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sexta-feira, 21 de agosto de 2009

VOLTA ÀS AULAS*


















Ontem Dona Jandira completou 65 anos e para ela isto só não bastava.Nunca foi de luxo e o que a vida de mãe de família e dona de casa lhe reservou foi o bastante para mandar Deus fechar a conta e passar a régua.
Uma mulher vivida assim não esperava mais nada de ninguém.Já tinha sua geladeira luxuosa e cheia de badulaques pendurados na porta; uma televisão colorida e uma carteirinha do Clube do Tricô.Mas estava faltando alguma coisa para que pudesse ser feliz: o reconhecimento da família, dos amigos e da sociedade.E como respeitar um rosto já marcado pelo tempo, com seus caminhos que se desencontravam num par de lábios mudos, sem vontade, sem protesto e sem prazer?
Tinha que ter peito para encarar o espelho e dizer com plena certeza:
- Esta sou eu e gosto de mim exatamente assim!
Então dona Jandira apoiou a cabeça num cantinho da rede só para matutar melhor sobre tudo que já tinha passado durante todos estes anos.Os meninos que fizeram outros meninos, do velho Agenor que se foi pra nunca mais voltar, do aluguel da casa pago com muita roupa passada para fora...
Agora não tinha mais ninguém por perto querendo uma comida quentinha ou uma calça nova de aniversário.Era só sossego e com 65 anos o corpo pedia tranqüilidade.Porém uma mulher como Jandira exigia novas emoções e não podia, jamais, envelhecer desta forma.
A sua cabeça funcionava como antes, apenas muito mais madura e experiente.Conhecia o valor do mundo; o quanto custava um minuto de sabedoria e estes valores faziam dela uma doutorada na escola da vida.
Se quisesse poderia fechar a cortina para tomar uma água, dar um suspiro e voltar em cena, porque o show não pode parar nunca.
Ela balançava a rede de lá pra cá.Não gostava de ficar assim, ociosa.Não tinha jeito para viver descansando.
Aguou as plantas do quintal, deu uma passada de vassoura no quarto, cozinhou uma macarronada bem gostosa e ainda sobrou tempo para o resto do dia.Todinho só para ela!
Ontem foi o seu aniversário e ninguém havia se lembrado.Nem um telefonema, uma visita surpresa ou um agrado especial.
Dona Jandira poderia ficar de molho por causa disto, sentindo-se a vovozinha rejeitada.Mas NÃO, era uma guerreira e nunca se fez de vítima! Olhou para o horizonte e percebeu que o mundo lhe esperava sacudir a poeira e ir para a galera.
Não estava só.O seu sonho secreto continuava ali, aguardando que criasse coragem para vencer os próprios limites.
Com 65 anos de idade mal sabia escrever. Sentia que isto era um problema em sua vida e que poderia ser resolvido se tomasse uma atitude diferente.
As férias escolares haviam terminado e os alunos já se preparavam para a volta às aulas e Dona Jandira não ficou para trás.Procurou a escola mais próxima de sua casa e matriculou-se também.
Deu um passo em direção a mais este degrau e, como uma verdadeira aprendiz, ansiosa por superar mais este obstáculo, dona Jandira se achou no direito de lhe dar este presente. Aprenderia a escrever o seu próprio nome, depois o nome de tudo ao redor e quem sabe até escrever um livro de poemas, como sempre quis.Porque nunca é tarde para ter sonhos e lutar por eles.
O futuro é feito assim, de pequenos desejos e grandes conquistas; 65 anos não é o fim do mundo. É simplesmente o começo de um recomeço, despertando novas emoções como se o melhor da vida ainda estivesse para acontecer.Basta apenas acreditar, transformando a própria história num exemplo de luta, coragem e determinação.

Silmara Retti

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

UMA VISITA MUITO ESPECIAL*


















O domingo de visita naquele hospital era considerado o dia mais bonito, como uma caixinha de surpresas; onde estava depositando momentos de medo, solidão e saudades!
Desde cedo que certas dores davam lugar a euforia.
Um lenço limpinho se estendia nos leitos, água fresca nos potinhos de plástico e bijuterias espalhadas pelos cantos. Nem parecia mais um hospital. Rostos sofridos pelo tempo já sorriam e muitos transitavam com dificuldade pelos corredores, observando atentamente o relógio da parede. Alguns haviam chegado há pouco tempo, mas outros faziam parte integrante dos armários, dos remédios e das janelas opacas que bloqueavam a luz da rua.
Ela era uma mulher miúda de olhos arregalados e jeito brejeiro que trazia todos os documentos dentro de um saquinho de pão. Usava uma trança fininha que escorria pelos ombros e ia até a cintura. Não falava quase nada e só sabia assinar o seu primeiro nome, mas mesmo assim contava as noites com um sinal feito por um grampo, na cabeceira da cama. Eram muitos sinais e deixavam seu semblante pálido, cada vez mais triste. Levantou-se cedo naquele domingo de visita e sentiu algo diferente, como se alguém especial fosse lhe ver. Ajeitou os chinelos com carinho e foi várias vezes até a porta do quarto com o coração apertado. Poderia ser o seu filho, a vizinha do lado ou um desconhecido qualquer.Deu muita risada com as enfermeiras e quis arrumar pessoalmente cada detalhe.Sem falar pra ninguém, banhou-se com uma loção de flores do campo.
Abriu a maleta de couro e procurou uma roupa de festa, que pudesse expressar toda a sua alegria.Só que as horas foram passando e já estava anoitecendo quando resolveu se deitar.
Fechou os olhos num soluço amargo.Nunca gostou do domingo de visitas.Ninguém aparecia para lhe visitar.
Ela cobriu a cabeça com o lençol e chorou baixinho.
-Por onde andará o meu filho tão querido? Quanto tempo!
De repente uma LUZ forte penetrou por tudo e fez com que sorrisse.
- Você demorou a chegar. – murmurou, feliz.- Agora, me leve com você!
Um anjo iluminado lhe estendeu as mãos e aquela mulher miúda se sentiu forte, porque sabia que não havia se enganado.
A sua visita tão esperada demorou um pouco, mas trouxe consigo a liberdade de ir embora dali para sempre!

Se você um dia tiver um tempo faça uma visita para alguém. Pode ser ao seu filho, à vizinha do lado ou simplesmente á um desconhecido.

SILMARA RETTI

UM SHOW DE BELEZA !*















Qual era o menor circo do mundo? Era o terninho de Ebervaldo, porque só cabia UM palhaço dentro: ele mesmo.
Era com esta piadinha picante que as pessoas riam alto da cafonice explícita de Ebervaldo José, que nem se incomodava em rimar “alhos” com “bugalhos”, botas coloridas com calças antigas ou seu cabelo chanel com a blusa cacharrel.
Desfilava pelas ruas da cidade naturalmente, fazendo a sua própria moda com muita simpatia.Para ele não tinha sentido em ser de outra forma, pois apesar de saber o quanto ás pessoas zombavam do seu jeito sem jeito, apenas se importava em garantir um futuro rechonchudo.
Mas, pra quê se aquele pastel era solteiro, sem parentes aparentes e vivia circulando com sua pasta de documentos importantes debaixo do braço? Ninguém sabia direito das suas transações financeiras, porque era um túmulo fechado e sacramentado pela discrição.
Era um ”Pavão Misterioso”, que despertava o deboche daqueles que lhe conheciam.Aliás, daqueles que não lhe conheciam de verdade.
Ebervaldo José tinha um coração do tamanho do mundo e se não combinava as cores da roupa, era porque tinha coisas que lhe pareciam mais importantes na vida.Tinha outros objetivos a serem conquistados e conquistou! Era dono de uma personalidade única, convicto em seus ideais e disposto a batalhar por tudo que sempre quis, com muita garra e determinação.Apenas não se enquadrava nos conceitos de beleza impostos pela sociedade, que não consegue enxergar a um palmo do seu nariz, a grandiosidade daqueles que são bonitos naturalmente: de dentro para fora.
A mulherada achava Ebervaldo sem graça e não botavam fé na sua pessoa, achando mesmo que só servia para fazer os outros rirem da sua cara de gelatina.E aquele moço esquisito preferia viver ao seu modo sem modos, mesmo que pagasse o maior Mico do mundo!
Sandra era a primeira a lhe criticar e não se conformava com tanta cafonice.Sentia raiva do seu jeito audacioso em dizer com a boca cheia que não devia nada a ninguém.
Como de fato; ele tinha sua própria renda mensal e nunca dependeu daqueles linguarudos para comprar uma bala de goma.

Até que um dia quiseram pregar uma peça em Ebervaldo e a danada da Sandra se fingiu de apaixonada, apenas para se aproximar do rapaz.
- Vou pregar uma peça neste palerma.- pensava consigo mesma.
Depois que risse bastante da sua cara, lhe mandaria um pontapé certeiro, fazendo Ebervaldo se sentir um verdadeiro palhaço.
Mandou cartas de amor e bilhetinhos eróticos, onde dizia ser uma pobre vítima da paixão, desejando apenas marcar um encontro amoroso com o bonitão.
- Pode ser numa lanchonete, no cinema ou na pracinha da Igreja.Não importa! Quero apenas sentir de perto toda a sua sedução e beleza.
Só que Ebervaldo nunca foi bobo como diziam.Ele era uma pessoa sensível e logo percebeu que Sandra precisava aprender uma lição.Assim como todos aqueles que estão acostumados a viver de aparências e futilidades.Marcou o tal encontro e ficou esperando na esquina, onde Sandra se coçava inteira de pura curiosidade.
Enfim, a sós.Ebervaldo usava sapatos de couro marrom e um macacão xadrez colado no corpo.Parecia uma zebra desnutrida e ela precisou segurar o riso, para não cair na gargalhada ali mesmo.
No início não tinham muito assunto.Falaram do sol, da chuva e do frio...Depois um silêncio profundo.Do que falariam agora?
Sandra quase morreu de alegria quando ele a convidou para ir até sua casa, pois lhe faria uma surpresa inesquecível.Então, muito satisfeita, concordou na hora, retocando a maquiagem.
- Como você é danadinho! – murmurou, piscando um olho.
Andaram por alguns minutos, até que Ebervaldo parou diante de uma casa enorme, rodeada por muros pintados de azul.Uma música suave vinha do quintal, se confundindo com risadas de crianças.
- Não estou entendendo nada.- resmungou a moça, já aflita.
Então, ele explicou para Sandra que ali dentro estava o grande motivo de tantas economias, de tanto trabalho e de tanta alegria.Que existem outros valores nesta vida que vão além das aparências e um sorriso de criança é uma jóia de imenso valor.
Ela continuou muda, ajeitando o topete engomado.Foi quando Ebervaldo José abriu o portão daquela casa, que não era somente sua, e várias crianças lhe abraçaram gritando de alegria:
- Vivaa, o tio Ebervaldo chegou!- lhe beijavam com carinho.
Eram as suas crianças, cuidadas e amadas por ele como nunca foram por ninguém.Para elas Ebervaldo não significava apenas um moço esquisito, fora da moda e cheio de manias.Ele significava AMOR, porque a verdadeira cafonice é a falta de respeito e acima de tudo, a ausência da dignidade.E com certeza Tio Ebervaldo era um show de beleza humana!

Silmara Torres Retti

UMA BELA MULHER*












Desde o primeiro dia da aula, Geninho bateu os olhos naquela loiríssima vitaminada e ficou tonto, desnorteado e tremendo de tanto Amor.Sentiu o coração saltar pela boca, num suspiro de tirar o fôlego, pensando com seus botões:
- Que coisinha fofa! Ela me leva à loucura!
Ela parecia uma boneca Barbie Ciclista com os apetrechos de ginástica guardados em sua mochila.Uma bela mulher como Katy Cristina jamais precisaria se “acabar” nos exercícios para perna, bumbum e peito, pois com sete anos de idade ainda era uma tábua de passar roupa.
O moleque minguou de tal maneira que não conseguia enxergar a um palmo do nariz.Esquecia a tabuada, não comia mais a merenda escolar e tampouco jogava taco na hora do recreio, curtindo a maior “fossa” do mundo!
Antes ele era um terremoto; danado feito um saci pererê, deixando as professoras de cabelo em pé.Mas agora tudo tinha mudado em sua vida, pois havia conhecido a maravilhosa Katy Cristina.
Na verdade ela nem dava bola para o charme enrustido de Geninho, achando que ele era feio, desengonçado e sem graça.Tinha cara de lua cheia, óculos de fundo de garrafa e boquinha de biscoito.
Definitivamente, sem chance! Justo ela que era a poderosa do vovô, a queridinha do papai e a cuty-cuty da mamãe...
E, além disso, o seu homem ideal era bem diferente daquele palhaço.Preferia alguém mais velho, maduro e experiente, como por exemplo: Bob Boy.
Ah, ele sim era nota dez! O mais bonito e charmoso da sala cinco, fazendo as meninas babarem quando passava no corredor. Os dois já estavam comprometidos, pois ele havia lhe jurado amor eterno e até usavam um anel de compromisso que veio de brinde no doce.
Foi tudo para que Katy Cristina esnobasse Geninho na cara dura, lhe fazendo de tapete para que pudesse desfilar.
Por mais que o pobre menino tivesse mudado o corte de cabelo, tingido a franja e caprichado no visual, ela lhe ignorava completamente.E quando ele lhe mandou uma carta romântica, pode ver aos prantos que Katy Cristina limpar o salto da sandália com a pontinha do papel, rindo a suas custas.
Que tragédia! Geninho não dava uma bola dentro.
O jeito seria morrer para o mundo, virar farelo de gente e sumir do mapa.Comprou um álbum de figurinhas do Homem Aranha, um homenzinho de borracha e um saco de bolinhas de gude, fazendo de tudo para esquecer tamanha desilusão.
Entregou aquela ingrata de bandeja para o amigo.Que os dois se explodissem de vez, longe dali!
Queria tomar um porre daqueles e embriagou-se com uma garrafa de suco de uva, prometendo a si mesmo que Katy Cristina, nunca mais!
Caiu de corpo e alma nos estudos, devorando letra por letra da cartilha, apenas para não ficar choramingando pelos cantos e servindo de chacota para os outros.
Os amigos de Geninho tomaram-lhe as dores e viraram a cara para o casal fingido, esnobe e sem coração.
De um lado ficou um homem de nove anos totalmente ressentido, magoado e frustrado.Já do outro estava os “noivinhos” apaixonados, num dengo só!
Até que de repente a nossa Penélope Charmosa teve um probleminha desagradável e apareceu no último dia de aula com o rosto todo empipocado feito um torresmo a pururuca.E Bob Boy quase caiu duro de susto! Ah, esta não! Ela estava com catapora:
- TÔ FORA! - pensou o bonitão- Minha boneca, preciso fazer uma viagem para o exterior e sinto que não nos veremos até o próximo ano.Adeus, formosura.Fui!
Então aquele romance infinito, sacramentado pelas leis do companheirismo eterno, definhou.
Bob Boy resolveu dar um tempo, deixando a pobre menina entregue definitivamente a solidão, se remoendo nas lembranças do passado.
Abandonada ás traças,ninguém lhe deu atenção; nenhum telefona ou um agrado qualquer.Estava curtindo a dor de uma fossa junto com sua catapora ridícula.
Foi quando ela ouviu uma voz tímida lhe chamar no portão. Pulou da cama com os olhinhos brilhando de alegria e rapidamente ajeitou um laço de fita no cabelo.
- Já estou indo.- respondeu.
Aquela voz era doce, amiga e repleta de saudades , que trazia de volta Geninho, o apaixonado de sempre.Ele estava escondido atrás de um pacote de doces e com um sorriso de felicidade estampado no rosto .Felicidade por estar diante de Katy Cristina, que mesmo abatida, com olheiras e empipocada, estava mais bela do que nunca , pois traduzia a beleza interior daquele homem apaixonado !
Porque o olhar de quem ama consegue enxergar a verdadeira beleza, de dentro para fora, refletindo aquela que cultiva dentro de si mesmo .

Silmara Torres Retti

UM CARNAVAL INESQUECÍVEL*

O Carnaval estava se aproximando em ritmo acelerado, numa mistura de sons e cores que já faziam parte do cotidiano, contagiando a todos com sua energia eletrizante.
Neste momento tudo cria vida e faz com que seus palhaços, pierrôs e colombinas renasçam após um longo tempo de dormência para invadirem toda a cidade, através das histórias de Vó Nininha, que parecia ainda viver das lembranças do passado.
Ninguém naquela casa tinha mais tempo e paciência para suas lamúrias, preocupados apenas com os últimos preparativos para o Carnaval. Ensaiavam os passos e telefonavam pra um e pra outro, querendo juntar a galera. Mas Marquito, que ainda não tinha nem gingado e nem galera, bufava no cantinho do sofá, se remoendo de raiva porque só tinha quatorze anos e aquela bagunça toda era proibida para ele. Proibida por quem? Por Seu Nilton, é claro; o pai todo poderoso, aquele que se dizia o “General da Banda”.
- Marquito, há sua hora ainda vai chegar.
Só que esta hora não chegava nunca e na noite de sexta-feira a família inteira se embonecava, soltando a franga na avenida, sendo que o pobre garoto recebia a missão especial de cuidar de Vó Nininha.E o que isto significava? Simplesmente ouvir suas histórias da Carochinha, como se fossem inéditas e atuais. Depois fingir que havia adorado, já fingindo que havia adormecido.
- Pô, pai. É Carnaval... Ninguém merece!
Um motivo a mais para ele ficar trancado dentro de casa, fazendo companhia àquela mulher “maravilhosa, simpática e muito criativa”.
Seu Nilton despediu-se com um sorriso maroto, cantando o hino do Timão com suas latinhas de cerveja a tiracolo, se sentindo o Galo da Madrugada.Aliás, como se fosse realmente curtir o Carnaval, porque depois que tomava “todas” sempre tombava num canto qualquer, revirando os olhinhos.
O jeito mesmo era se conformar com as histórias de Vó Nininha, rezando com fervor para que ela fosse descansar mais cedo.
PRONTO, tudo estava preparado para a "Grande Festa". Marquito roía os últimos tocos de unha e não disse uma palavra, protestando em silêncio, toda aquela opressão. Fechou o portão mudo de raiva.Mirou Dona Nininha por rabo de olho e percebeu que ela não tinha culpa de nada .Então, para facilitar o diálogo, foi logo se espichando no sofá:
- Então, como a senhora já disse no ano passado; em 1928 colocou a sua deslumbrante fantasia de colombina e conheceu um pierrô muito “charmoso”. Um “chuchuzinho”! Ficaram se paquerando durante cinco anos; namoraram durante dez; casaram-se e o meu pai logo nasceu. Aí nasceu tia Lídia, tia Júlia, tio Eduardo, tio Bidú...- suspirou profundamente.- E aí...
- E aí, meu querido, que naquela época ainda não existia tantas modernidades como agora.
- Sei disto.Não existia o computador, o celular, o DVD...
-E muito menos o preservativo.- afirmou.
Nossa mãe! Que bomba! Marquito já ouviu muito sobre preservativos, mas nunca imaginou que aquela mulher tão antiga, da época de 1928, pudesse estar falando sobre "aquilo".
-Estou falando sobre a camisinha, meu querido. Isto mesmo.Você talvez ainda seja uma criança, mas é importante que saiba que a camisinha evita a gravidez indesejada e também as doenças sexualmente transmissíveis.Se na minha época existisse a tal camisinha, talvez hoje a história seria outra...- suspirou, sorrindo.
Ela caminhou lentamente até o seu quarto, procurando um pacotinho colorido que estava no canto da gaveta.
- Marquito, este presente é pra você.
- Mas eu nem vou pular o Carnaval, Vó...
- A camisinha não é apenas para ser usada no Carnaval. Você precisa se cuidar todos os dias do ano.Quem gosta de você, é você mesmo, Marquito. Quando sentir que chegou a hora, não se esqueça dos conselhos da vovó. A gente também pode se divertir com alegria, equilíbrio e prevenção. O Carnaval acaba na quarta-feira de Cinzas, mas a vida continua.Isto é saber viver, meu querido!
Marquito nem acreditou no que estava ouvindo; Vó Nininha realmente entendia das coisas.Nisso ela soltou uma gargalhada gostosa, abriu o velho baú com cuidado e rapidamente colocou uma fantasia antiga de carnaval, que deveria estar ali há muito tempo.
- Vamos pular o Carnaval, meu querido.Vem...
Nisso os dois se abraçaram com imenso carinho, rodopiando pelos cômodos da casa numa festa de emoções.Nunca se divertiram tanto!
A noite de Carnaval foi a melhor de todas, pois aquele menino, quase um rapaz, percebeu que os anos passam, mas a sabedoria, o diálogo e a confiança prevalecem sempre, unindo gerações e criando histórias inesquecíveis, como somente Vó Nininha saberia contar.

Silmara Retti -

UM AMOR DE CARNAVAL*




















Todas as noites Mafalda mexia na sua caixinha de badulaques, procurando com saudades as presilhas de strass para ajeitar os cabelos já grisalhos pelo tempo.Passava um brilho nos lábios, fazia um penteado bonito e se perfumava como se estivesse esperando alguém.
Era uma mulher vivida, vaidosa e repleta de lembranças; dona de uma bondade que tinha aroma de flor.
Depois se apoiava no parapeito da janela, sorrindo para as pessoas que desciam a ladeira em direção a praça da Igreja Central.
Procurava em cada rosto um outro rosto que nunca vinha, não voltava e talvez nem existisse mais.E seus olhos de vovozinha irradiavam um brilho de vida, desejando ainda ser muito feliz.
Lá ia Maria, Antonia, Querubina, os meninos da Suzete, Madalena e Dona Pina.O mundo inteiro passava diante daquela janela como um filme de cinema, fazendo festa nas noites solitárias de Mafalda, que observava todos os detalhes com muitas saudades de seu tempo de menina.
- E que menina jeitosinha!- admirava o pai coruja.
Ele era um caixeiro viajante, descendente de nordestino, que vendia enxoval no interior de São Paulo. Aparecia apenas nas datas comemorativas do ano, sempre com um presente surpresa dentro da mala.Às vezes era um tecido colorido, um vestido de chita ou um calçado bacana.
Então nessas idas e vindas, Mafalda foi criada por uma tia solteirona e pela mãe costureira, que fazia suas roupas de festa com bastante babado.
Mas Mafalda já era uma mocinha e queria algo diferente, alguma coisa mais moderna, como nas revistas de moda.
Queria qualquer coisa que lhe deixasse com pose de mulher!
Nisso faltava pouco para o Carnaval e a banda tocava sem parar por toda a cidade, levando alegria pelos cantos das ruas com suas marchinhas que ferviam o coração.
E exatamente ali, há cinqüenta anos atrás, Mafalda se debruçou no parapeito da janela, exibindo seu vestido novo, com os olhos arregalados esperando que a banda passasse mais uma vez.
Nunca havia visto uma euforia tão colorida assim!

Quando de repente, no meio da música, um rapaz mascarado, bonitão e com pinta de artista, fez uma graça com a corneta, lhe mandando um beijo estralado no ar.Era Carnaval e desde aquela época, valia tudo; farra, amores, encontros e desencontros.
Só que Mafalda começou a amar naquele instante mágico, que cantou e encantou a sua alma de mulher.Nem quis saber de mais na-da .Fingiu não ouvir os gritos bravos da mãe e pulou a janela, se perdendo na multidão como se conhecesse aquele rapaz há anos .
Na verdade nem sabia o seu nome e por causa da máscara enfeitada conseguia apenas enxergar os olhos azuis, talvez pintados por guache pela própria natureza, apenas para que combinasse com sua fantasia de marujo.E foram felizes por alguns instantes.
Estavam namorando e só não se casaram porque já era onze horas da noite e ela precisava voltar para casa.
Na outra noite esperou a banda no mesmo lugar, naquela janela.Estava som a presilha de strass, com o perfume de flores, mas ele não veio. Por cinqüenta anos Mafalda acompanhou, da sua janela, a Banda de Carnaval. Agora era viúva, com seus netos criados e estava sozinha na vida.Tinha os cabelos serenos e os mesmos olhos brejeiros daquela menina a procura do primeiro amor .A banda passou, como todos os anos, levando com ela seus palhaços, pierrôs e colombinas.
Então Mafalda prometeu pra ela mesma que nunca mais esperaria. Puxou a cortina, pronta para dormir.
Era quase onze horas da noite e já sentia cansaço. Seu corpo era frágil e exigia cuidados especiais.Foi quando um marujo, com bastante dificuldade para caminhar, lhe chamando por Tereza, Sofia ou Dolores.Não importava o seu nome, porque atrás da máscara colorida tinha um par de olhos azuis, que também lhe procurou por muito tempo.Talvez por cinqüenta anos ou mais, porém nunca se encontraram nesses desencontros da vida.
O Carnaval de Mafalda recomeçou ali, naquela mesma janela, onde uma história de amor ressurgia na lembrança daquelas “crianças travessas”, que só queriam brincar de ser feliz.A vida é uma festa e nunca é tarde para acreditar que cada instante é um eterno recomeço!

Silmara Retti

SEPARAÇÃO*



















Dona Selma e Seu Reginaldo não morriam de amores por crianças e assim
que foram morar juntos resolveram adotar Haroldinho como um filho do
coração.
E quem era esse tal de Haroldinho? Simplesmente um cachorro mimado que tinha o bom e o melhor do requinte paulista; cama macia com almofadas de cetim, prato de porcelana para a sobremesa e copo de suco com canudinho colorido.No verão costumava se refrescar com uma sunga de crochê na sua piscininha de plástico e no inverno usava um capote jeans com um gorro de tricô que deixava Haroldinho com cara de abobado. Ele fez até chapinha para ficar com os pêlos lisinhos.
Só que de bobo não tinha nada!Outros cachorros do bairro odiavam Haroldinho, achando que ele era um traidor da própria raça canina, preferindo se fazer de humano enquanto eles padeciam de raiva, humilhados sem um pingo de dignidade.Mas alguma coisa de ruim estava acontecendo naquela casa e diziam as más línguas que o casal sensação era coisa do passado e a “batata” de Haroldinho já estava assando no vapor...
Dona Selma resmungava o dia inteiro com seus botões e só de pirraça mandava um pontapé na barriga do cachorro que já não tinha nem mais a ração do meio dia... Foi-se o tempo que era um cachorro feliz! Sem amor, sem carinho e sem os biscoitos noturnos, sabor camarão. Haroldinho tava um caco! Oh, vida cruel! Só podia ser inveja da oposição.
Até que o papagaio fofoqueiro espalhou para a casa inteira que Dona Selma e Seu Reginaldo iriam se separar.Vichê Maria!
Com certeza o final de Haroldinho seria num orfanato pulguento, lá do outro lado do mundo, sendo tratado feito um Zé Mané, comendo grama seca do quintal e bebendo água da chuva.
Logo o coitado, que sofria do coração, emagreceu cinco quilos.Tentou marcar uma consulta com seu analista, mas foi tudo em vão.O mundo lhe ignorava! Por mais que tentasse chamar a atenção de seus pais fazendo gracinhas com a bola de borracha eles nem lhe olhavam na cara.Tudo que fazia era motivo de chacota:
- Haroldinho está ficando cada vez mais idiota! – resmungavam.
Só tinham olhos para as suas picuinhas e Dona Selma chorava quietinha no canto da cama enquanto Seu Reginaldo não sentia nem mais gosto em jogar dominó com os amigos.Após tantos desafetos, Haroldinho ouviu atrás da porta que o pobre homem estaria indo embora para Caraguatatuba, sua cidade natal.Foi o fim! Acabou-se em lágrimas e percebeu que o seu desfecho também seria triste, trágico e fatal.
Naquela noite fazia um frio do cão e chovia muito enquanto os dois brigavam na sala.E num chute certeiro mandaram Haroldinho para o meio da rua, sem se preocuparem com sua saúde debilitada.
Por mais que chorasse de frio, não lhe ouviam, porque na verdade ele não tinha nenhuma importância naquele momento .
Já não era mais o cachorro do coração, o caçula, o filho querido!
Então resolveu cair no mundo, feito um Zé Ninguém. Começou a fuçar nas lixeiras para não morrer de fome e a dormir num caixote velho de feira.
Ele não estava revoltado com a própria sorte...Estava decepcionado!
Conseguiu entender na pele o que acontece com alguns filhos quando seus pais se separam e os colocam para fora de suas vidas como se fossem culpados por aquela separação.
Só que após a tempestade, vem o sol e quando Dona Selma não o encontrou na soleira da porta, quase se descabelou toda de arrependimento.Haroldinho não tinha culpa de suas desavenças com Seu Reginaldo e não merecia ser tratado assim .Era somente um cachorrinho perdido naquela cidade sem lei, precisando de um colo de mãe, um abraço de pai e uma casa feliz!
Na verdade ainda formavam uma família e precisavam resgatar aquele filho perdido, porque ele só queria um pouco de carinho, nada mais.
Uniram-se numa busca sem fim! Colocaram anúncio no rádio e no jornal.Distribuíram fotos do pobrezinho e percorreram todas as ruas desesperadamente.
Foi assim que acharam Haroldinho, todo minguado de tanto chorar, perambulando pela cidade, com seu lencinho xadrez enrolado na pata direita, totalmente deprimido.
Nisso os três se abraçaram num momento de paz e juraram que nunca o abandonariam.Talvez não houvesse uma reconciliação...Talvez Seu Reginaldo fosse mesmo embora...Eles tinham muito a conversar, decidir e avaliar, porém Haroldinho merecia respeito e o seu lugar era cativo no coração de cada um deles, principalmente nas horas mais difíceis , onde o Amor prevalece superando qualquer obstáculo !

Silmara Retti

SEM TEMPO


















Desde cedo que a pequena Marília esperava o avô, debruçada no muro do quintal, com os olhos atentos ao movimento da rua.Procura daqui e dali, mas seu Onofre não vinha.De repente lá estava ele, sempre muito ocupado com sua carteira de couro preta, onde guardava fotos antigas de toda a família.Eram sorrisos já apagados pelo tempo, porque não existiam mais.Também não existia mais a guerrinha de travesseiro no tapete da sala, a brincadeira de pega no fundo do quintal e o beijo melado que costumava lhe dar, desejando uma boa noite de sono.
Agora o avô era um homem de pouco tempo e não conseguia enxergar nada além das contas atrasadas.Ele apressou o passo e abriu o portão, com um olhar obcecado, desejando apenas tomar um banho rápido para aliviar a tensão do dia-a-dia.Teria que ser bem rápido, porque ele não tinha tempo.Passou por ela sem perceber que estava crescendo a cada instante e precisava de uma força para ser mais feliz.
Apenas pagar as contas do colégio não era tão gostoso quanto comer pipoca no tapete da sala.E por que não? Era a sua menina e muito mais do que isto; o avô Onofre também precisava de um colo, só que não tinha tempo...
Marília puxou a ponta de sua camisa para lhe contar um monte de novidades, porém ele continuava com os seus pensamentos distantes.
- Ô vô, hoje a professora falou sobre a violência...
Ele caminhou até o banheiro e apenas lavou o rosto para tirar o suor.No outro dia cedo teria reuniões de negócios e a sua cabeça girava a mil por hora.E se não ganhasse a comissão tão esperada, aquela que pagaria o consórcio do carro? Então suava frio, pedindo que lhe servissem uma dose de uísque sem gelo, somente para relaxar.Mas se resolvesse sumir para uma praia deserta? Sem chance.Não tinha tempo!
Marília sentou-se do seu lado soltando uma gargalhada gostosa.Na verdade queria muito que o avô lhe acompanhasse na brincadeira, porém ele continuou mudo.Estava tenso demais e as gracinhas de Marília já não tinham mais tanta graça assim! Havia se transformado numa menina boba, desengonçada e banguela.Só que ela não desistiu, procurando a todo custo algum motivo para que o avô sorrisse novamente.Pulou em seu colo, engasgando com as próprias palavras e com muito medo que ficasse irritado, perguntou baixinho:
- Vô, ô vô, o que é mesmo violência? – roeu o canto da unha, tímida.
Ele não respondeu, porque na verdade não compreendia que a maior violência é o descaso, a omissão e a falta de diálogo. É estar ausente mesmo estando presente e esta violência também machuca, oprime e faz doer tudo por dentro.
Então Marília, na sua simplicidade marota, abraçou o avô Onofre, como há muito tempo não fazia, lhe colocando em seu colo infantil.Acariciou os cabelos grisalhos e lhe contou uma história de ninar, acompanhada de um beijo de boa-noite.Quando percebeu, estavam rindo como duas crianças, porque ainda eram amigos e se amavam de verdade!
Seu Onofre esqueceu-se do mundo nos braços da pequena Marília e resolveu tirar um tempo para si mesmo.No outro dia bem cedinho ligou para o escritório avisando que não poderia ir, pois agora estava em reunião com os prazeres da vida e naquele momento o melhor negócio era a companhia de Marília.E para ela, com certeza, teria todo o tempo do mundo!


Silmara Retti

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

RECOMEÇO












Luisinho sentia saudades do pai porque ele era um homem muito ocupado, cheio de afazeres, e todas as vezes que ele acordava cedo para ir ao colégio, seu Pedro ainda dormia esparramado no chão da sala .
Era um sono pesado que fazia com que ficasse o dia todo de molho, resmungando com qualquer um que desse um “piu” sequer, que fizesse um barulho diferente ou lhe perturbasse as idéias .
Xingava as crianças, falava palavrões cabeludos e não queria a luz do sol no seu rosto ...E dona Janice ouvia tudo calada, no mais puro silêncio apenas para não atiçar a ira do marido .
Afinal de contas ele era o “Poderoso” , o “Rei do Trovão” e sabia impor o seu lugar a golpe de cinta .Para quem não entendesse o recado , um grito só bastava , não precisando usar nenhum outro argumento .Não tinha palavras doces e nem tampouco qualquer outra forma de carinho .Aliás, seu Pedro se dizia muito macho e carinho era fricote de boiola .
Então Luisinho foi aprendendo, com o paizão, a conseguir as coisas no tapa e com muita porrada .E dentro da sua casa não existia espaço para os direitos de uma criança .Somente os deveres :
- Dever de permanecer calado até a segunda ordem .
- Dever de engolir tanta violência, tanto descaso, tanto “poder”, resumido numa única pessoa :Seu Pedro , o Rei do mocó .
Um pai que apenas poderia oferecer à aquelas crianças o seu exemplo de vida .
Depois que anoitecia ele assobiava uma cantiga boemia, colocando a filharada em seu colo, com todo o cuidado para não amassar a calça de linho .
Era famoso na vizinhança e não parava de ir gente chamar por ele no portão .As vezes era o dono do açougue, da quitanda e até algumas mulheres que faziam dona Janice sufocar o rosto no travesseiro, chorando baixinho para ninguém ouvir .Mas não tinha coragem alguma de mudar esta história, como a maioria das mulheres que sofrem qualquer tipo de violência doméstica .
A opressão é uma violência que dona Janice não deveria permitir porque ela também agride e deixa marcas na alma !
Quando seu Pedro chegava ao amanhecer, com o corpo cambaleando, fumava um cigarrinho já com o copo na mão , só para relaxar .
Esta tirania ridícula humilha qualquer pessoa, mesmo que este semelhante seja somente um filho.Porque se não podemos ser bons para eles, não poderemos ser para mais ninguém !
A escola da vida começa dentro da nossa própria casa, com a nossa família e seu Pedro não tinha os olhos verdes , nem azuis ...Tinha os olhos vermelhos!
Até que dona Janice ficou sabendo do A .A
( alcoólatras anônimos ) e com muito medo de lhe deixar nervoso, deixou um bilhete sobre a cama com o endereço anotado a lápis .Escreveu ainda que o alcoolismo era uma doença e que seu Pedro precisava querer se ajudar .Nisso ele percebeu que estava sozinho na casa, sem ninguém para dar ordens, impor os seus limites ...Olhou ao redor e nada ! Apenas retratos pelas paredes.Passaram-se dias e noites ...
Dona Janice e seu Pedro apenas se reencontraram na primeira reunião do A.A ., porque ela o esperava de braços abertos somente para lhe mostrar o caminho de um recomeço .Não seria fácil , mas estaria ao seu lado para lhe amparar, lhe dando a maior força e lhe ensinando que ainda vale a pena acreditar na vida e em si mesmo .
Silmara Retti

QUANDO UM HOMEM AMA UMA MULHER !


















Serginho era um amor de criança que com seu jeito simples encantava todos dali da redondeza. Vivia descalço pra cima e pra baixo com um trapinho de pano que chamavam carinhosamente de ¨bermuda¨ e, se deixassem, só aparecia em casa na hora de ir para cama .
Às vezes dona Isabel nem se lembrava mais dele e dizia, cheia de orgulho, que moleque tranqüilo igual a Serginho, era um achado !
E numa tarde de verão, dessas de tostar o couro, estava pendurado no muro quando seus olhos tímidos encontraram os olhos sabidos da professorinha Liliane e quase despencou de tanta paixão!
O mundo parou naquele momento único em sua vida e com o peito ofegante, suspirou com um pirulito na boca:
- Que mulher!
Uma criança não pode passar vontade e tinha de armar um plano rápido para arrastar Liliane direto para o seu coração.
Ela já era uma mocinha formada e jamais teria um quê de não sei o quê para o lado de Serginho; um moleque magrelo que ainda precisava comer muito fubá de milho.Mas ele ainda tinha esperanças que um dia Liliane conheceria de perto o poder do seu charme irresistível.
Estava cada vez vaidoso, passando horas diante do espelho. Ele levantou as perninhas reparando no tamanho e na finura; os bracinhos que não tinham músculos, a bundinha murcha e desse jeito era covardia! O pior de tudo era que aquela roupa estranha de lhe deixava com jeito de bobo.
Será que dona Isabel, a senhora sua mãe, não lhe tinha mais amor? De que maneira conquistaria a professorinha, se era brega e sem graça, hein? Logo estariam namorando e precisaria crescer imediatamente, para ter pêlos, bíceps, glúteo, panturrilha e se aparecesse uma barbicha ia ser o máximo! Mas o que pode fazer um simples menino de nove anos contra a natureza Divina? Talvez Deus nunca se apaixonou por uma mulher mais velha, do contrário faria os meninos já nascerem com bigode. Agora se dizia um homem maduro e não queria ficar de bobeira no quintal, como um Zé Mané . Aliás, não queria nem se sujar no pó do muro! Engomou os cabelos para trás e passou a usar roupas do irmão mais velho.Passava horas escrevendo cartas de Amor enfeitadas com desenhos do Bob Esponja.Com certeza, era a mulher da sua vida e a mãe de seus filhos.Sentia isto.Era para sempre.Pena que ela não sabia.
No pé da goiabeira estava escrito Serginho e Liliane.Escreveu também na lancheira, na mochila, no caderno de desenho, na parede do quarto...
Liliane nem havia percebido tamanha emoção e achava Serginho meio esquisito, sempre entocado pelos cantos, com os olhos arregalados, filmando tudo.
- Este moleque é meio biruta.- pensava.
Dona Isabel não sabia mais o que fazer para colocar um fim naquele caso de Amor mal resolvido, sem magoar o moleque. Então resolveu convidar Liliane para almoçar domingo na sua casa. Queria lhe explicar o acontecido para que juntas pudessem encontrar a melhor solução. Serginho ficou radiante e nem acreditou que se encontraria com sua musa encantada dentro do aconchego do seu próprio lar.Aliás, do futuro cafofo.Colocou a sua melhor roupa, tomou um banho de lavanda e ainda um pouco receoso, sentou-se ao seu lado para conversar.Do que falariam naquele primeiro encontro romântico, hein? Mal conseguiu abrir a boca para lhe contar sobre a sua coleção de figurinhas do Pokeimon, porque ela desembestou a falar um monte de baboseiras sem graças, como política e educação.Ufa, que mala! – pensou.
Então ele resolveu impressionar a donzela, lhe mostrando o skate novo, a prancha de surf, o boné da Billabong ( que parecia original), o boneco importado do Homem Aranha,as canetinhas coloridas, o livro do Harry Potter...Mas, nada.Aquela perua nem se abalou.Agora ela escrevia receitas de bolo para Dona Isabel e as duas estavam no maior papo furado, nem percebendo que Serginho babava de raiva .Que decepção!- bufou.
A professorinha sabichona não entendia de pipa e nem sabia rodar um pião.Com certeza não gostava de nada de bom e foi assim que Serginho foi saindo pelo canto , disfarçando o mau humor.
Que gostoso ter nove anos e ficar dependurado no galho da goiabeira!
Liliane era bonita e inteligente, mas não sabia aproveitar a vida .
Nisso Serginho aprendeu a sua primeira lição: que para ser um homem de verdade, primeiro precisa ser moleque, com direito a bolinha de gude e bala de goma . Tudo na vida tem o seu tempo certo; vale a pena curtir cada um deles como que se fossem os únicos e acima de tudo eternos!
Silmara Retti -

PARA AMAR E TOLERAR, É SÓ COMEÇAR
























Desde que Seu Leléu ficou viúvo, carente e desiludido da vida, se desmanchou todo, achando mesmo que não valia a pena continuar a viver.Nada mais tinha sentido e o negócio era pendurar as chuteiras de prontidão, esperando a morte chegar e bum!
Continuava desolado com a barba sem fazer, dobrado num canto da cama com a peruca vermelha toda torta.Foi assim que Ivonete, sua filha mais nova, lhe encontrou numa tarde de domingo:
-Ô pai, que absurdo!
Pronto, não deu outra; arrumou todos os seus apetrechos numa mala velha e fez questão que Seu Leléu fosse morar com ela, o marido e os meninos num casarão pomposo bem longe dali.
Foi aquela ladainha, pois Seu Leléu dizia que não queria atrapalhar, ser um estorvo ou mudar a rotina da casa com suas manias de velho...O que Ivonete não sabia era que ele não estava de brincadeira quando falou sobre “suas manias de velho”!
Logo no primeiro dia já colocou as “manguinhas” de fora, fazendo uma Big careta ao ver toda a família grudada no chão da sala assistindo T.V. Passou em silêncio e foi direto para o seu Ninho da Solidão, o famoso Cárcere da Saudades, pendurando na parede retratos antigos da falecida. Embutiu os chinelos de couro debaixo da cama e empilhou os charutos na cabeceira, bem ao alcance dos dedos, só de medo que não pudesse alcançá-los na escuridão da madrugada.
Seu Leléu era uma figurinha carimbada. Pregou um cadeado gigante na porta,escrevendo num papel de carta todas as suas exigências para que conseguisse viver em PAZ:
-Na segunda deveriam servir a sopa de lentilha.Detalhe: na cama.
-Depois das dez queria silêncio absoluto, pois precisava meditar com seus botões (no maior ronco do mundo), é claro.
Ivonete até que entendia os chiliques do pai e tentou com muito custo segurar esta onda, mas com o passar dos dias o clima ferveu e ninguém aturava os desaforos de Seu Leléu, que já tinha diversos apelidos como o “O Fiscal”, “O Monstro da Peruca Vermelha”, “O Vigilante Rodoviário”...

Não teve outro jeito: o pessoal da casa começou a pegar pesado, exigindo que Ivonete tomasse uma atitude ou senão ficaria sozinha com aquela Mala sem Alça.
De um lado estava a galera toda e do outro o pobre do Seu Leléu, que com o passar do tempo, estava ficando mais cricri e exigente:
- Chega de blábláblá durante as refeições.Quietos!
- Nada de sapatos dentro de casa.Quero todos na soleira da porta.
- Que zumzumzum é este? Não estamos num circo e aqui não tem nenhum palhaço, compreenderam?
Então começou a Guerra do Século e Seu Leléu que nunca foi bobo nem nada, percebeu que a sua batata estava assando e com muito medo de ser jogado para fora, como um trapo velho, resolveu mudar de estratégia. Precisava reagir e bem rápido antes que fizessem sua mudança na calada da noite.
Até que uma coisa de louco aconteceu: Seu Leléu madrugou na cozinha, preparando um café da manhã no capricho, do tipo surpresa para os familiares queridos:
-O ovo morno era para o super genro.- sorria.
-O bacon para filha mais fofa do mundo.- cantarolava.
-A panqueca para as crianças maravilhosas!- dançava, enquanto servia.
Apanhou rapidamente a vassoura dando um trato especial na casa, no jardim e colocou o lixo na rua. Ninguém acreditou em tamanho milagre, enxergando naquele homem o desespero em pessoa.
Todos ficaram em silêncio, observando de camarote o seu desempenho.Não tinha mais idade para tamanho desaforo e não precisava ser assim. Sem dizer uma palavra foram todos ao seu encontro, lhe estendendo os braços e lhe proporcionando uma nova chance de participar da família, no dia a dia da casa, com muito carinho, diálogo e tolerância.
Então Seu Leléu colocou pra fora um choro de criança, forte, sentido e carente.Estava pronto a recomeçar, aprendendo com esses mistérios do relacionamento humano, que para viver bem e ser feliz, é preciso apenas um pouquinho de boa vontade.Porque amar e tolerar, é só começar !


Silmara Retti

OS OLHOS NÃO MENTEM JAMAIS







Os olhos de uma pessoa refletem, de dentro para fora, tudo o que passa no seu interior .Não conseguem disfarçar, enganar ou mentir.E foi diante dos olhos de Jussara que Marinho disse abertamente, escancarando para quem quisesse ouvir:
- Eu nunca te amei. –desabafou.
Era apenas uma moça bonita, inteligente e muito prendada, mas que para ele não passava de uma irmã mais nova, uma tia do interior ou um pé de samambaia. Estava casando-se com ela apenas para não deixar a pobre moça abandonada, com aquele barrigão que cabia muito bem um bebê de sete meses e ainda sobrava espaço para uma macarronada com banana.
Talvez fosse dolorido saber a verdade, assim nua e crua, mas Marinho preferiu rasgar o verbo, para que ela não se iludisse.
Antes de juntarem os trapos, a escova de dente e o crediário, ele deixou bem claro que seria tudo pela criança.Jussara assinou embaixo, concordando com cada virgula, mas cheia de “más” intenções.Daquelas de cair a peruca!
Confiava no seu charme e botava a maior fé que com a convivência pintaria um clima romântico.Sabe como é: morando no mesmo teto, dormindo na mesma cama, tirando o mesmo piolho ...BINGO! Marinho estaria no papo .
Jussara armou tudo em secreto.Não que acreditasse que um neném pudesse salvar o seu casamento, mas acreditava piamente que Marinho estava redondamente enganado quando lhe colocou as cartas na mesa daquela maneira impiedosa.Com o tempo mostraria a ele o que na verdade estaria perdendo.
Esperou Maria nascer, sempre na dela, não exigindo nenhum agrado em troca. Dormiam juntos, roncavam juntos e nada mais.
Quando Marinho achou que conhecia Jussara de fio a pavio, ficou pasmo ao perceber que não era somente aquela mulher azarada que engravidou dele e não agradou .Jussara era muito além desta zica do destino, mostrando-se uma Super Mãe ao zelar da pequena Maria como um anjo da guarda.
Marinho se via encantado, só de butuca, no jeito amoroso que ninava a criança em seus braços.E durante o seu tempo livre cuidava da casa e de si mesmo; não tinha como pagar uma academia de ginástica, mas caminhava na praia.Não tinha comprar livros caros, mas freqüentava a Biblioteca do seu bairro.Jussara era inteligente e sabia aproveitar as opções que tinha nas mãos.Fez curso de cabeleireira gratuito na Paróquia, de corte e costura , manicure e até de inglês.
Um dia Marinho havia dito em seus olhos que não lhe amava e com certeza, engoliria cada palavra.E se não fosse, tudo bem.Que vivesse a sua vida!Outros lhe dariam valor porque o mundo não se resumia nos encantos de MA-RI-NHO .
Estava apenas lhe dando uma chance para que lhe conhecesse melhor.O bonitão ficava em cima do muro esperando que Jussara corresse atrás, mas ela não correu nem atrás e nem na frente!Correu em busca daquilo que acreditava: em si mesma.
Investiu na sua vida profissional e em pouco tempo conseguiu montar o seu próprio negócio: um salãozinho de beleza na garagem de casa. Agora andava com roupa da moda, embonecada, com o cabelo sempre feito e a cabeça também.
Às vezes se encontravam na correria do dia a dia; almoçavam juntos e batiam papo.Jussara falava de tudo um pouco.
Sabia sobre economia, horóscopo, saúde. Sabia também como conquistar, encantar e amarrar um homem como ninguém! Fingia nem ligar para as investidas de Marinho e sua vida profissional estava, junto com Maria, em primeiro lugar.
Que surpresa! Aquela não era a mesma Jussara que conheceu: maravilhosa, dinâmica, glamurosa.
Marinho começou a redescobrir aquela mulher.Queria de volta o que havia perdido, aliás, o que nunca encontrou. Pronto, tudo mudou.Agora era ele que babava em cima de Jussara.
Começou a fazer de tudo para chamar a sua atenção e resolveu entrar de sócio no Salão de beleza apenas para dar o bote .Agora eram amigos, companheiros, cúmplices ...
Numa noite, enquanto Jussara contava uma história para Maria dormir percebeu que um homem apaixonado estava lhe observando.Um par de olhos que refletia de dentro para fora tudo que passava no seu interior.
E diante dos olhos de Jussara, Marinho suspirou:
- Eu sempre te amei ...e não sabia.
Não precisou dizer mais nada, lhe cobrindo de beijos.Agora estariam casados, de verdade.Jussara lhe encarou, sussurrando:
- Eu também te amo.E sempre soube, desde o nosso primeiro olhar.
Nisso se abraçaram num reencontro apaixonado.Porque os olhos não mentem jamais e não conseguem disfarçar a verdadeira linguagem do AMOR.


Silmara Retti

O SONHO DE JOBIM












Para o final do ano não faltava quase nada. As horas voavam e o tempo passava a galope, num piscar de olhos.
Quando viu, já foi! Então dona Celeste tricotava com a língua uma festa de cair a peruca , arrebentar a boca do balão e a conta bancária, é claro ! Mas para dona Celeste uma “fortuna” era apenas um detalhe bobo.
Sempre foi a Rainha do Dindim e nadava em dinheiro, chique como quê, esnobando o seu patrimônio “dourado” para quem quisesse ver . Mulher de fino trato esta “doninha”...
Decorou cada peça do seu armário , sabia de cor os sapatos de luxo e as jóias que guardava no cofre .
Rica, boba e aparecida.
Um "espetáculo" de madame! Criava o sobrinho como que se fosse a própria mãe dele, ingressando o “boneco” no mundo reluzente da sociedade grã-fina.
Só que Jobim era apagado por dentro; triste e amarrado pelo desejo da tia rica. Como sofria o coitado! Não tinha boca pra nada, sendo exibido de lá para cá como se fosse o seu maior investimento.
Estudava até de madrugada, praticava esportes da moda e se acabava no piano.E a galera aplaudia de pé, dando uma força para que Jobim se sentisse o show do século.
Sem perguntar nada para o moleque, resolveram por conta própria promover uma tarde beneficente para presentear as criança de uma favela qualquer, sob a mira de um jornalista emocionado que com certeza estaria por perto registrando tudo.
- Jobim , fala francês, fala ...Jobim, vai para o piano, vai.Jobim, toca aquela sinfonia ...
E lá ia o pobre menino, que na verdade se corroia por dentro, murcho de dar dó .
Nunca gostou de francês.Piano lhe dava enjôo.Mas ele não tinha escapatória, porque a titia rica lhe puxava pela coleira, impondo os próprios desejos, só para se aparecer as custas do moleque .
Aliás, moleque ele nem podia ser.Parecia mais um criado mudo ambulante.
Se tentasse suspirar alto, era comido pelos olhos de dona Celeste que vigiava todos os seus passos.
Que idéia maravilhosa: uma tarde dedicada aos pobres arrancaria baldes de lágrimas e Jobim já estava convocado para cuidar da parte musical , colocando em prática o que aprendeu num curso intensivo, “daqueles” que odiava profundamente !
Para ele tudo aquilo era um sacrifício enorme e fazia com muita má vontade.Sempre estava de cara feia, bufando de raiva e quietinho num canto para que ninguém desconfiasse.
Mas seria impossível não perceber que Jobim estava de “bico.Só que ninguém se importava com o “bico ridículo de Jobim ”.
- Antes de casar, sara! - riam pelos cantos.
Dona Celeste estava tão deslumbrada com a idéia que passou por cima dos sentimentos de Jobim, feito um trator desgovernado .
Na sua cabecinha de codorna, um moleque não tinha querer.Não tinha vontade e nem sonhos.Era apenas um boneco “amestrado”, que andava com as pernas da tia.Pronto, tudo foi marcado na agendinha florida de dona Celeste e o evento seria um sucesso, matando as colegas de pura inveja por seu desprendimento e da sua generosidade de “araque”.
Só que as coisas não conseguiam dar certo.Lógico, com Jobim infeliz, mal humorado, de “zica, só podia dar “furo” mesmo !
Quando a gente faz sem vontade de fazer, é infelicidade na certa.
A maior surpresa do evento seria Jobim, que cansado de tanta opressão, estava mesmo afim de dar o seu grito de liberdade .
Esperou que toda a grã finada se reunisse para que fossem acertados os últimos detalhes e sumiu do mapa .
- Justo agora! Que desacato! Que decepção !
Bola para frente .Com Jobim ou sem Jobim, o evento seria um grande sucesso.
Na verdade Jobim não era nada, apenas o sobrinho abobalhado de dona Celeste .Uma sombra opaca!
Lá se foram com os pacotes de presentes numa euforia doida.Todos estavam engomados, perfumados, emocionados ...
Discurso daqui e dali .Fotos e mais fotos!
Faziam fila indiana para receber seus pacotes de Natal . Só que de repente eis que surge um palhaço vindo do nada, fazendo piruetas e caindo no chão. Foi uma festa e a criançada não parava mais de rir .
Ninguém sabia donde tinha vindo aquele palhaço tão engraçado, com sua cara de lua toda pintada, arrancando a atenção da galera num piscar de olhos. Dona Celeste delirava de tanto rir com suas travessuras, muito mais empolgada do que qualquer criança .E quando aquele palhaço caminhou em sua direção lhe oferecendo uma flor, pode perceber atrás da maquiagem colorida os olhos vivos de Jobim, cheios de lágrimas, mas lágrimas de alegria, de emoção, de liberdade.Estava dando o melhor de si para fazer o que realmente gostava ; ser feliz !
E somente assim conseguiria fazer os outros felizes também, realizando o seu próprio sonho que merecia muito respeito !

Silmara Retti

O REI








Conta a lenda que existe um Rei muito poderoso; dono exclusivo de todas as coisas do Universo, mas mesmo assim humilde e misericordioso.O melhor do mundo !
Isto é o que diz aqueles que O conhecem de perto .
Já aqueles que não O conhecem tão bem costumam ficar distantes e com muito medo de se aproximar .
Dizem até que Ele é misterioso, bravo e castigador .
Que nada ! Este Rei é um Pai Coruja com seus filhos e está sempre de braços abertos, num abraço gostoso , envolvidos em seu colo protetor .
Na verdade Ele possuía terras e mares, com a natureza toda fluindo de suas mãos .Então resolveu povoar cada canto, distribuindo a sua família pelo mundo .Para ela deu o bom e o melhor !
Porém o Rei é um ser justo que espera pacientemente que seus filhos cresçam por mérito próprio, aprendendo com as dificuldades e superando os limites .
Somente assim conquistariam com sabedoria o seu lugar ao sol , suando a camisa nesta escola evolutiva que se chama VIDA .
Alguns gostaram, fazendo a festa . Já outros ficaram ressabiados, reclamando de tudo ...do sol, da chuva e do vento .Queriam mesmo viver de brisa !
Então o Rei fez o possível e o impossível para agradar a filharada ingrata, colaborando para que tivessem oportunidades de progredir .
Para que não ficassem bitolados em um mesmo lugar, fez questão que conhecessem o mundo, colocando uma estação de trem para que pudessem ir e vir, numa viagem constante para o infinito .
Mesmo assim apareceu o time da oposição que logo se revoltou com a idéia de ter que deixar provisoriamente suas raízes .Foi uma lamúria total !
Aqueles que chegavam já vinham com a corda toda, mas o que partiam se desesperavam à toa, como que se fossem morrer de verdade ...
Que falta de fé! Este Rei não mata ninguém porque no seu Universo de Amor tudo é vida, aprendizado e evolução .Era só uma viagem, nada mais !
Seus filhos eram passageiros de primeira classe nesta estação que os levariam à outros lugares .
Foi exatamente assim que aconteceu com Ana , quando de repente sentiu que seu irmão Antônio já estava com a passagem na mão, esperando apenas o dia do embarque .Ela quase enlouqueceu sem perceber que seria bom para Antônio curtir o Universo Exterior .
Ana se negou a compreender , adoecendo de tristeza .
Após a partida do irmão, jurou vingança contra o Rei e desta forma nunca mais foi feliz .
Ninguém conseguia fazer com que ela enxergasse a viagem de Antônio como um passeio comum, pois todos um dia também irão partir .
É a Lei da Evolução! Só que Ana preferia enxergar com os olhos do egoísmo e com isto seu irmão não conseguia aproveitar os momentos de liberdade no espaço porque estava penalizado com o sofrimento da infeliz .
Desta maneira Antônio foi até o Rei e de peito aberto lhe contou sobre o seu destino .
Após muito tempo de conversa, lhe foi sugerido que mandasse uma carta de conforto , incentivando Ana a ocupar o seu tempo com outros irmãos que estavam mais próximos, esperando apenas um gesto de carinho .
Quanta alegria ! Foi assim que Ana procurou ser voluntária numa Casa de Abrigo para menores carentes.Ali ela conseguiu transformar alguns instantes de separação num reencontro diário, enxergando em cada criança o rosto querido de Antônio lhe sorrindo de novo, com a certeza de um breve regresso !


Silmara Retti

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

O PRESENTE DE DEUS











Existe um lugar no céu, colorido por um arco-íris e perfumado por canteiros de camélias onde alguns anjos perambulam de lá para cá.Não tocam harpa o tempo todo porque isto é coisa do passado, quando ainda jogavam baralho só para matar o tempo.
O anjo Lilico se cansou de tanto descansar, achando até que no andar debaixo as coisas eram mais divertidas.
Então ele resolveu procurar o balcão de emprego celestial para ocupar o tempo colaborando com Deus, apenas para não se sentir inútil e injuriado com tamanha monotonia.
Naquela madrugada ele estava de plantão e quase se descabelou ao buscar a perfeição das cores, para que pudesse oferecer o raiar de um novo dia iluminado, feito um show de luzes .Vira daqui, remexe dali e pronto; lá estava o sol nascendo junto com a beleza de suas nuvens, formando o desenho de um elefantinho só para alegrar a molecada.
Ele mesmo se aplaudiu de pé, orgulhoso por sua capacidade profissional de transformar qualquer cenário artístico num cartão-postal com jeito de Paraíso.Mas naquele dia poucas pessoas se deram ao luxo de olhar para o céu e se ele colocasse uma jaca podre no lugar do sol, ninguém perceberia a diferença.
E ai Lilico desmoronou; o seu trabalho glorioso não tinha mais nenhum valor para a humanidade.Não dava lucro e nem ibope.Qualquer um poderia apreciar este espetáculo debruçado na própria janela, absorvendo para si todas as energias da Vida, sem pagar nenhum ingresso por isto.Então Lilico resolveu dar uma volta e bater uma perninha, apenas para ficar sabendo do comentário do povão.
Foi quando caiu com tudo no quarto de Seu Dimas que ainda dormia ao lado da patroa.Ficou de butuca esperando que acordasse:
- Ufa, quase dez horas da manhã ...Que desperdício!- pensou Lilico - Ele é um homem da roça e com certeza quando der de cara com aquele sol maravilhoso, vai pular de alegria por saber que a natureza se multiplica assim!
Só que nada disso aconteceu e Seu Dimas virou de lado, reclamando do tempo:
- Que coisa, tanto calor assim é de torrar os cabelos! Ninguém merece.
Sinceramente, Lilico não agradou.Tudo bem.Se não gostasse do sol, no outro dia produziria numa chuva bem poderosa e BUMM! .Dito e feito.Lilico caprichou na produção, apenas para fazer uma graça para Seu Dimas.Teve efeito sonoro, raio pra todo lado e “ toneladas” de água, porém o homem tornou a reclamar, cobrindo a cabeça com o travesseiro:
- Tanta chuva assim só serve pra inundar o mundo!
Lilico não entendeu nada.Não conseguia agradar as pessoas.Estavam todas insatisfeitas e o culpado de tudo ...era o TEMPO !
Não percebiam que o tempo é apenas um cenário para a luta cotidiana, uma fonte de energia para o nosso corpo e principalmente para a alma.
Abaixou os olhos entristecidos e antes de partir, cochichou no ouvido de Seu Dimas:
- Eu procurei fazer o meu melhor.Enquanto você dorme todas as noites, a natureza não descansa e se multiplica, se amplia e constrói paisagens, colorindo um mundo novo que estará brilhando logo cedo diante de seus olhos.São plantas que nascem, aves que voam e crianças que chegam, trazendo com elas a esperança de um recomeço.O Dia é apenas um caminho que nos levará ao Infinito, levando todos os nossos sonhos e com certeza as nossas realizações.Receba o seu Dia como um presente de Deus, mesmo que tenha um sol escaldante ou uma chuva sem fim. Porque este dia é capaz de despertar alegrias para todos que amamos e principalmente para nós mesmos.O importante não é apenas ter um bom dia.O importante é fazer um bom dia para alguém.
Assim Lilico acariciou a face de Seu Dimas, indo embora na pontinha dos pés para não acordar ninguém.
De repente ele abriu os olhos sorrindo e lhe acenou agradecido, como se estivesse sonhado .
- Ah, que sonho maravilhoso, até parece que um anjo passou por aqui... - sussurrou consigo mesmo.Hoje vão ser um dia dos “bão”.Quero aproveitar até a última horinha...Ê belezura, sô!
Seu Dimas pulou da cama todo faceiro, cantarolando uma velha canção.Colocou as botinas de couro, lavou o rosto com água fresca e foi o primeiro a sentar-se na mesa parta tomar o café da manhã, preparado com muito carinho pela “patroa”.
O dia estava apenas começando e com certeza seria o melhor de todos, porque aprendeu a recomeçar intensamente cada instante como se fosse o único e sagrado nesta jornada evolutiva que se chama VIDA.


Silmara Retti

O PRESENTE DA MAMÃE


















Nem bem clareou o dia, Joana martelava na cabeça do maridão, dizendo que aquele domingo deveria ser especial: o mais encrementado de todos. Justamente porque se tratava do Dia das MÃES , marcado e sacramentado no calendário da sala por um circulo vermelho para que ninguém esquecesse do frango assado e do presentinho no capricho .
Teria que ser o almoço do Século com toda a família reunida, álbum de fotografias passando de mão em mão e histórias antigas da época do dinossauro .
A avó Etelvina estaria no canto da mesa junto com tia Leonor e a galera da terceira idade, só esperando o momento certo de desenterrar o passado do fundo do baú .
No Dia das Mães valia tudo: Miltinho que nunca se deu com Emílio, Joana que aproveitava a oportunidade para colocar as fofocas em dia , Isabel que metia o pitaco na vida de Selminha...
Afinidades talvez não tivessem mais nenhuma, apenas um sentimento de obrigatoriedade que faziam estar presentes ...com presente .
Joana gastou tudo o que tinha e o que não tinha para fazer bonito.Embonecou-se no maior luxo, decorando cada frase de amor que pudesse resumir o significado da palavra mãe em sua vida.Porém como nunca se entenderam , um pacote enfeitado falaria muito mais do que qualquer discurso .Tava tudo combinado: enquanto Emílio se bronzearia na churrasqueira, Joana deixaria a mesa posta com a maionese e a farofa, o pãozinho torrado e um sambinha de fundo .E foi exatamente assim ...
O almoço foi maravilhoso , apesar dos assuntos serem os mesmos do ano passado:
- a reforma da casa, o consórcio do carro, a compra do terreno em Santos ...
Lá se foi mais um domingo do Dia das Mães e de madrugada, enquanto Emílio tentava dormir sossegado, começou a lembrar-se daquele tradicional almoço com toda a sua família reunida.Lembrou-se da infância simples, da sua mãezinha humilde , do arroz com feijão feito com muito carinho e de repente lhe caiu a ficha :
- Dona Jacira não estava mais entre eles .Há quanto tempo, meu Deus !Desde que ele, ainda jovem, havia discutido em casa e ido embora dali , se remoendo de tanta mágoa .Aonde estaria aquela mulher forte, que sendo pai e mãe ao mesmo tempo, conseguiu lhe dar o melhor de si? Ela não estava no tão glorioso almoço do Dia das Mães, porque talvez nem soubesse mais que era o seu dia .
Emílio não conseguiu dormir e sem dizer uma palavra a ninguém deixou um bilhete na cabeceira da cama de Joana, explicando que não tinha mais sentido passar o segundo, terceiro ou quarto domingo do mês longe de sua mãe .
Foi quando dona Jacira, com muita dificuldade, ouviu passos no quintal e abriu a janela para enxergar melhor .Assim pode ver de perto o rosto de Emílio, inundado de lágrimas, ao voltar para seu colo, como que se nunca houvesse partido.
-Ah, meu menino! Você voltou!
Nisso o seu coração ficou em festa porque aquele era o momento mais esperado de sua vida ; um Dia das Mães atrasado, porém comemorado com muita emoção junto ao seu melhor presente.
Silmara Torres Retti

O PERDÃO


















Desde que Beatriz engravidou aos 16 anos de idade, Seu Walter morreu para o mundo. Armou o maior barraco, acusando a mulher de cúmplice nesta maracutaia toda e aproveitou o ensejo para ter um piripaque fulminante .
Ele não se conformava que a menininha do papai não queria mais brincar de boneca e gostava mesmo era de um boneco...
Todos os dias, Beatriz esperava ansiosamente que o pai fosse trabalhar para fazer a festa pelas costas do infeliz.E foi este detalhe macabro que acabou com a alegria de Seu Walter , fazendo com que deixasse de viver a vida como antes . Trancou-se definitivamente atrás de uma máscara de ferro e não achou mais graça em nada .
O tão famoso almoço de domingo faliu de vez e agora que cada um passasse em sua própria casa .
O que mais lhe incomodou foi a traição explícita de Beatriz , por ser uma criança que teve de tudo e que de repente quase matou o “papy ”do coração , enganando a todos com aquela carinha de galinha morta.
Mas a vingança de Seu Walter foi cruel demais.Jogou a pobrezinha de mala e cuia no olho da rua sem direito a um pingo de clemência .
O que aconteceu depois com ela, só Deus sabe .
Foi osso duro de roer ! Fazia faxina para fora com a barriga enorme varrendo o ladrilho, apenas para conseguir se manter .
Nunca mais se viram .Nunca mais falaram sobre o assunto. Toda aquela mágoa fez um rombo danado no peito de Seu Walter, que passou a ficar muito doente .
Sentia dores ali dentro e se recusava a fazer uma consulta médica .Pra quê ficar bom, se não tinha mais nenhum motivo para ser feliz?
Os outros filhos tentavam colocar panos quentes na situação, porém não tinha jeito que desse um jeito .
Beatriz estava sozinha e ele nem queria saber notícias de seu paradeiro misterioso .Arrancou todas as fotos da estante e proibiu que tocassem em seu nome , transformando o quarto num depósito de cacarecos .
Foi muito triste para os dois .De um lado estava um pai com o corpo dolorido de tristeza e do outro ,uma menina tentando ser mulher às suas próprias custas .
Foi difícil saber quem tinha razão, pois a vida da gente é um tal de acertos e erros que não tem tamanho!
O tempo é curto e não vale a pena ficar amassando barro, no mesmo lugar .O caminho é cheio de surpresas e cair faz parte do dia-a-dia ...
Faltava pouco para o nascimento da criança e Beatriz se sentia mais forte do que nunca .
Arrumou algumas coisinhas dentro de uma sacola de plástico e foi para a maternidade .Não tinha ninguém e precisou assumir a sua gravidez com unhas e dentes!
Lembrou-se do pai que havia lhe ensinado desde pequena a ser forte e determinada , enfrentando os problemas com a cara limpa e com muita dignidade .
Assim pensou no seu jeito carinhoso de lhe colocar no colo, na pior das dificuldades e sentiu saudades .
Como o velho Walter fazia falta naquela hora !Queria que estivesse ali, com ela mesmo que fosse para lhe dar um puxão de orelhas .
Quando o filho de Beatriz chorou para o mundo, ela chorou também .Era uma mistura de emoção, medo, de felicidade ...Mas a felicidade maior foi quando aquele homem envergonhado apareceu do nada, trazendo com ele tudo de bom .
Tinha no peito o peso da mágoa pronta para se desfazer em lágrimas , lavando a alma num sentimento mágico chamado perdão .Eles não conseguiram pronunciar nenhuma palavra; qualquer comentário seria demais naquele momento .
Seu Walter a colocou no colo como que se fosse a mesma menininha de sempre .Beatriz ainda tentou lhe explicar aonde tinha errado, mas para quê.Já passou tanto tempo !
Ele estava se sentindo outro e as dores no peito sumiram, pois eram dores do passado .Tinham muito o que conversar , o que se abraçar e o que se tocar.
Com certeza domingo teria aquele churrascão na casa do Seu Walter e Beatriz estaria de volta, com um motivo todo especial para recomeçar!



SILMARA TORRES RETTI -

MÃE DO CORAÇÃO *










Deus não descansa nunca e naquela manhã chuvosa estava muito Ocupado com a criação da Natureza, porque no Universo tudo é crescimento, renovação e Vida.
Alguns anjos cuidavam dos últimos detalhes para que as coisas acontecessem no tempo certo, evitando as fofoquinhas da “oposição”.Então foi feita a chamada das crianças que iriam desembarcar na Terra até o final do dia:
- ANTÔNIO, CARLOS, TOMÉ...
Chama por um e por outro e Liliano se fez de surdo, com a cara mais feia do mundo, descontente com o Criador.
O moleque não queria de jeito nenhum mudar de casa assim tão de repente, pois o Paraíso era ali e qualquer outro lugar não seria mais gostoso.Nisso pediu um tempo, com muito medo de um recomeço.
Então o Criador percebeu que precisaria achar uma família decente para Liliano e o anjo Bebeto resolveu bater uma perninha por ai, mexericando nas casas a procura de alguém que pudesse receber aquela criança com dedicação e amor.
Até que ouviu um choro forte de mulher, pedindo em suas orações um remédio para suas doenças mais profundas e a maior de todas se chamava solidão.
O anjo sentiu um cheiro de Amor no ar, que saia de dentro da sua alma.Pronto,achou,estava diante do berço materno de Liliano.
Anotou seu nome e endereço, voltando orgulhoso para o Céu:
- Missão cumprida!
Trancou-se na sala de áudio e vídeo somente para assistir o filme da vida daquela mulher desconsolada e todos os momentos passaram diante dos olhos de Bebeto, sempre atentos em imagens que não tinham sentido e sem nexo.Ê, Dona Inês! Ela nunca gostou de ninguém e desde mocinha não tinha paciência para novas amizades.
Só que o anjo Bebeto não se conformou e pediu ao Criador, num memorando urgente, que lhe concedesse uma nova oportunidade para encontrar um motivo especial para se doar aos outros.Ser útil e feliz!
Na verdade seria sua chance de mudar de rumo; escrever um livro, plantar uma árvore ou ter um filho.Ter um filho parecia um milagre da natureza, pois dona Inês não tinha mais idade para isto.
Então o anjo teve uma idéia:
- Um filho também nasce do coração.
Depois de algum tempo, quando dona Inês já se achava esquecida por Deus, nem se lembrando mais daquela prece que havia feito num momento de desespero, foi chamada no meio da noite por uma vizinha escandalosa:
- Corre Inês, corre!
No final da rua haviam encontrado um cesto de vime com uma criancinha dentro e ela chorava forte.
Dona Inês não pensou duas vezes, sentindo que estava diante de sua grande chance de ser feliz.
Era Liliano lhe chamando de novo para a vida.Agora Dona Inês precisaria de muito tempo para poder ser Mãe em todo o seu esplendor.
Ali no seu colo estava o remédio para todos os males, porque uma criança não é problema.Uma criança é o caminho que nos leva de encontro ao Criador, trazendo com elas a esperança de um novo dia.

Silmara Torres Retti

ESCOLA DA VIDA






















Dona Iracema só teve dois filhos nesta vida: Antenor e Walmor ; a dupla dinâmica da cidade .Andavam de braços grudados como comadres, de lá para cá, atazanando a vizinhança com suas brincadeiras infernais. Antenor era o mais velho e quando ficou mocinho logo se acertou num serviço para ajudar nos gastos da casa, sempre de plantão com seu jeito de filho dedicado e companheiro.
Tinha o maior xodó com dona Iracema e só faltava lhe carregar em cima da cabeça, levando a boneca para a consulta ao cardiologista ou a missa de domingo.Nunca pensou em casar porque já tinha a própria mãe na sua cola, mas ele fazia com gosto e jamais reclamou da própria sorte.
Antenor era uma belezura! Tirava a roupa do corpo para fazer de tapete e preferia viver sozinho, apenas para ter mais tempo para cuidar da família.Enquanto isto o pequeno Walmor engordava a cada dia; sempre robusto e com cara de mocinho rico , mas na verdade não passava de um grande picareta ! Explorava a dedicação do irmão até a última gota, não se fazendo de simplório, não senhor. Queria ser um doutor cinco estrelas, invejado por todos.
Antenor que se “esgüelasse” para lhe pagar tudo o que ele mereceria. Fez curso de inglês, computação, aula de ginástica e até corte e costura, as custas do outro, que fazia hora extra na firma para lhe dar do bom e do melhor.
Antenor era um homem honesto, vivido! Levantava ás quatro da matina com um “zóiudo” dentro da marmita e lá ia ele pegar o trem em rumo a mais um dia de trabalho.Nunca gastou nada consigo mesmo, investindo cada tostão furado no futuro de Walmor.
Dona Iracema sentia muito orgulho disto, mas temia pela felicidade do filho mais velho, pois ninguém consegue ser feliz se não investir em si mesmo; Walmor que se ralasse também para conquistar o seu lugar ao sol, caramba!
Só que ele era o bebezinho da mamãe e mesmo com 30 anos de idade parecia o boneco Gugu , vestido impecavelmente como o dono do Mundo . Estufava o peito, empinava a bundinha e saia pra galera, cheio de discursos decorados em frente ao espelho.Não queria ser pobre.
Falava muito bem o português e se achava o professor do ano .Todas as vezes que Dona Iracema falava alguma palavra errada, se mordia de tanto rir, corrigindo a mãe em voz alta para que todos percebessem a sua cultura;
- Não é “estrômago”, mamãe. Preste atenção!
Dona Iracema se sentia ridicularizada com a inteligência do filho sabichão e preferia viver “muda”.
Walmor se enrabichou com uma fulana ricaça e foi morar com ela num bairro distante dali, dando palestras sobre política, economia social e um monte de teorias que aprendeu nas escolas.
Como Antenor ficou na pior, o irmão mais novo lhe fez a proposta do século: - poderia ser o seu motorista particular. Quem sabe assim aprenderia muito, ouvindo os seus discursos sociais.Ele sentiu-se até envaidecido por poder colaborar, mais uma vez, com o progresso de Doutor Walmor .Usava um uniforme de linho azul escuro e quase nem se falavam, pois o “boneco inflável” levava uma vida muito corrida!
O final do ano chegou e assim Doutor Walmor estaria ocupadíssimo com suas palestras e bibibi-bobobó ...Desta vez falaria sobre a miséria do país e as dificuldades do trabalhador brasileiro .
Sabendo que seria um sucesso, convidou o irmão para que sentasse na primeira fileira, apenas para poder lhe ouvir de perto e assim aprender um pouco mais.Falou por três horas seguidas, explicando a sua mais longa teoria sobre a desigualdade social.Então a platéia aplaudiu agradecida por seus esclarecimentos e certos de que estavam diante de um “deus do trovão”, começaram a lhe bombardear com um monte de perguntas sobre o discurso.
- Êpa, não foi assim o combinado! - remoeu-se de raiva.
Ele se embaralhou todo, procurando rapidamente nos livros o que poderia falar.Então, muito irritado, apontou para Antenor, explicando que aquelas perguntas eram tão tolas que até mesmo o seu próprio motorista particular poderia responder.E Antenor, vermelho como quê, se levantou a pedido do “patrão”.
Começou a falar, com muita dificuldade e timidez, sobre o modo como batalhou para ser um homem de bem. Sabia perfeitamente como um trabalhador luta para alcançar seus objetivos e detalhou tudo o que havia aprendido na escola da vida.Com seu jeito simples, conseguiu expressar a sua experiência, sem teorias, sem papo furado, e por fim falou sobre a importância de ser honesto consigo mesmo e digno de sua própria consciência, fazendo o melhor de si para os outros .Sem medir esforços para servir de degrau na vida de alguém!
Walmor não conteve as lágrimas que brotavam no canto dos olhos, se sentindo um mero aprendiz. Levantou-se emocionado, sendo o primeiro a aplaudir ANTENOR de pé, porque naquele momento conseguiu aprender com ele o verdadeiro sentido da palavra sabedoria. Com certeza estava muito longe de poder ensiná-la a alguém, pois jamais a conquistou de verdade, de dentro para fora, do seu coração.

Silmara Retti

domingo, 16 de agosto de 2009

EMOÇÕES *














Às vezes a gente passa a vida inteira apenas se preocupando com um monte de picuinhas que não acrescentam nada de bom ao nosso curriculum, porque muito mais importante que a quantidade de vida, é a qualidade ! É um conjunto de emoções, risos, amores. Tudo de gostoso que só faz bem pro corpo e pra alma.
E é tão saudável falar o que se sente, elogiar um amigo ou abraçar uma criança! Essas coisas que Seu Castilho não fazia nem matando. Só tinha boca pra reclamar e carinho só poderia ter um nome: dinheiro no bolso pra ele e para os custos dele.
Era um homem controlado nos gestos e nos gastos! E o seu gesto preferido se resumia em bufar de raiva quando chovia ou fazia sol. Quando tinha um problema ou quando precisava inventar algum...
Pra mulher nunca disse nada de bonito e sua declaração de amor era as contas pagas, sempre em dia, com um baita carimbo em cada uma.Para os filhos não tinha palavras e por mais que lhes fizesse todo o bem do mundo, guardava pra si um momento propício para demonstrar tamanha afeição.
Poderia ser no baile de formatura, no dia do casamento ou quando ficassem mais velhos. Só que os moleques precisavam de um pai agora e Dona Berta queria um maridão pra já.
Ele não percebia tantas necessidades assim... Achava que uma geladeira repleta de guloseima, falava mais alto, o dinheiro pra feira aos sábados, o leite e o pão comprado todas as manhãs. Seu Castilho não ligava pra esses fricotes que deixam o nosso dia-a-dia no capricho. Ele achava que era um homem equilibrado e acima de tudo realista. E pensando desta forma passou momentos brilhantes em branco e preto. Não curtiu uma bobeira engraçada, uma piada diferente, um riso frouxo... Acumulou milhões de dizeres esperando apenas o momento exato pra falar. Aí sim iria rasgar o verbo!
Diria que sempre achou Dona Berta um mulherão, que amava muito seus filhos e que faria o impossível para contribuir com a felicidade de todos. Porém enquanto este tempo certo não chegasse, continuaria a ser o Môsca Morta que fazia questão em ser!
Justamente por seu Castilho se trancar de dentro pra fora, tudo ao seu redor empacava feito um burro teimoso e não conseguia seguir o seu caminho com tranqüilidade. O patrão achava que ele era um saco, os amigos não conseguiam chegar perto e a família simplesmente sumiu. Nada de tios, primos ou alguém que pudesse ameaçar o seu santo Lar.
Na verdade quem mais sofria com este pacote vazio eram as pessoas que lhe desejavam o melhor: dona Berta e os filhos. Eles davam sem receber, amavam sem nada em troca e não era justo viver assim porque não se adia uma emoção.
A maior oportunidade de ser feliz é aqui e agora . Depois já é futuro e não podemos nos iludir com o amanhã.
Até que um dia bem cedinho, o despertador tocou e rapidamente dona Berta pulou da cama pra preparar o café para aquele Boco moco que iria se arrastar para o serviço. Mas esta rotina diária não aconteceu porque Seu Castilho continuava amuado embaixo do cobertor.
Suava frio com um febrão danado que lhe fazia delirar. Fala daqui, resmunga dali e sua vida inteira foi passando feito um filme diante dos seus olhos. Era uma vida xoxa e sem valor, tudo feito somente por obrigação e pequenos gestos de carinho não tinham nenhum sentido.
Então seu Castilho pode observar dona Berta e os filhos chorando ao seu redor, com muito medo que não conseguisse chegar vivo a lugar nenhum, principalmente no momento certo, que parecia não ter mais data exata no calendário de ninguém.
Poderia ser ali, naquele instante.
Seu Castilho não teve dúvidas e tentou falar o que nunca lhes disse. Embaraçou-se com as palavras guardadas dentro do peito a anos, porém nada que dissesse seria tão forte quanto o abraço apertado que deu em cada um deles , transformando-os numa só alma, para que pudesse fluir a verdadeira expressão do AMOR.



Silmara Torres Retti