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sábado, 22 de agosto de 2009

Zé Mané e a Loira Assombrada*







Zé Mané era chamado exatamente assim porque sempre foi um bocó.Tinha esta fama difamada desde moleque e servia de chacota pra toda galera, que anunciava em praça pública a sua bobice aguda!
Era lerdo demais e dono de uma ingenuidade profunda, mas de um coração do tamanho do mundo!
Preguiçoso nunca foi. Acordava com as galinhas e também dormia com elas.Apesar de parecer meio abobado, diziam que era muito namorador e se apaixonava a toa, a toa, se transformando numa praga na cola da infeliz.E esta praga poderia ser qualquer uma que olhasse meio de banda, assim, torto.
Colocava na cabeça que ela tava dando “mole” e aí grudava como chicletes, não se fazendo de arrogado.Mandava beijinhos, flores do campo e até um bilhete de amor mal escrito por sua letra cheia de garrancho. Só que tanto atrevimento assim não era ameaça a nenhum casamento jurado e sacramentado pela confiança mútua, pois aquele sonso só fazia sucesso com a cachorrada da rua, que não largava do seu pé, mordendo a sua canelinha seca.
E por que “sonso”? Só porque era estranho, esquisito e diferente das outras pessoas? Que sociedade é esta que satiriza o que não lhe é semelhante sendo que ninguém é igual a ninguém? Então Zé Mané era considerado o bobo da corte e nem sabia.
Ele morava num barracão antigo e lá mesmo fazia suas coisinhas; lavava a roupa suja e cozinhava a sua própria gororoba.
Logo cedo colocava o pé na estrada, ciscando de lá para cá atrás de uma farra, uma brincadeira ou um tererê que lhe fizesse morrer de rir, sacudindo aquela pança gorda que era a alegria da galera.Foi nascido e criado numa aldeia de pescadores e conhecia cada palmo de chão, voltando para casa apenas no final da tarde, cansado de tanta sassarico.
Tudo ia muito bem até que um “causo” inédito acabou com o sossego da vizinhança.Era uma história macabra; daquelas de cair os dentes.Ouça só: “uma loira assombrada cismava em aparecer com o cabelo escorrido pelo corpo, andando de lá para cá no meio da mata, totalmente pelada. Pelada?! Isto mesmo, carregando apenas uma vela vermelha na mão.
As criancinhas não queriam mais ir para a escola e ninguém dormia como antes.Então fizeram uma reunião na penumbra da noite e decidiram que um homem forte e valente teria que dar uma surra naquele fantasma atrevido e acabar de vez com tanto mistério.E este homem só tinha um nome; o Super Zé Mané.
O intrometido logo se prontificou a vingar-se da loira aguada, apenas para ser reconhecido como um herói intergaláctico!Num minuto arrumaram seus apetrechos poderosos; uma arma de fogo, um crucifixo, um colar feito de dentes de alho e um livro sacrossanto. Com um chute na buzanfa, arremessaram o otário na boca da mata e depois ficaram de prontidão numa romaria de fé, esperando que o coitado desse um fim naquela assombração ridícula.
Ele fez uma oração comovida, suspirou fundo e pegou a trilha, morto de medo.Era uma noite de lua cheia e Zé Mané foi caminhando lentamente, sem olhar para trás. O seu corpo tremia de pavor e tinha certeza que nunca mais voltaria! Dito e feito. Procura daqui e dali, mas nada de encontrar o infeliz, que sumiu do mapa sem mandar recado.
Passaram-se anos e o barracão de Zé Mané transformou-se numa capela, visitada por romeiros de toda a região. Ele tornou-se reconhecido e venerado por todos, porque após a sua partida a loira pelada nunca mais apareceu. A paz voltou a reinar na aldeia e as criancinhas saltitavam em rumo à escola, eternamente gratas ao Santo Zé Mané que mandou a loira pelada vagar em outra freguesia!
Só que a verdade verdadeira era bem outra; quando os dois se encontraram no meio da mata, se atracaram numa luta corporal das bravas; se abocanharam com gosto, se arranharam pra valer , se socaram com fúria e depois se casaram após nove meses do ocorrido!
Zé Mané, que de bobo nunca teve nada, dominou o coração solitário da loira assombrada, encalhada e principalmente assanhada.Conta a lenda que os dois vivem felizes numa cabana velha, no meio da floresta, onde apenas se ouve uivos misteriosos na calada da noite!

Silmara Retti

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

SE ALGUÉM TE AMA



















Zelina amava Gustavo, que amava Judith, que amava Pedro, que amava Marcão.O quê ?! E Marcão que não amava ninguém.
Beto que amava Rodrigo, que amava Neidinha, que amava Jair.Aliás, na verdade ela nem o conhecia direito, mas acordava e se deitava com o pensamento amarrado naquele cafona de uma figa .
- Ah, Jair é o dono absoluto do meu coração!- suspirava.
Defeitos ele não tinha nenhum.Era a perfeição da beleza tropicana; muito bem definida nas suas perninhas de bambu, no seu corpão de pau de arara e na sua cabeleira em forma de coqueiro.Um homem fino em todos os sentidos .Diziam que ele tinha verrugas no canto da cara, mas Neidinha jurava de pés juntos que era uma pinta muito sensual.
Bobagem , parecia mais um canteiro de bromélias que dava um toque másculo na sua feição de homem rústico .
- Homem que é homem precisa ter furúnculo, bafo de onça e chulé.- defendia.
E tudo nele era motivo para suspiros e tremores, aos olhos de Neidinha, que criou uma fantasia mirabolante sobre a vida de Jair .Muita gente vê nos outros somente aquilo que quer enxergar e quando alguma coisa desanda, o amor acaba, vai para o saco e no outro dia já se ama outro.
Jair nunca havia reparado num fiapo de cabelo daquela mulher que matutava um modo de ensacar o bonitão.
Precisava lhe provar que era a outra metade da sua laranja ...O ovo que faltava em sua marmita .
Tingiu o cabelo de loiro, colocou uma malha bem colada nas curvas, rebolou sobre as tamancas , mas nadica de nada .E quanto mais era desprezada por Jair, mais ela se apaixonava por ele .Passou a ser uma questão de honra conquistar aquele baita homem e se descabelava toda só para lhe chamar a atenção a qualquer custo .
Quem não se conformava com esta novela mexicana era o pobre Feliciano .O infeliz se dizia de quatro por Neidinha, mas ficava na “dele” curtindo a maior fossa.
Até que numa noite de inverno, fria que dói, abriu a porta do seu apartamento, indo trabalhar.Deu de cara com Neidinha caída no corredor, desmaiada com uma garrafa de pinga grudada no beiço .Que porre! Não suportava mais ver Jair se esfregando por aí,sem saber ao menos que ela existia.
Então o babaca lhe estendeu o braço, num abraço .Ouviu suas lamúrias , lhe servindo café quente e sem açúcar .
Tirou o dia para lhe fazer companhia .
Enquanto Neidinha gritava o nome do outro suculento, Feliciano acariciava os cabelos da sua musa .
Parecia mais bonita assim e mesmo que chorasse por outro,continuava a lhe querer bem .Tinha suas qualidades e defeitos :
- era uma pinguça de carteirinha
- tinha pé grande, cheio de frieiras
- suava feito um gambá , mas era louco por Neidinha .
Estar apaixonado é você querer alguém por ela ser uma pessoa "maravilhosa" .
Amar é você querer alguém apesar dela não ser uma pessoa tão maravilhosa assim .
A paixão é um relâmpago , um tiro de canhão .Pode durar somente o tempo em que fantasiamos , onde tudo é lindo e sem defeitos .O amor é realista e apesar dos pesares e além dos defeitos.Dura o suficiente para se fazer alguém feliz e são esses detalhes que fazem a diferença .
Feliciano só queria ver Neidinha bem e sofria em saber que ela estava sofrendo também .
Precisava fazer alguma coisa para lhe alegrar e teve um plano DEZ .Aproximaria os dois num encontro íntimo e poderia ser até no seu apartamento, se quisesse .
Ela não se conteve de tanta alegria e Feliciano era um amigão “daqueles” , de todas as horas.
Começou a enxergar nele um homem completo e era tão divertido , apesar de ser um chato logo cedo, irritante quando roía unha e um porco quando roncava alto no chão da sala .
Ficaram durante dias combinando o combinado , mas Neidinha não saia da sua cola e nunca combinaram tanto assim ! Então percebeu que alguma coisa estava acontecendo de novo : estava amando de verdade alguém que conhecia de perto .Tinha uma careca estranha, mas que lhe caia bem .Uma espinha de dois andares e uma boca de sapo, mas era incrível quando contava piadas; quando falava sobre os seus planos para o futuro ou quando explicava a teoria da relatividade .
Nem se lembrava de Jair, que somente existia em sua imaginação .
Ela abriu o coração e se deu uma chance de ser feliz .
É gostoso curtir um grande amor, de carne e osso, que muitas vezes começa de uma simples amizade , pois é através dela que conhecemos pessoas que realmente nos querem bem, nos desejando tudo de bom .
Além dos defeitos e superando as dificuldades .
Dê uma chance a quem te ama e perceba que a felicidade está muito mais perto do que você imagina , aguardando a oportunidade de lhe mostrar novos caminhos a serem conquistados a dois .


Silmara Retti

Santo de casa não faz milagre



















Sabe aquele papo furado de beira de boteco, que o palhaço já mamado, esnoba a peladona da Playboy, como se ela fosse a sua amada amante? Pois é . Geraldino estava ali na roda, petiscando uma moela de frango enquanto contava vantagem , dizendo que eram duas, três e até cinco mulheres por noite! E olha que nunca precisou de nenhum tempero extra, hei. Nada de ovo de codorna ou qualquer urucubaca do gênero.
Então os camaradas arregalavam os olhos e queriam saber detalhes do ocorrido.E a cunhada? Também já foi pro saco.E a vizinha da frente? Virou freguesa de carteirinha.Nisso a galera delirava, acreditando que Geraldino era um esfomeado e que não perdoava nem a galinha de estimação.
Mas o que Zenaide achava desta gula toda, hein? Opa, deixa a dona Zenaide fora disto. Era a sua patroa, mãe de seus filhos e devota de Padre Cícero.Rezava dia e noite, pedindo pra chover ou para fazer sol, para crescer o bolo e até para que Geraldino ficasse bem longe da cama de casal. Será que ela não gostava daquilo? Eeeeê! Era uma mulher de muito respeito e aquilo não fazia parte de sua vida.Tinha dor de cabeça quase sempre, dormindo com uma calça de brim só para evitar as perturbações. Não eram marido e mulher? Não.Zenaide não era uma mulher, não senhor.Era uma Santa! E com Santa não se brinca, não se toca e não se peca.
Quando a galera começava a perturbar Geraldino com tantas perguntas indiscretas, ele mandava pendurar a conta, fazendo muita força para conseguir chegar em casa e dar de cara com a cara peluda de Zenaide.E que Zenaide, hein.Parecia um armário embutido, com um chumacinho de cabelo amarrado charmosamente por um barbante velho.Pra encarar mesmo, só tomando uma; uma dúzia de cachaça.
Ao ver Geraldino, mais que depressa corria para o tanque, se fazendo de ocupada. Será que aquela pedra de gelo ambulante nunca foi chegada na coisa? Olha só, a imaculada da dona Zenaide não gostava de sexo.Adorava! Era louca para fazer um mexidinho, só que no capricho.Ela queria com direito a beijinho na boca, bituquinha no dedão do pé, cócegas na dobrinha das banhas...Tudo feito com muito carinho, é claro.E assim o sabe-tudo do Geraldino não sabia fazer.Mulher precisa de dengo, carinho e chamego.Não existe mulher fria.Zenaide, de fora para dentro, e de dentro para fora, era a típica mal amada.Sempre bufando, de cara amarrada e com raiva do mundo.E o que faltava para que fosse feliz? Uma boa acordada, daquelas de rachar o teto.Só que Geraldino era poderoso para os outros, porque dentro da própria casa aquele Santo picareta não fazia milagre.
Do lado direito da cama estava Zenaide, murchinha da silva, e do esquerdo, Geraldino, de trombeta amarrada. A cumplicidade na vida do casal é tudo e se não houver amizade, lealdade e companheirismo, baú-bau, já era!
Enquanto Geraldino contava vantagens de bar em bar, a pobre Zenaide passava mal pelos cantos da casa, se consumindo aos poucos com seus desejos reprimidos.Tinha pressão alta, diabetes, artrite, frescurite...Era uma morta viva com dores até no branco do olho. Então ela resolveu tomar a iniciativa e fazer uma surpresinha para o garanhão do pedaço.
Naquela noite, quando Geraldino voltou da rua, não encontrou a mulher nem na pia , nem no fogão.Procura daqui e dali.De repente lá estava ela toda embonecada na cama, vestindo apenas uma camisolinha transparente, pronta para servir o jantar.
Geraldino achou que estivesse tendo uma visão.A Santa Zenaide pirou! Tava toda descabelada, feito um gorila no cio. Queria sexo? Não só isto.Queria sentir-se amada.
E tirando um chicote debaixo do colchão, ordenou que o indefeso do marido fizesse as honras da casa.
-Senta. Dança.Late! – rosnava com os dentes trincados.
Você pensa que Geraldino negou fogo? Que nada.Uma mulher assim; poderosa, decidida e endiabrada merece mesmo uma refeição vitaminada, pois na cama tudo acaba em pizza, feita com muito carinho e regada com um tempero todo especial.

Silmara Retti

PESO MORTO










Até ontem tio Miudinho era o peso morto da casa, pois não passava de um aposentado falido que servia apenas para se perder dentro do próprio banheiro e conversar com a geladeira do canto, achando que era a filha mais velha .
Era uma mala sem alça ligeiramente arreganhada no sofá da sala, fiscalizando o ambiente , metendo o pitaco em tudo e só com as antenas ligadas .Morria de medo que alguém pudesse colocar veneno na sua sopa de batatas ...
Definitivamente Tio Miudinho não era o bem-amado da casa e começou a sentir pavor de que lhe matassem dormindo, sufocado com a própria cueca .
Então passava o dia assustado, tentando armar um plano para se defender da maldade do mundo e achava mesmo que corria risco de vida todas ás vezes que aceitava um simples gole de café...
Pensou até em fazer um pijama blindado, que o protegesse de alguma bala perdida, porque aquela família era uma bomba!
Dona Bibi e Seu Altamiro trabalhavam o dia inteiro e não davam muita importância para o tio, o colocando para dormir na despensa, junto com os outros cacarecos .E era exatamente assim que tio Miudinho se sentia, fantasiando perseguições e sabotagens que nunca existiram de verdade.
Fazia-se de coitado, querendo arrancar baldes de lágrimas com suas lamúrias, como se fosse vítima do destino traiçoeiro.
Ninguém tinha tempo para suas histórias cafonas, da época que vendia chinelo na Igreja da Matriz ou da época que comprou uma charrete vermelha ou da época que era feliz!
Só que tio Miudinho não é o único a sofrer deste mal que a maioria das pessoas de sua idade sofrem...Tratados como um tapete usado, velho e maltrapilho !
Aliás, tio Miudinho foi desprezado até ontem porque dona Bibi e Seu Altamiro estavam passando por um inferno zodiacal e de repente a vida lhes pregou uma peça ,deixando o casal à mingua e o único que ainda podia contar com o pagamento do dia 10 era o pobre ( agora rico ) tio Miudinho .
Sem mágoas, sem ressentimento e sem qualquer tipo de preconceito, resolveram abraçar àquele homem como há tempo não faziam .
- Tio Miudinho é um amor!É um lordy paraibano!
Era o xodó do lar...O Santo aposentado que veio ao mundo para lhes salvar da miséria .Colocaram o precioso dentro do fusquinha, rodando com ele por toda a cidade até fazerem a compra do mês, a feira, o gás...Havia se transformado no rei da mufunfa e tudo mudou de repente ;
- Sua palavra era lei !Seu gemido, uma Ordem!
Nunca mais dormiu no chão e o cacareco da vez era Seu Altamiro, que ficou jogado para as traças , sendo fiscalizado diretamente pelo novo proprietário da casa ; Tio Miudinho.Ele sim foi promovido a General da Banda, com direito á uniforme de luxo, sopa de legumes no capricho e um apito tamanho família, para poder controlar melhor o trânsito que tinha da pia até a geladeira .

SILMARA TORRES RETTI

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

O QUERIDINHO DO CHEFÃO













Quando Seu Maurinho perambulava pelos corredores do escritório com sua pose sacrossanta de deus do Trovão, trincava a carcaça de qualquer um e até a samambaia do xaxim pedia licença, só para sair de cena .
Eita homem complicado, sem papas na língua e de mal com a vida !
Rico por natureza e cricri por opção, era o chefe que todo o mundo queria bem longe dali, de binóculos , algemado e amordaçado apenas para não meter o pitaco no trabalho dos outros .
Era o primeiro a chegar e o último a apagar as luzes...cheirando o ambiente a procura de um deslize qualquer , de um único motivo para dar aquele CRAUS bem gostoso .Era o mais odiado, o mais ridículo e o mais paparicado de todos , porque ninguém tinha a audácia de lhe dizer na cara que sua boca cheirava urubu com batatas, que seu cabelo parecia um miojo aguado e que não passava de um pão de queijo gigante.Detalhe:pão de queijo estragado!
Ninguém lhe dizia um quilo de verdades e quando Seu Maurinho virava as costas, se borravam de puro medo .
Mas o "frescão" nem se incomodava com os tititis que zumbiam ao seu redor .Uma banana para eles !
Quase todo chefe é assim: Babaca .
Só que na vida uns nascem para mandar e outros para obedecer .Não tinha culpa se era um homem rico, culto e extremamente poderoso .Alguém tinha que dar as ordens naquela mufunfa e por azar no destino, ainda era ele o manda-chuva do pedaço .
Amigos nunca teve .Se tivesse talvez não cairia na indecência de usar terno de crochê com gravatas de bolinhas .Mulher, só a mãe e ainda assim sumiu do mapa .
Dizem até que ele era donzelo, mocinho e cheio de pudores .
Então só de birra descontava seus traumas de encalhado no corredor do escritório fazendo tremer até o teto .
Seu Maurinho sabia que queriam lhe arrancar o couro e se fazia de morto .Sempre foi um homem sozinho, sem ninguém e somente assim se sentia vivo , forte e temido entre os mortais .
Talvez se algum dia não comentassem sobre ele, ficaria até doente .Ai sim seria a hora de pendurar as chuteiras .
Dona Nica já lhe passou uma cantada, Dona Luiza se mordia toda só de ouvir a sua respiração, mas ele era duro na queda e se fazia de difícil .
Decerto não queria perder a pureza com uma velha qualquer, se guardando para um grande AMOR . Porém os seus dias de reinado estavam por um fio .
Bozolino era o novo funcionário do escritório e não tinha medo de nada , aliás, achava que o chefão era um Zé Mané do caramba e só queria se aparecer .
Nem dava pelotas para o bruxo brega e ia "trampar" com bermudinha de surfista dando altas gargalhadas com a roupa de gala do patrão ca-fo-ne-te .
Tava para nascer quem tapasse a boca daquele descarado que não tinha um pingo de respeito .
Seu Maurinho era corintiano roxo . Até as pedras sabiam e Bozolino fazia questão em aparecer vestindo o uniforme do Palmeiras.Seu Maurinho sempre foi vegetariano e Bozolino improvisava uma churrasqueira na área de serviço, só para tostar uma lingüiça esperta .
Tá louco! O chefão olhava tudo por rabo de olho , mostrando os dentes irado e depois sumia atrás da pilha de documentos .Ele sim tinha medo de Bozolino e abaixava a cabeça todas as vezes que o moleque lhe encarava.
Só que um dia o barraco desmoronou e foi o maior forrobodó do mundo quando Seu Maurinho atravessou o corredor feito um raio .
Desta vez Bozolino dançaria miudinho sobre as próprias tamancas . Ele havia pegado aquele descarado dormindo dentro do banheiro em horário de serviço, com gorro, cobertor e meias de tricô .
- Eu te mato, Bozolino !
O escritório todo pagava pra ver e treparam na mureta da sala, enquanto o moleque jogava dominó no canto da mesa . Não mexeu nem o branco do olho para não perder a concentração no jogo : parecia que tava macumbado !
De repente foi convidado num urro de guerra a comparecer no reduto do patrão .Pronto, agora Bozolino tava frito !
Fechou a porta da sala e silêncio total .Nem um piu no congá ...Era só um cochicho daqui e um sussurro dali .
Foi quando Seu Maurinho começou a gritar e Bozolino gritava também ...Cada vez mais alto .
- Acodee ! Acho que tão se pegando.Socorro, chamem a policia que o bicho tá pegando!
A galera do escritório invadiu a área com tudo e meteram o pé na porta, encontrando Seu Maurinho todo descabelado em cima da mesa , gritando :
- Truco ! - Enquanto Bozolino palitava os dentes ,comendo batatinhas em conserva .Daquele dia em diante foi só alegria : de manhã jogavam baralho, na hora do almoço o dominó e de madrugada Seu Maurinho se empolgava com o jogo da velha .
A velha louca , com Bozolino .
Agora o patrão assobiava alto com sua bermuda frouxa , chinelos de dedos e com a camisa nova do Palmeiras , virando a casaca em dois tempos .
Mudou de estilo, de jeito e de vida .Dizem as más línguas que estava apaixonado e este detalhe não interessava á ninguém, porque era um segredinho de Maurinho .
Bozolino ria para o vento, deitado na cadeira do poderoso chefão, lendo gibi , espremendo as espinhas do rosto e crente que não existe Fera Ferida, porque todo bicho indomável esconde lá no fundinho um bichinho indefeso, carente e prontinho para dar aquele BOTE !

Silmara Retti

O PODEROSO CHEFÃO














Todo chefe deveria ter dois dentes: um para abrir garrafa e o outro para doer.Aliás, esta é a verdadeira profissão de alguns soberanos que se acham o Rei do Pedaço.
Doutor Euzébio era uma Divindade em pessoa, que rodava a baiana com muita classe, acabando com a alegria de muita gente simples.Doutor de tudo e de todos e especialista em puxar tapete dos outros .
Deus fez o mundo em seis dias e só conseguiu descansar no sétimo porque Doutor Euzébio ainda não tinha comprado o tal Cartão de Ponto para o Serviço Braçal.
Era um homem discreto, de meias palavras, cujo vocabulário se resumia em Din-din .Como ganhar, como aumentar, como lucrar!
A sua mãe era mais famosa que qualquer juiz de futebol e a mais falada do mundo , sempre por debaixo do pano , é claro. Ninguém tinha a petulância de fazer qualquer comentário idiota na cara do poderoso chefão .
O seu rico dinheirinho não comprava um momento feliz; não sabia piadinhas de sogra, nunca ria gostoso e não fazia amor.Seu corpo era uma máquina que apenas fazia intrigas, lhe pesando feito um tijolo na própria Alma .
Já mandou muita gente embora simplesmente com seu olhar, acompanhado de um discurso cabeludo e um palavrão no capricho.Tudo isto sem abrir a boca.
Só que os chefes também são de carne e osso e um dia nasceram, como qualquer mortal.E o aniversário daquele deus estava chegando como uma bomba na cabeça de cada um, que já pensava numa surpresinha especial, que lhe explodindo até a raiz do cabelo.
Assim a turma do escritório pediu que o office-boy organizasse tudo nos mínimos detalhes e Biribinha queria mais era se vingar do chefe.Foi observando aos poucos seu jeito cri-cri e pronto, deu o diagnostico:
- Doutor Euzébio precisa de um agito da HORA!
Não contou pra ninguém e esperou que chegasse a sexta-feira.Apenas para disfarçar suas intenções, levou um bolinho de fubá com uma vela vermelha.Doutor Euzébio nem se abalou e ,como sempre, foi o último a sair com seu jeito de Caxias ambulante.
Mas quando chegou em casa onde morava sozinho com seu cachorro Bizú, teve a maior surpresa de toda a sua vidinha sonsa : várias mulheres de todas as cores e tamanhos lhe aguardavam no portão.
- É aqui que mora o Euzébinho? – perguntaram em coro.
- Euzébinho??! PRESENTE! - fez uma brincadeirinha da sua época de escola.
Ele só teve tempo de trancar o portão com o cadeado e cair pra dentro...
Assim começou a festa.Dias se passaram e Doutor Euzébio sumiu do mapa.Não atendia nem o telefonema da própria mãe. Já era quinta-feira ,quase dez horas da manhã, e nada.
Chegou a hora do almoço e ninguém tinha notícias do pobre coitado.Biribinha estava se remoendo de arrependimento, quando recebeu o seguinte recado por telefone:
-Infelizmente Doutor Euzébio foi encontrado quase morto; pálido, seco e arreganhado, mas rindo em gargalhadas, como que se fosse o homem mais feliz do mundo .E mandou avisar: ninguém precisa trabalhar durante o resto da semana porque ele decretou feriado nacional !
Agora ele estava de cara nova e de bem com a vida, porque um momento de prazer pode transformar nossos dias numa surpresa inesquecível, mágica e digna de um PODEROSO CHEFÃO!

Silmara Retti

NOITE FELIZ


















Ambrosina sempre foi aquela mulher sonsa, mortinha da Silva, que se fazia de peixe morto só para viver em paz.Nunca falou sobre política, religião e futebol. Nem sonhando.Para ela tudo estava bem e de bom tamanho.Preferia ser assim, escondida atrás do muro com suas opiniões secretas, guardadas a sete chaves apenas para não atrapalhar o desenvolvimento da humanidade.
Zitinho achava tudo isto o máximo.Azar dela em ser assim e sorte sua em ter uma esposa besta quadrada.Deste modo ele era o único que aparecia na fita, disposto e cheio de filosofias baratas sobre as coisas da vida.Tinha as repostas na ponta da língua e o que ele não sabia de verdade, inventava na maior prosa, é claro!
Com este babado todo fazia um sucessão no boteco do Almir, no jogo de buraco, no forró do Abreu...Sequer admitia a singela existência de Ambrosina, ignorando de vez o quanto ela ralava para deixar tudo nos trinques para o bonitão ir para a galera!
Sempre garboso e bem emplumado, parecia o Rei da Farofa e durante o ano inteiro os dois pombinhos serviam lanche numa barraca que tinham comprado a duras penas. Graças a este patrimônio, Zitinho andava na maior estica, enquanto a outra parecia sua faxineira de plantão; não tinha amor próprio e se permitia servir de chacota para a cidade toda.Cabelo escorrido feito macarrão, cheirando alho e óleo, esperava piamente que um dia o poderoso Zitinho reconhecesse o seu valor e lhe tirasse do tronco, com uma carta de alforria.
Só que não seria Zitinho que a libertaria daquele clausulo, pois Ambrosina era prisioneira da sua baixo-estima, do seu desafeto e da sua babaquice.Ninguém merecia viver assim, na escuridão do mundo, para que outras pessoas pudessem brilhar sossegadas.
Uma mulher é um ser completo, com idéias, desejos e sonhos.Jamais deve se menosprezar, feito Ambrosina.
Por felicidade do destino à barraquinha de lanches tava indo de vento em popa.Final de ano estava chegando e o natal, ah o Natal, era só presentes, para Zitinho, lógico!
- Um relógio a prova d’água.
- Cuecas de cetim.
- Calça de prega.
Só que pela primeira vez na vida ela deu uma espiada nas vitrines da cidade, crescendo o olho e fazendo charme:
- Olha lá bem, que formosura de vestido!
- Calada! Sou um marido pobre.
E lá ia ele carregando sua lista de presentes pessoais:
- Gravata borboleta, sapato bico fino, perfume de jasmim.
Foi quando Ambrosina tentou dar um miado, ainda meio fraco, saído do funda da alma:
- Zitinho, olha que sandália fofa...
- É verdade, vou levar para a minha prima do interior e mande embrulhar, no capricho.
Ambrosina quase caiu dura diante de tamanha cara de pau.Assim era demais! Zitinho estava subestimando sua inteligência e duvidando que ela pudesse raciocinar em algum momento.O boneco nunca teve nenhum parente no interior!
Daquele dia em diante resolveu riscar o seu nome do dicionário.Prejuízo, nunca mais!
Passou a mão nas economias, raspando até o fundo do tacho e foi ás compras, feliz da vida.Tirou a barriga da miséria, arrebentando a boca do balão:
- Brincos de prata, saia rodada, tamancos de madeira...
E para brindar a chegada do Natal, o seu melhor presente, o mais valioso de todos, foi a cara assombrada de Zitinho ao encontrar um Papai Noel sarado, de sunguinha com pompom , sair suado e vermelho debaixo da própria cama .Este presente Ambrosina deu para si mesma, garantindo uma ceia vitaminada e com certeza uma Noite Feliz, muito feliz!
Silmara Torres Retti -

domingo, 16 de agosto de 2009

BODAS DE FERRO














Muitas vezes 25 anos de casamento é um porre no capricho, principalmente quando não existe mais afinidade alguma entre o casal, como a tolerância, o romantismo e acima de tudo aquela amizade gostosa que é a base de um grande amor.
O companheiro precisa ser o seu confidente de todas as horas, o seu melhor amigo e inimigo também...Aquela pedrinha no sapato que nos transforma, nos educa e nos envolve em novas emoções.
Que enche a vida de prazer, enchendo o saco!
Foi assim que Seu Maneco acordou um dia com a pá virada, mirando de frente toda a cafonice explícita de Zulmira e quase morreu de susto.
Meu Deus, como havia conseguido digerir aquela marmita fria durante 25 anos, sem ter uma congestão fulminante?!
Aquela mala sem alça que se arrastava pela casa feito um bigato, um piolho de cobra, uma formiga assassina... Aquela mulher que só trocava o pijama quando ia fazer o exame de fezes na cidade, estava lhe causando enjôos.
Ele não merecia ser enterrado vivo com um “vudu”, porque ainda sentia que era um meninão em plena adolescência e na flor da idade.
Mas que idade era esta que Seu Maneco escondia feito um segredo de Estado, a sete chaves, dentro do cofre?
- Não interessa - dizia ele.- Mistérios.
O que importa a idade se ainda usava um talquinho de polvilho nas assaduras, nas dobrinhas e no bumbum?
Era um bebe inocente, com dois fiapos de cabelo muito bem engomados numa chuquinha e sem os dentinhos da frente.
E mesmo assim queria colo, carinho e principalmente sexo!
Impossível, pois Zulmira era uma beata de carteirinha e casada somente com a religião.Não tinha boi e ele não queria mais papo.
Lamentável que demorou tanto tempo para perceber que não tinham mais na-da em comum.Na verdade queria uma mulher fogosa, que lhe oferecesse noites de imenso prazer.
Coisas que a finada Zulmira não conhecia mais.
Que morresse de catapora, pois no quinto dia útil do mês receberia a aposentadoria e than-than-than -than .Um novo homem voltaria a atacar, aberto para a vida, para o mundo e para os prazeres da carne, ressurgindo das trevas com sua sunga cintilante super potente, óculos espelhados (com retrovisor) e celular atômico pendurado na cintura.Tudo isto para o cooper leve na praia .
Não tinha quem não reparasse e Maneco se sentia o máximo, envergonhando de vez a pobre Zulmira, que se apegava no terço com muita fé para que aquele picareta levasse um castigo bem merecido.
Ele jogava xaveco, beijos, charme!
Nem bem clareava o dia e ele estava lá apenas para impressionar a mulherada.Começou a ser conhecido como o tarado da praia e para ele era um elogio, porque na verdade não tinha jeito que desse jeito.Para ressuscitar o falecido, só uma reza brava!
Até que avistou um mulherão desfilar pelas areias num rebolado sinfônico que bateu direto no seu coração.
Quem seria aquela diva do silicone?
Quando ela piscou um olho quase caiu duro de felicidade!
Todas as manhãs os dois se encontravam e Seu Maneco dizia ser um turista milionário que jogava conversa fora com o sorveteiro somente para refrescar a cabeça.
Ele nunca imaginou que fosse tão fácil conquistar uma mulher.
Mas qualquer cego poderia ver que aquele gorilão era um big de um travesti, mas os óculos fosforescentes de Seu Maneco estavam embaçados e ele nem percebeu a diferença entre conhaque de alcatrão com rolha de canhão.Foi fundo no pote!
Zulmira nunca mais viu nem fumaça e diziam as más línguas que os dois pombinhos estavam noivos.Muito tempo se passou e um belo dia, numa manhã de sol, enquanto Zulmira ia para a missa dominical, avistou de longe um casal no maior dos Love .Leila Michelli continuava o mesmo armário embutido de sempre e Seu Maneco sorria, um tanto abatido, meio “amuado”.E se alguém lhe perguntava sobre “aquilo”, ele se fazia de bobo, mudando logo de assunto.
- Aquilo o quê?! Não estou entendendo. – disfarçava.- Leila é uma mulher maravilhosa e me faz muito feliz.
Estava em lua de mel com sua noivinha cabeluda.E Zulmira não se agüentava de tanto rir, porque nunca botou tanta fé que Seu Maneco fosse ter um castigo tão rápido, levando “aquele” ferro que somente ele conhecia muito bem.

Silmara Torres Retti -

AMOR DE MACHO *








Dizem as más línguas que todo velho é um porre, mas um velho pobre, porque quando se tem dinheiro a conversa é outra.Até o jeito de falar muda de figura: o grisalho, é claro.
Então Berlindo era um coroa elegante que estraçalhava corações com sua carteira “sexy” e muito bem apessoada. Que fofo!
Estava com um pé na cova, mas esbanjando charme por todas as rugas.E para completar tamanha beleza pré-histórica aquela múmia ensopada era solteira.
Isto mesmo, Berlindo não tinha ninguém nesta vida; nenhum parente interesseiro que precisasse dividir sua riqueza, contando com seus préstimos.A mulherada da rua crescia o olho, fazendo mil promessas ao pé da Santa, porém ele era osso duro de roer e não dava pelota para ninguém.Aliás, não dava nada de nada há um bom tempo.
Preferia ficar sozinho cheio de reumatismos, artrite, trombose e bico-de-papagaio, mas acumulando tostão por tostão a cada dia.
- Ah, que bebezinho rebelde!- gemiam pelos cantos.
Berlindo ignorava o assédio público, porque simplesmente se achava passado, feito um quiabo murcho de final de feira.Este era o seu segredo jurado e sacramentado a sete chaves.Pobre Berlindo rico!
Era falecido da cintura para baixo e guardava os restos mortais dentro do próprio pijama, como um túmulo sagrado.
Quem seria a sortuda que levaria este troféu para casa: Maria, Joaquina ou Tereza? Durante anos fez charminho e a sua vida íntima era um mistério.Mandavam bilhetinhos de amor, foto erótica com frente e verso, calcinha perfumada e nada.
Berlindo continuava fazendo sucesso com sua carteira rechonchuda que mais parecia um guarda-roupa, desfilando de lá para cá solitário e amuado.
Até que de repente seus olhos se cruzaram e foi um show de emoções.Berlindo arrepiou-se todo.Talvez um periquito no poleiro indefeso diante de tamanha revelação.Estava ali diante dele a coisa mais linda do mundo !Ah, que pedaço de mau caminho ...
Era nada mais, nada menos, que Maurão; um “gorila” de quase dois metros de altura, macho que dói. Foi um choque térmico: amor a primeira vista.
- Ufa, que frenesi! - Berlindo suava frio.
Epa, sai de cima urubu, porque Maurão não era disso e nem daquilo!Estava muito bem casado, era professor de musculação e um mulherengo do caramba.
Só que Berlindo assumiu a bronca, desfolhando-se todo feito uma flor na primavera: era pegar ou largar.Oferecia casa, comida e roupa lavada.Bastaria dizer sim e estariam casados, para sempre, numa cerimônia íntima e nada religiosa.
No começo Maurão mostrou o muque e Berlindo a carteira.Maurão falou grosso, bateu o pé e esculachou o outro em praça pública. Deu chilique, desmaiou de raiva, sapateando as tamancas para depois se acostumar com a idéia.Tudo bem que ele era espada, mas nem tanto assim:
- Dinheiro para as compras, viagens, passeios, curtição ...Que delícia!- suspirou Maurão já com a cabeça virada.
Pensou melhor sobre o assunto e garantiu que sua varinha de condão mágica levantava até defunto.E mediante um pagamento “simbólico”, caiu de quatro pelo coroa apaixonado e não deu vexame, sem preconceitos, porque é dando que se recebe, e um milagre assim não tem preço, ressuscitando o próprio morto para os prazeres da Vida.


Silmara Retti