, tremendo até o chão. Já foram ligando a T.V, fuçando nos discos, fritando um ovo e medicando tia Isaura.Todos falavam ao mesmo tempo, riam alto, pulavam na sua cama e eles faziam a maior festa.
Prepararam chá de alho, de picão, de repolho...Sopa de mandioca, de cebola, de mato verde e até de samambaia.
- Toma mais um golinho...- pediam, com jeito.
Ela sorria feliz, apreciando toda aquela euforia com outros olhos; olhos de AMOR. Depois colocaram um som na vitrola, lhe abraçaram com carinho e pediram que contasse as suas histórias da época da Carmem Miranda.Tia Isaura ria com gosto ao se lembrar dos antigos namorados e até da Primeira Comunhão.

De repente calou-se para abraçar cada um deles, matando as saudades, e chorou emocionada, mandando uma “banana” pra Jaiminho.
- Eu estava doente e não sabia.Agora me sinto curada, porque tenho amigos e uma família de verdade.
Não conseguiu dizer mais nada, porque o seu coração estava em festa. Pela primeira vez, o apartamento duplex estava repleto de alegria e ali não tinha mais espaço para tanto egoísmo e solidão.Tia Isaura percebeu que a amizade, a companhia e a solidariedade da sua família não tinham preço, porque se ela fosse pagar tanto carinho assim, teria que pedir emprestado e ainda ficaria devendo o troco!

Silmara Torres Retti

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

SEGURA ELA, GENTE!


















Cissinha era uma mulher que vivia exatamente dos trocados que ganhava limpando o palacete da patroa e aquela “fortuna” não servia para nada, porque depois do dia 10 ninguém encontrava a boneca desfilando por ai.Decerto se entocava no buraco do tatu, fingindo de morta só para não pagar ninguém.
Fazia milhares de dívidas como se fosse a poderosa Rainha da Mufunfa! Que piada mais ridícula do mundo, porque ela não tinha aonde cair morta, precisando até fazer um curso de equilíbrio para conseguir suportar o peso de tanto carnê!
Era o carnê do “mico” ondas, do “figo” bar e do aparelho de “são”. Aqueles cacarecos ficavam empilhados num cômodo apenas, sem luz elétrica e sendo iluminado por um lampião velho. E Cissinha ficava fula da vida, dizendo com a boca cheia que tinha o direito de consumir também:
- Eu sou pobre, mas sou gente!
Gente de carne e osso, carteira de couro e com as antenas ligadas em qualquer pechincha; qualquer promoçãozinha besta e barata que pudesse entupir sacolas e mais sacolas de pacotes maravilhosos que levavam Cissinha á loucura, principalmente no dia do pagamento .
O salário daquela tonta era um cisco de nada em vista da montanha de bugigangas que aparecia na sua porta.
Cissinha era pirada de tudo! Era uma consumidora fanática e não conseguia se controlar, sentindo tremedeiras de emoção ao ver uma propaganda nova na TV. Ainda mais se o produto era facilitado em 36 vezes de um valor pititiquinho, quase nadica de nada!A sensação em ver o caminhão virar a esquina com aqueles homens maravilhosos vestidos com um macacãozinho azul era muito forte.
Um bem adquirido e sacramentado, em duas vias, sem fiador e comprovante de renda, era uma terapia maravilhosa.
Depois eles desovavam o pacote, achando mesmo que se tratava de alguém com muitas posses!
Taí o segredo de tanto prazer, pois Cissinha esquecia de vez a sua infância pobre todas as vezes que sacava o seu Super Carnê, deixando para trás qualquer coisa que rimasse com: - pouco dinheiro ou pobreza e somente assim “crescia” por dentro, abafando para os outros e para si mesmo .
Era uma forma de “aumentar” a sua auto-estima e de ficar devendo cada fio de cabelo, é claro.
Por mais que tentasse por um breque nesses instintos selvagens e nesta gula de consumo, não conseguia de jeito algum .Você pode até achar graça nas picaretagens de Cissinha, mas isto é um problemão .
O Dia dos Pais estava chegando e aquela maluca já estava PIRANDO .Só de pensar que as lojas estariam entupidas por barbeadores elétricos, pijamas de seda, cadeira do papai , vendedores babões tratando qualquer Zé Mané como se fosse o Lordy Gato ...se empipocava toda .Pronto! Não agüentou tamanha pressão psicológica e quase lhe amarraram na cama .
Tudo em vão ! Cissinha teve um surto, saindo para a galera .
Parecia hipnotizada , abobada, macumbada ...Mais que depressa GRUDOU a bolsinha debaixo do braço, passou um batom vermelho , deu um tapa na peruca e FUI !
O barato é que Cissinha nem tinha mais pai vivo, porém isto era um detalhe bobo .O importante era o valor sentimental da coisa .Cruzou a rua da direita, virou a esquerda e caiu com tudo na loja principal da cidade .
Estava se sentindo em casa, no próprio lar .Se acabou nas bancas e no crediário , com os olhinhos piscando a mil por hora . Os vendedores amaram Cissinha, dando brinde surpresa, pirulito de graça , vale-compra ...
Ela atravessou a rua sorrindo de emoção e quando chegou do outro lado da calçada estava chorando feito louca .Que horror, não tinha mais um tostão furado !
Estava arrependida e morta de vergonha .Era impossível pagar tantas dívidas assim e não tendo outra pessoa a se apegar, foi direto para a casa da patroa, contando-lhe sua triste desventura .Dona LILI lhe passou um sabão daqueles , depois ficou comovida e prometeu lhe ajudar.Tudo bem, vai .Que atire a primeira pedra quem nunca fez uma besteira na vida...
Dona Lili foi até o Banco, pediu um empréstimo para o gerente e acompanhou a coitada da mulher até a loja, liquidando de uma só vez todas as prestações posteriores .
Pagou a conta dos presentinhos do papy de Cissinha , que chorava lágrimas de sangue .Conversaram sobre o assunto e ela jurou de pés juntos que NUNCA MAIS .
Nunca mais até o próximo dia 10, é claro .O tempo passou ligeirinho e Cissinha estava envergonhada com toda áquela situação. Então pediu saída mais cedo do serviço para refletir melhor sobre o assunto, tomar um banho quente, comer um miojo, descansar assistindo uma TV ...Êpa, promoção a vista !
- aparelho de musculação em oito vezes sem juros, com direito a uma mesa de canto totalmente grátis ?
- um kit capilar com xampu importado, peruca de várias cores e um implante de mechas loiras de meio metro ?
“TÔ DENTRO !” . Não pensou duas vezes .Afinal de contas Dona Lili merecia um presentinho no capricho, com entrega a domicílio e direito a uma super foto ao lado do gerente da loja .Isto sim era digno de qualquer freguesa cinco estrelas, sindicalizada pelo clube dos Consumidores Unidos Jamais Serão Vencidos , graças a sua tremenda picaretagem, ao seu faro de raposa e ao seu olho de luneta, maior que a própria cara , é claro .


Silmara Retti -

ROXA DE CIÚMES*

















Na boca do povo, ciúmes é a maior prova de amor e precisa ser aquele fulminante, esvoaçante e paralisante! Tem que sacudir as tamancas, fazer escândalo, puxar os cabelos pra depois tudo acabar em pizza, ou seja, na cama. Quanto mais ciúme, melhor.Será?Valdete que o diga, pobrezinha. Era um chicléts na cola de Jair.Não comia, não dormia, não vivia.E o boneco era feio que dói! Mas fazer o quê se debulhava corações com sua boquinha murcha, exibindo apenas um dentinho de alho? Cantava todas as mulheres, fazendo charminho com os olhos, a procura de um novo rabo de saia.Porém os seus dias de solteirão estavam contados e a cidade inteira sabia do seu enlace matrimonial, menos ele.
- Dá-lhe Jair! – gritavam, animados - Mandou bem! –
Já outros desconfiavam da rapidez daquele casamento, sem pé e sem cabeça.Mas, qual casamento? Ora, de Jair com Valdete, é claro.
Na verdade nem se conheciam direito, mas ele precisava de alguém que lhe desse uma força.Morava sozinho, pagava aluguel e ainda tinha que contratar uma diarista.As mulheres que se interessavam por ele só queriam saber da farra e Jair começou a sentir falta de alguém que pudesse dividir as dívidas. Então, bingo! Valdete era a tal.Por que não? Já que a madame queria tanto, Jair resolveu “resolver sua vida”.Ele nem precisou caprichar no xaveco.Esperou que saísse do serviço, lhe convidando para um drink no bar da Zulú.No final da noite já estavam dançando forró com o rostinho colado, prometendo amor eterno.
Pronto.O golpe foi consumado e os dois pombinhos já dividiam o mesmo bangalô, que simplesmente valorizou com a presença de Valdete.Agora tinha vasos de plantas na varanda, cortina florida nas janelas, cheirinho de café fresco no final da tarde...
Jair adorava tudo isto e mais aquilo, porém não conseguiu deixar a gandaia de lado e continuou levando a mesma vidinha de solteiro; aparecia em casa junto com o sol, todo amassado e engomado.
Assim era de matar!E o que sobrava para a coitada da Valdete? O farelo de Jair; o pó tosquiado do seu corpinho abatido de tanto ciscar em outro galinheiro. Valdete se dizia roxa de ciúmes, picotando sua camisa de cetim com a tesoura de cortar frango.Nisso o teto rachava ao meio e o bangalô tremia.Mas nenhum, nem o outro, largava o osso.Ele porque precisava dos seus préstimos de dona de casa.Ela porque precisava do seu amor.
Que amor?!? Qualquer um que fosse, até mesmo de patrão por empregada.As pessoas admiravam tamanha devoção, medida por seu ciúme infernal.Mas este ciúme tinha outro nome: - falta de amor próprio.Falta de respeito consigo mesma.
Valdete nunca se olhou no espelho, se valorizando.Mal conseguia pendurar um grampo no cabelo, porque passava a manhã inteira procurando bilhetinhos de amor nos bolsos de Jair.Procurou tanto que até encontrou uma foto da perua...com o peru.
Que susto! Valdete quase morreu do coração, prometendo vingança.Só podia ser macumba...e das brabas! A primeira coisa que pensou foi em procurar um Pai de Santo, pra desfazer aquela bruxaria ridícula. Já ia sair voando de casa com uma galinha preta na mão, quando resolveu ir até a penteadeira para pegar o seu “santinho protetor”, bem ligeiro.Foi desta maneira que deu de cara com sua cara.Parou um minuto e não reconheceu em si a Valdete de antes.Credo, mais parecia uma bruxa! Puxou um banquinho, pasma de terror.Jair miserável.Olha só o que aquele traste havia lhe feito...Só que na verdade ela permitiu que fosse assim e nenhum homem merece esta destruição.
Que Pai de Santo, que nada! Quem gosta da gente é a gente e Valdete resolveu rodar sua própria baiana, jogando um sal grosso no falecido. Apanhou todas as suas coisas e cantou pra subir.Sem choro e sem vela! Não precisava passar por tudo aquilo.Era uma mulher inteligente e merecia respeito.Jair que fosse abaixar em outra freguesia, porque ela estava FORA. Deixou o terreno limpo para que pudesse semear a sua auto-estima e colher os frutos de um novo amor.O Amor Próprio!

Silmara Retti

RAINHA DO LAR





















Quando dona Etelvina avistou pela primeira vez os braços robustos de Bébinha, cresceu o olho, pensando num jeito de escravizar toda aquela energia em benefício próprio .
As mãos de Bébinha clamavam por um tanque de roupa suja; seu corpo dançava no ritmo da batedeira; a sua cabeça balançava em harmonia com o ventilador de teto e os joelhos se dobravam diante de um assoalho, com tanto charme que mais parecia uma bonequinha de corda .
Eram qualidades excepcionais que faziam dona Etelvina encher a boca de água todas as manhãs, espionando a outra ralar o couro feito uma louca, somente para ganhar o seu ganha pão .
Mas não se conformava em ter Bébinha só de vista ...
Queria que fizesse parte da mobília da casa; que compartilhasse seus problemas domésticos e que deixasse sua vida um “ brilho total radiante” , com muito suor, é claro !
Então ficava buzinando na orelha do maridão que "adquirisse" Bébinha a qualquer preço, como se fosse um mimo, que lhe faria a Rainha do Lar mais feliz do mundo; proprietária de uma escrava branca, alvejada e clarinha da Silva !
Dona Etelvina ficou aguada e lombriguenta, com os olhos amuados e prestes a derreterem-se em lágrimas de sangue .
- Nabor, eu querooooooo pra mim!
Nisso o coitado do marido não suportou tantos fricotes e pra fazer uma graça conseguiu contratar Bébinha .Que farra ! Agora sim seria rica e poderosa, sendo amparada por sua fiel secretária.
Tratou de lhe fazer um uniforme discreto com as suas iniciais bordadas na gola : “ DONA ETELVINA COMPANHIA LIMITADA ”. Comprou uma bandeja para o café da manhã na cama , uma jarra de plástico para o suco de tomate e um pote decorado para os bolinhos de chuva . Detalhes que Bébinha jamais conseguiria entender o verdadeiro valor , pois a casa era do tamanho de um ovo e dona Etelvina era uma brega do tamanho do mundo.
- Bébinha, presta atenção: tira o lixo.Ah, tira a minha sombrancelha;corta a minha unha; penteia o cachorro; seca o pêlo dele...Depois, quero um suco de tamarindo.O quê??! Não é epoca de tamarindo?? Pode ser de damasco, então.
A sua sorte era que Bébinha nunca reclamou de nada e preferia apenas se lastimar sozinha pelos cantos, com os olhos inchados de tanto chorar .
Era a piada da rua e ninguém se conformava que uma pobretona violenta pudesse puxar a funcionária pela coleira, lhe colocando no seu "devido" lugar: o sub-solo .
Mas fazer o quê ?Ela precisava daquele emprego .
Opa, assim já é masoquismo!
A gente pode procurar o nosso caminho e pé na estrada .
Na verdade dona Etelvina era muito mais pobre do que Bébinha .Pobre de cultura, de sabedoria e de espírito .
O importante é que evoluíssem, porém Bébinha aceitava que fosse desta maneira .Talvez se desse um basta, a história seria outra .E foi ...
Ninguém se deixa enganar a vida inteira e situações como estas merecem um olé . Pode parar !
Aos poucos Bébinha foi se interessando por um curso de corte e costura.Começou a fazer seus traçados nos finais de semana e foi conquistando a sua clientela .Dona Etelvina só espichava o olho, reclamando:
- Você anda muito soberba, hein Bébinha...Cuidado!Estou no comando.
Bébinha aprendeu a fazer muitas coisas e o mais importante foi traçar o seu próprio destino.
Conseguiu sair de cena com muita categoria, deixando no tanque um saco de roupas sujas ...Trouxas do passado!
- Sua ingrata.Vai me deixar assim, com as mãos abanando?- gritou.
Então Bébinha deu meia volta, lhe entregando a vassoura.
- Pra suas mãos, querida!
Agora ela era dona absoluta de sua vida e acima de tudo com capacidade própria de mudar o seu futuro com diplomacia, garra e determinação ! Aprendeu a ler, a escrever e conseguiu um espaço melhor no mundo , porque o amor próprio é capaz de nos fazer incansáveis e todos nós merecemos conquistar este valor!


SILMARA RETTI

O VUDU















Na boca do povo ciúmes é prova de amor, daquele fulminante, esvoaçaste e ruminante ! Tem que sacudir as tamancas, fazer escândalo, esverdear de raiva ...para depois acabar em pizza .Pizza na cama!
Quanto mais, melhor .Valdete que o diga, pobrezinha! Era um deslumbrado na cola de Jair .
Não comia, não bebia, não vivia , fazendo o maior Cooper atrás do homem amado; o mais charmoso e cheiroso do mundo .Um homem tão chique que até cegava as vistas de quem tentasse encarar o bicho de frente .
Ê Jair, feio que dói ! Mas fazer o quê se debulhava corações com sua boquinha murcha com um dentinho de alho pendurado ? Usava um tapetinho tingido de loiro e tinha um jeito de malandro encantador , fazendo Valdete se esbugalhar em lágrimas de paixão .
O boneco era bicho solto, livre e piriricava em cada boteco com seu bico doce do caramba ! Cantava todas e mamava tudo o que tinha, sempre no gargalho da garrafa, fazendo charminho com os olhos, de lá para cá, a procura de um rabo de saia .Mas Valdete estava na sua lista negra, no banco de reservas, é claro .Só que na falta de qualquer titular poderia se aquecer gostoso nos braços de Jair, que corria pra galera, fazendo festa .Porém os seus dias de glória estavam contados porque se casaria no próximo mês e a cidade inteira sabia do seu futuro “enlace matrimonial”, menos ele .
Alguns achavam o máximo :
- É isto mesmo, dá-lhe Jair !
Já outros espiavam desconfiados a rapidez daquele casamento, sem pé e sem cabeça .O casamento de Valdete e Jair . Na verdade eles mal se conheciam, só que a bonitona armou um plano para abocanhar de vez o artista do pedaço .
Seria a mais competente de todas, a melhor das concorrentes, a super escrava, engraxando os seus sapatos, esfregando as suas costelas e se atirando no chão para que pudesse passar por cima .E deu certo!
Como era sozinho no mundo, sem um compromisso sério com ninguém, resolveu arrastar aquela tonta para morar com ele no seu mocó, que pelo menos assim ficaria brilhando ás suas custas .
Jair passava a noite na gandaia e aparecia junto com o nascer do sol, todo amassado e cheirando a colônia feminina .
- Safado ! Assim era de matar !
E só sobrava para Valdete o farelo de Jair .O pó tosquiado do seu corpinho abatido de tanto ciscar em outro galinheiro .E Valdete se dizia roxa de ciúmes, rasgando sua camisa ao meio .
Mas nenhum e nem o outro largava o osso .Ele por precisar dos seus préstimos de domésticas e ela por precisar do seu amor .AMOR de patrão .
As pessoas admiravam tamanha devoção, medida por seu ciúmes infernal .
Que ciúmes era aquele, meu DEUS ! Acho mesmo que isto tinha outro nome : palhaçada .Falta de respeito consigo mesma .
Valdete nunca olhou no espelho e se deu aquele valor.
Lógico, nem tinha tempo para tanto !
Mal conseguia pendurar um grampo no cucoruco, porque passava a manhã inteira procurando nos bolsos de Jair bilhetinhos de amor, endereço de alguma perua , alguma foto ...E achou, justamente uma foto da perua com o seu Peru .
Que ódio de Jair ! Valdete pensou em se matar, se pendurar de cabeça para baixo no poste, de se enterrar viva ...Ainda mais que era uma fulaninha sem classe ; que não chegava aos pés dourados do bonitão .Só podia ser macumba !
A primeira coisa que pensou foi em procurar um Pai de Santo para desfazer aquele trabalho ridículo ...Já estava saindo de casa com uma galinha preta debaixo do sovaco, quando resolveu ir até a penteadeira para pegar um “santinho” protetor e deu de cara com sua cara .Parou um minuto e não reconheceu ali a velha Valdete de antes .
Credo, parecia uma bruxa .
Relaxada, desmazelada,acabada ! Na verdade era um pano e chão .Puxou o banquinho, pasma de terror e foi, pouco a pouco, caindo para trás .
Jair miserável ! Olha só o que aquele traste havia feito com ela ...Mas Jair só fez o que ela o permitiu fazer .Nenhum homem merece ser o causador deste tipo de destruição e ponto final .
Quem tava amarrada, era ela .Porque quem gosta da gente é a gente mesmo .E se algum vudu disser o contrário, é urucubaca das bravas .
Que Pai de Santo, que nada ! Valdete rodou a sua própria baiana, jogou um sal grosso na foto do falecido e agora Jair teve que cantar pra subir ... e sumir ! Sem choro e sem vela .
Deixou o terreiro limpo e aberto para que Valdete pudesse semear a sua auto- estima e colher os frutos de um novo amor .O amor próprio !

Silmara Retti

O SILICONE AMESTRADO








Vanessa Cristina era uma mulher dinâmica, musculosa com seu corpinho malhado e entupido por silicone .Andava com o celular pregado na cintura feito um armário embutido e se achava “um luxo” !
Usava tanta maquiagem que mais parecia um Drag Queen .E quando abria a boca, simplesmente não falava nada com nada .Seria melhor se fosse muda .
Não tinha assunto, não tinha pé e nem cabeça .
Quando lhe perguntavam alguma coisa que desconhecia, mascava um chicletinho no canto da boca, fingindo cantarolar em inglês .
Mas que inglês, que nada !O seu verdadeiro nome nem era aquele e isto era um segredo militar .
Poucos conheciam a sua origem e o motivo de tamanha frescura .Seus pais eram nordestinos que fugiram da seca e vieram parar aqui nesta cidade .
Trabalharam como caseiros, cozinheiros e até catadores de siris .Vanessa Cristina precisou ralar desde criança e teve uma vida muito dura .
Ajudou no que pode com suas mãozinhas infantis:
- lavava roupa para fora, fazia faxina e até capinava quintal .
Sua história de vida era muito bonita, mas ela fazia questão em esconder as suas origens debaixo de sete chaves .Então, aquela mulher vitaminada, cheia de brilho no cabelo e laquê, era uma guerreira .Porém para disfarçar, inventava mil proezas a seu respeito .
Dizia que era de uma família rica e que todo o seu dinheiro estava investido no exterior , mas na verdade era a sua família que estava escondida no interior de Bauru .E para eles ,Vanessa Cristina nunca existiu, porque quando ela saiu de casa indo direto para a capital ainda se chamava Maria Querubina, a Bininha do papai .
Deus me livre se alguém descobrisse tal nome assim !
Preferiu esquecer um passado tão sofrido feito o seu, tentando ser uma socialite postiça , vazia e ao mesmo tempo repleta de preconceitos sobre sua própria vida .
A “bombada” não percebia que o seu valor estava dentro dela mesma e vergonha deveria sentir da sua peruca tingida de vermelho carmim; do seu corpo emborrachado e de suas mentiras que faziam dela uma fingida .Uma produção independente!
Até que um dia estava correndo no parque de lá para cá com sua roupa de ginástica, quando seus olhos se encontraram com os outros olhos que não tirava os olhos de um livro .Passou diante dele duzentas vezes , apenas para que reparasse no seu bumbum siliconizado , no tornozeiro arredondado e na perna dura feito um bloco de vinte .
Mas para desespero de Vanessa Cristina aquele homem nem se moveu , lendo suas estórias sentado no banco da praça .
Para ele não existia coisa mais importante na vida do que uma BOA literatura .Era professor e o corpinho sarado de Vanessa Cristina não rimava com nenhuma poesia .
Ela não se conformava com tamanho desprezo e foi se apaixonando por seu jeito de homem cultural .E só para lhe chamar a atenção, comprou um livro de poemas .
Sentou-se ao seu lado, na maior concentração do mundo .Não demorou muito para que trocassem algumas idéias ...
Aliás, não trocaram nada porque ela não abria a boca e a única estória verdadeira que conhecia era a História de sua Vida .E acreditando na sinceridade do professor, com lágrimas nos olhos, lhe falou sobre a luta da pequena Maria Querubina, o seu verdadeiro nome .
Pra quê ! Foi uma choradeira só e depois de quatro meses estavam casados .
Agora Maria Querubina era uma mulher vitaminada , musculosa e também com a cabecinha cheia de outras histórias que aprendeu a ler com o seu professor particular, porque a beleza se resume de dentro para fora e de cima para baixo, sem precisar de artifícios para chamar a atenção .
Uma pessoa culta já fala por si e Maria Querubina reconheceu que não precisava mais fantasiar nada, porque era uma mulher de muito valor .


Silmara Retti

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

O MENINO VIDENTE



















Dona Francisca morava numa casinha simples com quatro filhos e para cuidar de todos, tinha que rebolar miudinho, mas era uma mulher de pulso firme e nunca deixou a peteca cair .
Foram criados como que se fossem os filhos do patrão e Peninha , seu moleque caçula, sempre foi muito miudinho com pernas finas e esfoladas de tanto trepar na goiabeira .
Quase não abria a boca e morria de medo dum pedaço de cinta que a mãe guardava atrás do armário .Só que de uns tempos pra cá parecia esquisito , cheio de mistérios e não queria ficar sozinho um minuto sequer .
Enquanto dona Francisca fazia os afazeres domésticos, ficava enrabichado debaixo de sua saia , feito bala de goma .
- Que menino bobo! - resmungava, ordenando que fosse brincar no terreiro .
Porém Peninha começou a chorar dizendo que não queria sair do seu lado de modo algum .Nem se importava com o pedaço de cinta e poderia até lhe bater ( se quisesse) porque sentia muito mais medo dos “fantasmas brancos” que perambulavam por aí .
Cruz Credo ! Se Dona Francisca já era mística, cheia de badulaques no pescoço e medalhinhas da sorte, não teve dúvidas : seu menininho magrelo era um ser iluminado, um vidente ou talvez um SANTO .
De repente tudo mudou , não demorando muito para que fizessem fila na sua porta querendo apenas uma consulta com “Mestre Peninha ” , que estava todo perfumado por incenso , numa poltrona confortável doada por um comerciante do bairro .E queriam saber tudo: se a mulher saia com o padeiro, se ganhariam na loteria e se faria sol ou chuva no final de semana .
Peninha resmungava de raiva porque não conseguia enxergar nada disto , apesar que via o tal fantasma branco acompanhar cada pessoa .
Dona Ritinha tinha certeza que era o sogro falecido, Seu Almir se arrepiou todo dizendo que se tratava do tio português que havia morrido afogado e Peninha não dizia nada, pois não tinha tempo nem para respirar .
Ganhou tanto presente que sua mãe distribuía para as outras crianças e o restante guardava num caixote velho; era livros de magia, turbantes de cetim, medalhas...
Sua fama correu por toda a redondeza e comentavam numa só voz que aquele menino trazia sorte, muita sorte.
Construíram um Altar para que pudesse ser colocado e tocado durante as horas do dia ...
Conta a lenda que Mestre Peninha curou uma gastrite aguda, uma crise de nervos e mal olhado, sem cobrar um tostão . A galera gritava seu nome, enquanto ele continuava rodeado por velas de todas as cores :
- Mestre Peninha, olhe por nós !
E ele olhava, faiscando de raiva .Queria mesmo trepar nas árvores, correr atrás das galinhas do quintal, chupar laranja deitado na rede ...Só que sua vida tinha mudado e nem podia mais usar chinelo de dedos .
Parecia uma empadinha embrulhada para viagem, com sua túnica dourada que lhe fazia tostar de tanto calor .
- Levita, mestre Peninha ...Voa com seus poderes !
Até que numa tarde Doutor Jair Gomez bateu palmas em sua porta pedindo uma senha para se consultar com o menino vidente .Aguardou pacientemente duas horas de espera e quando chegou a sua vez, apenas levantou uma placa com algumas letras coladas :
- Me diga garoto o que você consegue enxergar aqui ...
Mestre Peninha foi taxativo, dizendo que só conseguia ver vultos esbranquiçados .Então Dr. Jair sorriu aliviado por saber que não estava diante de um sabichão curandeiro ...
- Mestre Peninha precisa apenas usar óculos !
Foi um reboliço danado e as pessoas rasgaram suas senhas, indo embora .Deste dia em diante o menino vidente estava muito mais feliz, sem consultas e sem fantasmas ...Somente com seu óculos novo .
E no seu mundo de fantasias continuava a ser mestre pendurado no último galho da goiabeira .
Na verdade Peninha nunca curou ninguém, mas com certeza o povo tinha o peito banhado em fé, fazendo suas próprias curas e transformando esta energia no milagre da VIDA .


Silmara Torres Retti

O MARIDÃO




Quando Wilma encaro aquele palhaço de pijamas, se despreguiçando no sofá, teve vontade de morrer! Candinho só servia para ocupar espaço na casa, reclamando da vida o dia inteiro e se rastejando com sua lerdeza fulminante.
Tinha anemia corrosiva e uma preguiça que andava de braços dados com ele, feito comadre.E só para fazer uma graça, areava todas as panelas, encerava o assoalho e fazia faxina quinzenal.
A comidinha era preparada no capricho e Candinho sabia engarfar com categoria o estômago de qualquer um que soubesse degustar um bom prato .Parecia a Rainha do Lar .
Na verdade estava desempregado há dois anos e desde então a casa virou um palacete de luxo .Com isto Wilma foi se afastando do maridão, achando que ele não passava de um trapo velho .
O amor havia acabado, a auto estima e até o próprio casamento .
Eles pouco se viam e nem se tocavam mais .
Mas todas as noites ao chegar do serviço , o jantar já estava sendo servido com todo o requinte que Candinho podia lhe oferecer .
Mesmo assim era tratado com descaso e ironia .O clima pesava em cima de sua cabeça como um tijolo e se sentia um farelo de gente .
O seu pijama velho era um uniforme diário .Enquanto dava lustro nos moveis , ficava só de butuca na audiência que a patroa tinha com o seu programa na rádio .
Ela nem parecia a mesma .Tinha uma voz melosa e apaixonada .
- Querido ouvinte daqui, companheira do rádio dali ...
O ibope subia , deixando Candinho cada vez mais para baixo , pois Wilma queria novas emoções, novos prazeres e um outro tipo de homem .Assim ele percebeu que precisava reconquistar o seu coração, antes que fosse esquecido para sempre .
Candinho resolveu lhe mandar uma carta melosa e foi um sucesso !
Nela estava descrita toda a desventura de um suposto marido que fazia de tudo para a sua esposa querida , sendo humilhado e esquecido pela poderosa .
Sem saber de quem se tratava, Wilma lhe deu o maior apoio, aconselhando o ouvinte misterioso a viver a própria vida, pois uma mulher assim não mereceria o seu amor .
Dito e feito !Ele passou a lhe escrever todos os dias , despertando a sua curiosidade feminina .
Wilma suspirava por aquele homem maravilhoso, encontrando nele o grande companheiro que sonhava possuir ...
Totalmente envolvida, pediu que marcassem um encontro num lugar bem longe dali para se conhecerem melhor .
Naquela noite ela não voltou para casa na hora do jantar. Produziu-se feito uma lady e foi direto ao encontro marcado .O seu corpo tremia por dentro como uma adolescente apaixonada .
Na penumbra da noite pode ver um vulto se aproximando e teve a certeza que se tratava de um homem muito especial .Ele chegou mais perto, querendo lhe fazer uma surpresa .E que surpresa ! Diante dela estava Candinho, com o mesmo jeito apaixonado de sempre .O mesmo jeito que fez com que seus olhos se enchessem de água , num encontro de corpo e alma .
Talvez naquele momento Wilma conseguiu enxergar o grande homem que Candinho era, no anonimato de sua simplicidade, construindo com as próprias mãos pequenos detalhes para que ela tivesse sempre um bom dia perfumado com muita dedicação, carinho e amor !

SILMARA TORRES RETTI -

O MAÇO DE CIGARROS



















Desde que Dedéia foi até a esquina para comprar um maço de cigarros e nunca mais voltou, seu Orlando caiu de cama na maior melancolia, dormindo com sua foto debaixo do travesseiro, esperançoso que um dia Dedéia voltasse.Pobre Mulher! Decerto teve um mal súbito esquecendo de vez o caminho de volta. Justo Dedéia que sempre foi meio esquecida, avoada e abololada!
Tanto que certa noite, enquanto trocavam chameguinhos de amor, ela simplesmente esqueceu o seu nome lhe chamando por... Fernando. E depois, com a cara mais lambida do mundo desculpou-se dizendo que Fernando era a filho de sua irmã caçula.
Mas que irmã, se Dedéia era filha única?! Que cabeça!
Ela trabalhava o dia inteiro na quitada da Lurdinha e nunca se atrasou nem um minuto sequer. Até que diante de tamanha desventura se perdeu, durante cinco anos, num palmo de rua; evaporando feito fumaça. E seu Orlando tá que chora aos pés da Santa, implorando o seu amargo regresso mesmo que fosse para dar o último beijo de adeus!
Queria só um tempinho de nada para lhe perguntar, olho no olho, o motivo de seu estranho sumiço.
- Por que, Dedéia? Por que?
Ela nunca foi aquela belezura, mas não precisava exagerar assim no passeio.
Cinco anos são cinco anos e agora seu Orlando era um homem viúvo e muito bem viúvo de mulher viva. E pagava o maior mico com a vizinhança!
O falatório da vila era que Dedéia tinha outro... Outro homem, outra paixão como pão com queijo, bife com ovo, miojo com Sazon, pipoca com mostarda ...Mas o pior cego é aquele que não consegue enxergar a um palmo do seu nariz e ele continuava a venerar suas fotos pregadas pelos corredores da casa.
Era “Dedéia” de noiva, de trancinhas, de óculos de sol, de pijama... E a sorte de Dedéia era que seu Orlando havia se enterrado do portão para dentro com todas as suas lembranças, porque logo ali perto a boneca desfilava para lá e para cá com uma peruca ruiva e óculos escuros.
Era tão descarada que durante todo esse tempo rachava o bico ao ver que ele estava envelhecido, bitolado e fiel ao antigo Amor.
Nisso sentia-se a “miss Casanga” , dizendo para si mesma que era uma mulher inesquecível, poderosa e que deixava marcas no pedaço.
Só que tudo tem a sua hora. Finalmente a batata de Dedéia estava assando!
Seu Orlando não agüentou tanta saudade e resolveu arrumar seus pertences para ir embora longe dali, onde pudesse afogar as mágoas, numa boa. Arrumou uma maleta de couro do tamanho certo para colocar o “Mundo de Dedéia” ali dentro; sua lingiere, suas sandálias douradas e o seu retrato falido.
Fragmentos de um romance inacabado, separado para sempre por um bendito maço de cigarros! E pensando desta forma não falou nada à ninguém.
Não tinha rumo, destino, preocupações...NADA! Queria apenas “definhar” pelas ruas da cidade. Ruas ingratas que levaram sua mulher amada, da noite para o dia, deixando em seu lugar uma dor no peito que não tinha fim! Saiu na pontinha dos pés com a cabeça enterrada num buraco. Talvez se não sentisse tanta pena de si mesmo conseguiria erguer o pescoço e dar de cara com a cara da própria Dedéia, que passou ao seu lado com seu disfarce sinistro.
Então abriu bem os olhos e conseguiu ver o que nunca havia conseguido enxergar antes: o cinismo de Dedéia desfigurada por trás dos óculos escuros e embaixo de uma peruca ruiva. Ah, Dedéia maldita!
Qualquer coisa que ele falasse seria mentira. E qualquer mentira teria som de picaretagem. Seu Orlando escancarou aquela maleta, deixando que o vento levasse suas fotos, suas mágoas, suas recordações! Ela tentou se desculpar, pedir uma chance, mas no entanto já havia se perdido na sua própria hipocrisia ,desde aquela noite que nunca mais voltou. E uma mulher assim, feito aquela, não precisaria mesmo voltar. Poderia partir de vez, levando consigo a certeza que não deixaria mais saudades.
Silmara Retti & Raphael Retti

O KIT MILAGRE


















Quando Juliano “bateu” o seu ray-ban espelhado de frente com o corpão aferventado daquela deusa da gostosura, quase embolotou de vez, jurando aos pés da santa que seria Amor Eterno; imaculado,sem fim ...Que mulher ! Era totalmente livre, leve e solta, prontinha para a dança do acasalamento, com seu jeito sexy de ser.
Tinha um olhar meigo, meio vesgo, insinuando um charminho dengoso com sua boca de comer biscoito .Na verdade tinha cara de “peixe frito “ .O quê ?! Isto mesmo, mas para que serve uma simples cara , hein? Bobagem ! Não tem serventia pra nada .É só amarrar um saco de feira bem apertado no gogó e pronto .Inhec no restante do conteúdo , que já falava por si, tinha vida própria e parecia uma coisa do outro mundo .
Será que Idalina era este fenômeno de beleza , digna de um atentado ao puder atrás da moita ? Claro que não !
Tadinha, sempre foi a mais feiosa da rua ; desengonçada e cheia de complexo .A molecada metia ovo na sua cara, todas as vezes que tentava desfilar com seu shorts curtinho, achando que estava abafando no pedaço .
Só que decepcionava a galera e não tinha jeito que desse jeito ! Tiravam o maior sarro dos apetrechos “miúdos”de Idalina, colocando a coitada para escanteio, morta de raiva .Mas ela nunca desistiu ...
Queria se vingar daquela gente fofoqueira que não sabia reconhecer uma beleza moderna , diferente e exótica .E foi assim que apareceu em sua vida um mascate luxuoso , que trazia dentro de suas sacolas o KIT-MILAGRE .
Meu Deus, era a revolução do século ! Estava tudo muito bem embrulhado num pacote lacrado por uma fechadura de ferro maciço .
- Quanto mistério ! - se assustou .
Mas se quisesse poderia lhe mostrar cada peça , fazendo uma demonstração rápida de sua eficiência .E o preço, hein? Ora, um Kit Milagre não tem preço ! Quanto vale um corpo suculento prontinho para dar o bote, arrancando os cabelos de qualquer homem da cidade ? Um monumento ambulante, inflável e totalmente garantido até a próxima Copa do Mundo .Era só assinar os cheques, vestir e sair rebolando , com a certeza que nunca mais seria a mesma batata palha de antes .
O kit milagre já vinha com um peitão artificial revestido por couro de capotão, bundinha de bola de boliche e uma cinta elástica a base de cimento cru, só para dar um breque na pança ...E em poucos minutos thanthanthanthan !
Idalina se transformaria na Mulher Maravilha do pedaço, se vingando de verdade da oposição que sempre quis lhe ver por baixo , decaída, falida ...
Ela não pensou duas vezes ;
- Ah, eu quero o Kit Milagre !
- Ah, eu preciso do Kit Milagre !
Ela precisava lhe dar este presente antes mesmo que sucumbisse junto com toda a sua feiúra para debaixo da terra .E foi assim que o otário do Juliano se apaixonou por Idalina, babando feito louco em cima daquele petisco vitaminado que tinha até etiqueta pendurada nas costas .
Não teria paz na vida enquanto não desfrutasse tamanho prazer, saboreando cada gomo e se achando o homem mais sortudo do mundo .Porém Idalina levava a sério o seu KIT MILAGRE , tirando o macacão de silicone apenas no final do dia e se escondendo a sete chaves embaixo das cobertas para que Juliano não percebesse a diferença .
Nisso de olhava no espelho, sentindo pena de si mesmo por não conseguir ser feliz do jeitinho que Deus lhe fez .
Se descobrissem o seu segredo mirabolante seria difamada e apedrejada em praça pública .Mas enquanto este desfecho infeliz não chegava o negócio era impressionar aqueles abobados que caiam aos seus pés , querendo lhe arrastar para a cama de qualquer jeito apenas para conferir o material de perto .E assim Idalina se fazia de difícil , atiçando a gula de Juliano que já estava verde de paixão !
Será que a gostosura lhe daria um mole ?
Será que aquele “palhaço” morreria de tanto amor ?
Fizeram uma aposta alta, valendo dinheiro vivo , que Idalina lhe daria um olé e como Juliano não queria ficar para trás, apostou dobrando o prêmio que Idalina comeria miudinho na sua mão .
Reforçou a sua lábia de bico doce, deu um tapa no topete e investiu tudo o que tinha na conquista de Idalina, que se fazia de durona só de medo que caísse em tentação , pondo em risco o seu kit milagre .
Esta folia toda apenas deu “ pano pra manga” .O tempo foi passando e não acontecia nada , fazendo com que o pobre Juliano perdesse as esperanças .
Mas estava fissurado por aquela mulher difícil , de fibra, como poucas que ainda existiam por aí .De repente percebeu que estava apaixonado por Idalina !
Não somente por ser um modelito sensual, boazuda ou malhada ...Resolveu marcar um encontro romântico em um barzinho discreto e depois de muita insistência a misteriosa apareceu esbugalhando corações .
Juliano queria uma coisa mais séria: um compromisso de amor .Começou seu melodrama contando toda a verdade sobre a aposta suculenta que rolava no pedaço e que para ele , agora, não tinha mais sentido algum , pois estava louco por ela !
Assim Idalina sentiu firmeza naquela ladainha, arrastando o infeliz para dentro do seu mocó, abrindo com cuidado o zíper do macacão recheado .Ele não se fez de lerdo, estufou o peito e contou para o mundo inteiro a sua mais nova conquista : Idalina e Juliano se casaram no mesmo mês , dividindo entre os dois a bufunfa da aposta que ele ganhou com direito a um diploma de Honra ao Mérito .E o Kit milagre ? Ah, o kit milagre fez um verdadeiro milagre na vida de Idalina, que ensacou o bonitão que totalmente cego de amor , não reparou na diferença , satisfeito por saber que a bonitona tinha couro até sobrando, pendurado no cabide do armário .


Silmara Retti

OLÉ


















Por infelicidade do destino domingo era aniversário de dona Célia e ia ter aquela musiquinha melosa, fungada no cangote e o maior Love só para não passar em seco uma data tão gloriosa assim... Aliás, gloriosa pra ela que não entendia nada de nada, porque também era o espetacular Campeonato de Futebol e seu Mauro nem se lembrava que tinha mulher, quanto mais se ela fazia aniversário.
Comprou uma caixa de rojão, uma carninha gorda e a cervejinha, é claro, para molhar o bico enquanto sapateava em cima do sofá.O quê, sofá??!!

“ EM CIMA DO MEU SOFÁ NINGUÉM VAI CANTAR DE GALO, NÃO MESMO!

Avisou dona Célia, fazendo um charminho. Mas é lógico que não! O grande encontro seria na casa do Odair e lá sim poderiam subir na antena, se precisasse. Que decepção. Ela quase enfartou, de raiva. Justo no domingo?
Então seu Mauro fingiu não estar entendendo. Pra quê fazer tanto aniversário assim? Uma mulher de classe, depois dos quarenta, nem toca mais no assunto... Poderiam comemorar no próximo domingo, se quisesse. Ou no próximo mês, quem sabe... Os olhos de dona Célia trituraram ao meio.
Um homem assim não era um homem, era um monstro- deduziu.
Ela ficou de trombeta, não fez mais almoço e estava em greve. E você pensa que seu Mauro se descabelou por isto? Melhor, tinha mais tempo para a concentração, se aquecendo no fundo do quintal, decorando o hino embaixo do chuveiro e levando o uniforme todos os dias só de medo que embolorasse no armário. E pra dona Célia, nem dava muita bola. Aliás, quem tinha que dar a bola era o seu time do coração.
Desde cedo estava em ponto de bala, engomando os seus apetrechos. Quando o cara de pau do Odair buzinou lá da esquina, ele pulou até o muro para mostrar que ainda estava em forma. E perfeita forma... de pastel.
Que desaforo! Dona Célia estava se sentindo um trapo velho, comemorando seu maravilhoso aniversário com as galinhas do quintal...
Fez uma sopinha de legumes e enterrou-se de vez embaixo das cobertas , com lágrimas nos olhos ao ouvir os fogos de artifício explodirem no céu.
Nisso foi se lembrando do jeito ridículo que seu Mauro conseguiu ignorar uma data tão fantástica assim e da sua petulância em lhe deixar sozinha .Um sentimento amargo lhe doeu fundo no estômago e teve uma idéia fulminante!
Agora ela iria colocar o seu time em campo. Ligou o som bem alto, se aquecendo pra Revanche Final. Ajeitou os cabelos num penteado simples, pôs a sua melhor roupa e foi pra galera...Com certeza a mulher de Odair também estava no banco de reserva e resolveu lhe telefonar, agitando uma festinha da pesada. Veio a Vilma, a Leonor, a Jerusa...E a música rolava solto, com direito a muita gargalhada, bolinho de fubá e suco de uva. Nunca se divertiram tanto, dançando até com a vassoura.
Se o time de seu Mauro foi campeão, ela não teve nem tempo para lhe perguntar. Quando aquele “ palhaço” chegou murchinho com a bandeira enrolada embaixo do braço, recebeu o “ CARTÃO VERMELHO”, sendo expulso de campo, enquanto dona Célia suou a camisa pra dar goleada. E com tanto olé assim, deu mesmo um SHOW DE BOLA.

SILMARA RETTI

O GALO BICO DOCE



















Tio Kiko era um sitiante daqueles que a gente só vê em desenho animado, com cara de bolo de milho e broa de fubá.Com seu cigarrinho de palha no buraco do dente, fazia tudo sozinho porque a mulher tinha uma preguiça de doer o couro, até para dar no couro!
Quando não se dizia morta de cansaço, se dizia morta de raiva.E para não deixar aquela velha rabugenta bufando pelos cantos todas as vezes que precisava de uma ajuda, ele mesmo dava conta do recado e fazia de tudo um pouco, apenas para não ficar de papo pra lua, na vadiagem.
Era ele e o trubufu da Dona Zilda, uma mulher sonsa e cheia de piripaques, mandando o infeliz plantar batatas logo cedo .
Os dois não se entendiam.Um achava o outro um pé no saco ! E assim iam levando a vida naquele fim de mundo, onde as horas se arrastavam lentamente pelo relógio, capengando aos poucos .
Tio Kiko não tinha mais o que inventar para se divertir, já que o único “parque de diversão” da sua casa estava enferrujado por falta de uso .
Precisava de uma emoção diferente e ficar de conversa mole com a bicharada tinha cansado sua beleza .
Sabia de tudo o que se passava dentro do sítio e o que não sabia, inventava .Era um modo gozado de matar o tempo sem que precisasse ficar na cola da patroa “congelada”, fria-fria, feito uma marmita de pedreiro .
Nem bem clareava o dia e lá ia ele pra lida ...
Até que de repente viu que alguma coisa estranha estava acontecendo no galinheiro ...A festa comia solto e era pena voando para todo lado .
- Ê , galo Nenéca .Este não nega fogo mesmo .Sempre pronto pra dar o bote !
Era o xodó da galinhada e apesar dos seus “duzentos anos” de praia, fazia acontecer .
Como pode um caco daqueles bater o ponto todo dia, fazendo tio Kiko babar de pura inveja, tentando descobrir o segredo de sua poderosa atuação cinematográfica .Nenéca era um “coroa” vitaminado , de boa aparência , coxas grossas e bico doce .
- Conta para o papai o motivo de tanta gula, conta !
Mas que nada . Aquele galo nem tinha tempo para fofocas da oposição e queria mesmo soltar a franga que tinha dentro dele .
Te garanto que se Dona Zilda tivesse um tratamento assim caliente, duvido que reclamaria tanto da vida feito um bruxa afoita .Ele sim precisava produzir feito o galo Nenéca , só para por aquela banha pra queimar num forró a dois !
Todas as vezes que o galo percebia a presença de Tio Kiko na espionagem , fazia de tudo para se aparecer rindo dele com o biquinho até torto de tanta bituquinha .
Nenéca se fazia de morto e não contava para ninguém o segredo de sua saúde sexual, matando o velho de puro despeito .
Um dia , no auge do desespero, puxou o pescoço do galo para um canto , querendo saber se era algum tipo de ração, chá ou simpatia .
- Contaaa !
Precisava aprender com ele a usufruir do próprio charme para que a vida ficasse um pouco mais divertida .E com certeza lhe daria uma recompensa bem gorda , em seu nome e no nome de toda a mulherada da vizinhança .
Só que Nenéca era um galo discreto , de bico calado e colado também .Deixou entender que essas coisas não se falam por aí, como que se fosse uma receitinha de bolo e cada um teria que descobrir o seu modo de agradar, conquistar e ser feliz .
Tio Kiko ficou uma arara .Aquele abobado se achava o sabichão e tinha que levar um corretivo .
Para acabar com sua panca encomendou da cidade um outro galo , aumentando a concorrência .Ele era muito mais novo e bonito . Seria a nova atração do pedaço, deixando o velhacão jogado para as traças ; definitivamente aposentado com seu pitombinho erótico!
Pronto , apareceu com Bitello debaixo do braço, alegre e sorridente porque quando a galinhada visse tamanha formosura, cairiam de paixão .
Deu uma piscadinha para Nenéca , fazendo charme :
- Ah, a sua batata já está assando, galo de uma figa !
Agora sim estaria vingado e sacramentado .Pobre Nenéca ; estava com os dias de gloria contados nos dedos e na certa morreria de ódio por ser desprezado assim .Porém Nenéca era um galo velho, experiente e nem se abalou com aquele frangote .
- O galo morre pelo bico - pensava .
Deixou o palhaço ciscar daqui e dali, até bater as asas de vez e foi para um canto do galinheiro bem quieto, só na “sua” .Não deu um piu sequer, esperando a hora da virada .
Bitello , novinho de tudo, sassaricava pra lá e pra cá, mas tinha a língua frouxa e contava aquela vantagem .
Tio Kiko ficava de pescoção querendo mesmo que os dois se bicassem , pois Bitello esbanjava juventude e sensualidade pelo galinheiro .Todos os dias vinha que nem um bicho louco saber das novidades :
- Quem foi com quem, quantas vezes e blábláblá .
Ficavam de cochicho durante horas e Bitello lhe dava mil dicas , segredinhos apimentados, toquinhos, receitinhas, tititis ...
Não tinha freio na língua e contava tudo , se achando o gostosão .Nisso as franguinhas do galinheiro foram ficando iradas e pasmas diante daquele fofoqueiro do caramba !
Sabe como é frangote novo; fazia de sua vida um livro aberto . Não tinha a mesma maturidade de Nenéca, que não queria ser leviano com ninguém .
- Nada a declarar - dizia, quieto em seu poleiro .
E não demorou muito para que a galinhada percebesse a diferença entre a pose devoradora de Bitello e a discrição de Nenéca .
Precisam lhe dar um desprezo e ele não suportou ser tratado como um qualquer .
Era um esnobe, com seu peito estufado e sua coxinha fina , zanzando pelo quintal, apenas contando vantagem.
Até que o aniversário de dona Zilda estava chegando e queria fazer uma graça para os seus parentes da cidade grande .Pensou em depenar um franguinho para fazer um ensopado, mas Nenéca já tava velho , duro e tinha a carne de tombar a dentadura .
Nisso caiu de quatro com os encantos de Bitello, que desfilava elegantemente pelo terreiro tentando reconquistar a clientela ...
- Que bíceps ! Que gostosura de frangote !
E num cola brinco certeiro fez com que desmaiasse de susto, indo direto para a panela .
Não teve tempo nem para dar o último suspiro .
A galinhada não acreditou quando viu Bitello em brasas, “fervendo” como sempre foi, rodeado de batatas, sendo devorado com muita categoria .Olhinho torto num olhar quarenta e três , meio amuado e de bico calado, é claro !

Silmara Retti

O FANTASMA CAMARADA.



Cirilo era simplesmente um fantasma do espaço que não dava ibope nenhum, nem aqui e nem ali.Mordia-se todo de vontade de ser reconhecido aos olhos do Criador, já aguardando uma promoção pessoal.Quem sabe faria algum sucesso, sendo convidado, com todas as honras da casa, a ser o Anjo Mensageiro do momento, levando bilhetinhos de lá para cá numa missão sublime?
Este era o seu sonho de consumo! Mas ninguém lhe dava importância, porque era muito atrapalhado e durante milhões de anos foi assim.
Alguém já ouviu falar em Cirilo ou simplesmente Cirilinho, para os íntimos? Que nada! Não passava de um tonto, sem eira e nem beira, puxando um ronco em cima de uma nuvem de pena de ganso.Sim, porque ele tinha bico de papagaio e nem se atrevia a sair batendo perna, só de medo de travar a caveirinha.
Morria de inveja daqueles que trabalhavam para o Criador, ajudando na manutenção do nosso planeta, na criação da natureza e na preservação da espécie.
Já estava se sentindo incomodado com as piadinhas que faziam sobre sua lerdeza e, tanta fama assim, apenas deixava a sua cara mais amassada do que já era.Então ficou matutando um jeito de sair bem na foto! Na verdade queria que reconhecessem o seu valor, erguendo uma estátua em sua homenagem, no próprio Vaticano.
Mas para que isto acontecesse deveria mostrar serviço e Cirilo resolveu seguir de perto um Anjo Mensageiro com a pontinha dos pés, aliás, no toquinho dos ossos já desgastados pelo passar do tempo.Ouviu atrás da porta que estavam à procura de uma tal de Cristina (ou seria Balbina), para lhe avisar que ficaria doente em breve e precisaria se cuidar.
Para ele seria o máximo da competência se conseguisse antecipar a notícia, dando um furo de reportagem.Fuça daqui e remexe dali; finalmente encontrou a casa de uma mulher maltratada pela vida, com jeito de louca, se lastimando pelos cantos da casa.

Falava como uma vitrola velha, brigando com os filhos e xingando o marido.E qual o nome da vítima? Balbina, claro.Pronto, estava diante da futura falecida.E Cirilo, muito mais vivo do que nunca, começou a preparar o ambiente para que pudesse entrar em ação.Esperou anoitecer e assim que Balbina se derreteu no sofá, morta de cansaço, caminhou até ela,cochichando no seu ouvido:
- Buuuuu!Você vai pro saco!
O quê??! Balbina não acreditou no que estava ouvindo.Só podia ser um pesadelo, daqueles brabos! Ela quase morreu de verdade, sem perceber que Cirillo era o fantasma errado com a pessoa errada.
Ficou pasma! Aquele aviso só podia ser lá de cima e estava com jeito de premonição.Lógico, só podia ser ela mesma. Sempre foi bocuda, reclamando de tudo e de todos.Com certeza aquela lamúria toda havia alcançado os ouvidos do Criador e Ele resolveu mandar buscá-la de uma vez.E agora? Nem tinha aproveitado nada da vida e já estava com a passagem comprada para o Além.
Aquele pesadelo começou a martelar na sua cabeça e sentiu que deveria curtir o pouco que ainda lhe restava. Talvez alguns dias ou minutos apenas...Abriu a janela do quarto e chovia lá fora.Era um temporal daqueles, mas parecia lindo! Que maravilhoso, merecendo até uma comemoração especial.Pela primeira vez estava mais amorosa com as crianças, beijando cada um deles com carinho.O maridão não era lá grande coisa, mas sentiria saudades de Marquito e resolveu lhe dizer tudo o que estava engasgado há anos:
- Sabia que você é muito sexy?! – se desmanchou no sofá.
Antes tarde do que nunca e diante da idéia de que partiria em breve, começou a ser feliz como jamais havia sido antes.
Eles caminhavam na praia, tomavam sorvete no calçadão e pescavam na costeira, no maior dos LOVE.Balbina e Marquito estavam curtindo a vida, numa boa, até que Cirilo se deu conta que a verdadeira vítima se chamava Cristina.Ele quase morreu de novo e sumiu do mapa, se escondendo na toca do Ben Laden. Só que os Mensageiros do Senhor sabem de tudo e enxergam longe. Tudo bem que se precipitou, que mandou uma gafe “daquelas”, mas quem nunca cometeu um engano?

Cirilo, que antes era um fantasma mixuruca, foi promovido á Estúpido Cúpido numa festa de arromba, onde recebeu um diploma de honra ao mérito com direito á uma foto ao lado do Criador.
O importante era que Balbina, ainda acreditando que estava com os dias contados, curtia uma segunda Lua de Mel em Santos, com o maridão mais feliz do ano.Ela havia se transformado em uma nova mulher, mais viva do que nunca, renascendo para os prazeres da vida. Que seja infinito enquanto dure, e que por muito tempo perdure!

Silmara Torres Retti

O DILEMA DE WADINHO.









Enquanto Wadinho era um bem sucedido motorista de táxi de uma empresa internacional toda a mulherada se derretia aos seus pés, digo, aos seus sapatos, que brilhavam como uma panela nova.
Ele não perdoava nem a própria tia e era famoso por sua fama de bonitão, mas Wadinho era muito bem casado e somente os íntimos conheciam a sua verdadeira mulher; a mãe dedicada de seus cinco meninos, a boa cozinheira de toda a família e a poderosa DONA DO MOCÓ, que muitos pensavam que era muda porque não tinha boca pra nada.Dona Quitéria sabia de cor sua escala de trabalho, começando no tanque, virando a direita de cara com a pia, rapidamente sem perder o gingado feminino que deixava Wadinho louco!
E aí se não deixasse...Ficava de bico a semana toda sem dar o dinheirinho da feira ou da quitanda.
A vizinhança toda não se conformava com a escravidão de dona Quitéria, que permitia tanto abuso em troca de alguns trocados que iam direto para as contas atrasadas, fazendo com que costurasse para fora também aos domingos sem atrapalhar a jornada diária da casa.
Wadinho nunca tinha hora certa para voltar e era presença constante no dominó, no futebol, no bingo e na gafieira.Em qualquer lugar que fosse bem longe da família.
Sempre alegre com os amigos, prestativo e camarada, mas em casa era um cricri, deixando todo mundo louco de raiva.
E enquanto isto dona Quitéria pagava o maior mico!
Só que aquela noite não passou das dez; abriu a porta de fininho, murcho e com a voz mansa como um miado, chamou a mulher de benzão, já abraçado ao seu cangote com lágrimas de sangue.Pois bem, diante daquele babado todo, dona Quitéria só conseguiu entender uma coisa: Wadinho estava desempregado!
O homem contou mil histórias da carochinha, dizendo que havia sido vítima da inveja alheia.
Sentia-se doente, cheio de dores e com um medo terrível da VINGANÇA DE QUITÉRIA.
E ela preparou um cházinho, tentando lhe agradar, só de olho naquele malandro.
Nos primeiros dias o boneco procurava emprego em anúncios de jornal.Na verdade queria um que fosse a altura do seu charme, da sua sensibilidade e do seu desempenho cultural.
Queria algo que lhe deixasse com tempo livre para a academia de musculação, a corrida na praia e o jogo de taco com os amigos.Uma coisinha leve, para que não envelhecesse dando um duro!
E como não encontrava nada de interessante, se dizia deprimido e desencantado da vida.Porém logo alugou o sofá do canto da sala e um pijaminha de tergal, assistindo á todos os desenhos do mundo.
Dona Quitéria sentia dó daquele traste, se acabando na máquina de costura simplesmente para que não lhe faltasse o mamão para o seu intestino preso, o iogurte desnatado e o churrasquinho no final de semana.
Mas, espera um pouco...Algo parecia errado, com sabor de sacanagem!Ela começou a olhar tudo aquilo com outros olhos; a reparar o quanto estava gordo e corado e seus dias de mordomia chegaram ao fim.
Agora ela era a dona da Mufunfa e não teve perdão.Na própria máquina de costura fez um uniforme caprichado e Wadinho, que desde rapaz era motorista de táxi foi promovido, com menção honrosa, a piloto de fogão !

Silmara Retti -

COMPANHEIRO FIEL






Divino aguardava o movimento do feriado nacional, ainda de molho no sofá da sala, mostrando toda aquela banha para quem quisesse ver, totalmente conformado com sua própria desventura, ou seja ;
- “Bater um rango” na casa da sogra.
- Dormir até criar calos.
- Aturar a patroa suspirando no seu cangote.Isto sim era um porre!
Que feriado, que nada.Para ele ia ser mais um final de semana enjaulado no lar doce lar, que na verdade era pior que o Pavilhão 09 do Carandirú .
Os amigos da firma iam para o futebol, para a pescaria ou para a festinha na sauna.Ninguém era otário feito Divino que teria que se conformar com a companhia calorosa de Bertina , a esposa mais querida do mundo!
Ela estava feliz ao lado do fofo, cantarolando alto todas as músicas da novela das oito e fazendo boquinha de “tigresa marota”, com seus cinqüenta e oito anos muito bem ralados.E manda charme!
- Este feriadão vai ser ótimo para discutirmos a relação, Baby! Você vai adorar a minha companhia...Foi caprichar, meu lindo!
Rebola daqui, remexe dali e Divino não levantava nem o cílio superior.
Bertina sentiu-se arrasada com tamanha indiferença e pôs-se a chorar, despencando das tamancas .
Foi assim que o bonitão teve a idéia do século, matutando uma maneira de mandar Bertina passear.Se ela ficasse bem longe dali, poderia beber todas no bar do Zico, cair de cara no forró do Brás, totalmente leve e solto!
Seria esta a forma de mostrar para os amigos que nenhuma mulher lhe colocaria no cabresto.
Era só passar uma saliva na mulher para depois sair pra galera!Contou até três, colocando o seu plano na ativa.Encarou a vítima pasmo de susto;
- Meu Deus, como você esta esverdeada, feia e abatida!Precisa ir para a Santa Casa imediatamente!Talvez seja uma anemia corrosiva ou uma doença em estado terminal...
Não deixou nem que a pobrezinha falasse nadica de nada. Mais que depressa apanhou o conjunto de malas para viagem, arrumando todas as roupas de Bertina, com lágrimas nos olhos.
- A sua saúde em primeiro lugar, meu bem!
E com uma bagagem suficiente para as quatro estações do ano, a infeliz deu entrada no hospital sem saber de nada.
ALA CINCO - QUARTO DOIS.
-Ora, tudo começa assim: sem nenhum sintoma, sem queixas, para depois se transformar em uma epidemia fulminante.- dizia com ar de preocupado.
Ela fingia sorrir, chorando.Ele fingia chorar, sorrindo!
Finalmente a sós! Acompanhou a enferma até o seu alojamento, carregando todas as malas nas costas e para bancar o herói fez questão de pegar Bertina no colo, numa entrada triunfal até o seu leito de morte. Pensava com seus botões:
- Segura, pião! Jogo, sexo, mulheres...De-lí-cia!
Enquanto desfilava pelo corredor do hospital com aquela mala sem alça no muque, revirava os olhinhos na maior felicidade. Ufa,era demais para o seu pobre coração!
Já estava pronto para o ataque, usando sua cueca de oncinha .Quanta euforia!
Jamais pensou que fosse se divertir tanto assim, deixando Bertina a quilômetros de distância. Só que de repente foi sentindo uma queimação por dentro...
- Eram os hormônios que estavam em festa.- pensou.
A boca secou...
- Era a sede da cachaça, é claro. – resmungou.
Uma tontura esquisita e BUM!Caiu para trás feito um pé de quiabo murcho.Tudo isto deveria ser de emoção em saber que logo estaria solto no mundo, mas quando ia levantar a bandeira em sinal de liberdade, desmunhecou na cama primeiro que a própria doente.
Corre daqui e socorre dali!Divino teve um piripaque fulminante, tirando o lugar da própria Bertina, que precisou ocupar o leito ao lado.
- Que maridão bacana! Isto sim é lealdade.
Ela parecia feliz da vida em dividir com Divino todos os momentos difíceis, principalmente naquele feriado a dois, separados apenas por um tubo de oxigênio.
Bertina nunca pensou que poderia contar com tamanha devoção assim, expressa num ombro amigo e acima de tudo um companheiro fiel que soube estar presente naquele suplício de dor.E Divino era um paciente impaciente, enjoado que chorava e gemia o tempo inteiro...Mas não era de dor.Era de raiva!

SILMARA TORRES RETTI -