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quinta-feira, 20 de agosto de 2009

VIÚVEZ VIVA*
















Eu faço amor com você todas as vezes que minha lembrança penetra a pele da sua alma, traduzindo para os meus olhos uma saudade dolorida; sem sentido, sem motivo e sem perdão! E nos enlaçamos num momento único, de prazer silencioso, quase mudo, como tudo que me incentiva a gritar por seu nome, gemendo de vontade de ter você dentro de mim, só um pouquinho mais.
Vem, se encaixa nas minhas entranhas e beba do meu néctar, pois saciarei a sua sede e a sua fome de amor.
Vem, se aconchegue no meu colo como uma criança carente de peito, prestes a deliciar-se com a fartura do leite mágico, capaz de lhe devolver a vida somente para ficar comigo, só um pouquinho mais.
Este tempo é infinito diante do mundo, porque todo o êxtase da natureza estará explodindo em nossos poros, prestes a recomeçar.Sem medo, sem castigo e sem vergonha!
Não sou mais a mesma menina que você plantou uma rosa dentro do próprio ventre.Já fui àquela mulher que negava os instintos, sem que pudesse lhe fazer feliz.Agora me transformei em uma energia perdida, que vaga a procura de uma outra, para que se acasalem num ato sublime.
Isto não é apenas sexo e somente perdição; é um poema carnal que toca os órgãos por instinto, permitindo-lhes sensibilidade plena e a certeza que será imortal.
Não se faça de surdo e escute as minhas preces, pois sou sua serva a procura de um instante de paz em seus braços.
Atravesse todos os obstáculos que existe entre nós; esta porta que separa os mortos dos vivos e me ressuscite desta saudade. Levante este véu que cobre o seu mundo do meu e venha me fazer feliz, só um pouquinho mais.
Estou aqui de corpo e alma aberta, aprisionada a este desejo que reprime toda a minha dignidade, já que sou mãe; exatamente a mãe dos seus filhos e te quero como pai, amigo e amante.
Onde você estiver, estarei contigo.Já que é a continuação do meu corpo, o encaixe e o repouso do meu extremo prazer.
E foi um prazer ter te conhecido assim tão demorado, aos poucos, para que eu pudesse ter outros prazeres todas as vezes que deixei sua alma virgem desnuda,pronta para me fazer sua devota.Devorarei teu corpo espiritul durante milhões de minutos; te abocanharei entre as minhas pernas e te farei homem para mim; para que possa me fazer mulher no vão das minhas coxas, benditas e malditas, me castigando por pecar mais uma vez.
Eu quero agora, de novo, fazer amor com você.Mesmo que não tenha mais este corpo enrijecido por músculos, peles e pêlos.Corpo de verdade e de vontade!
Quero-te assim, feito um sopro, um espírito ou um sussurro! Não tenho medo, mas juro que sentirei arrepios ao penetrar na minha cova profunda, quente e molhada.
Se não existe mais, é mentira.Se não me quer, é injúria.Se não me ama, é pecado, pois te sinto vagar ao meu lado, gemendo com a minha dor.
Vem, entre aqui comigo e me possua como um demônio na mais dolorida forma de querer, traduzindo o amor extremo.
Faça amor comigo, só mais uma vez.Nada mais.E quando eu perder os sentidos de tanto prazer, me leve contigo para que eu possa me libertar deste vazio.Quero me inundar com o seu suor, me engasgar com a sua saliva e morrer em seus braços, renascendo para a vida eterna !


Poema classificado em Concurso Nacional “Amor e Paixão”, concorrendo com três mil trabalhos de todo o Brasil .

Silmara Retti

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

O PRESENTE DE NATAL


















Nessa época do ano o nosso planeta se envolve por uma camada de energia mágica, renovada e poderosa, capaz de
Transformar o desejo de alguém num Presente de Natal.Todos os anjos ficam de plantão, recolhendo as súplicas daqueles que pedem com fé, resignação e do fundo da alma.
Não precisa ser uma oração longa e repetitiva, que pode dar sono.Precisa ser apenas uma conversa ao pé do ouvido, simples e de peito aberto, feita entre as quatro paredes de um quarto.
Um papo de filho pra pai...Porque Alguém lá em cima conhece os seus sentimentos e sabe muito bem dos seus desejos.Este Pai tem certeza que você ainda engatinha na estrada da Vida e que um dia...vai crescer.
Carlinhos morava num cômodo apenas, que era dividido ao meio por uma estante feita por caixotes de madeira.Todas as noites aquele moleque se deitava no colchão velho e com os olhinhos sonolentos procurava estrelas no vão das telhas furadas.Queria crescer rápido para ficar com os braços fortes e carregar muitos sacos de cimento.
Somente assim não seria mais aquele menino pobre, sem eira e nem beira que ria muito...para não chorar! Chorar de frio, de fome e de vontade em ser realmente o futuro da Nação.
Era um menino resumido num par de olhos famintos a procura de um agrado que lhe fizesse feliz.
Enquanto delirava com seus olhos abobados, logo era despertado para a realidade do mundo, onde sua mãe tentava a todo custo disfarçar a tristeza cantarolando uma cantiga de ninar.Um amor escondido em lembranças do passado, onde talvez um dia tivesse sido feliz.
Ela tinha o corpo sofrido e cheio de cicatrizes que nunca conseguiu explicar, porque dizia que já foram curadas pelo tempo e nem doíam mais...
Sempre sozinha, forte e única.Ela passava as mãos no cabelo ajeitando uma presilha dourada e se sentia bonita assim.Maria? Joana? Tereza? NÃO importa o seu nome porque sua luz interior falava por si...
E Carlinhos não conseguia entender o motivo de tamanha “dureza” precisando morar num cantinho minúsculo que mal cabia todos os seus desejos.
Talvez fosse por falta de espaço que não tinham mais que um caldeirão no fogo.Talvez fosse por pura falta de sorte que não tinham o que colocar dentro dele...Que pena, que raiva, que dó! Nem tinham espaço para uma geladeira nova, uma cama de verdade e uma televisão colorida, mas quando ele crescesse seria um pedreiro conceituado, só para levantar uma casa bem bonita com uma janela vistosa, sempre aberta, para que as estrelas do céu pudessem entrar no seu quarto.
O tempo foi passando e o final de ano estava logo ali, trazendo com ele a esperança de uma vida melhor.Aos poucos a cidade começou a ser enfeitada e tudo parecia muito mais bonito.
Carlinhos não disse nada a ninguém, mas queria um presente de Natal.Era um desejo absurdo e não teve coragem de pedir, pois sabia que naquele buraco não tinha luz elétrica e por isto Papai Noel não conseguia enxergar o seu sapatinho na janela.Durante anos foi assim.

Então se lembrou que um dia sua mãe havia lhe contado sobre os anjos e resolveu fazer uma oração, pedindo para que na Grande Noite de Natal aparecessem todas as estrelas do céu, iluminando o caminho da sua casa para que desta vez o Papai Noel não se perdesse no escuro.
De repente a mãe, que estava por perto, ouviu suas palavras de fé e lhe abraçou forte, lhe prometendo que naquele ano o seu sonho seria realizado.
- Acredite, meu filho. Será uma noite muito especial.
Carlinhos sorriu, acreditando em sua promessa.
Agora faltava poucos dias para o Natal e ela se desdobrava ao meio para conseguir fazer de Carlinhos um moleque feliz.
Mesmo sendo uma mulher franzina, lavou roupa fora, subiu morro e catou muita latinha na praia.Só que seria por uma causa nobre e uma oração de criança jamais poderá ser esquecida.
Na verdade Carlinhos não sabia ao certo que noite era aquela, mas lá embaixo tinha barulho de festa e as pessoas soltavam rojões.
Esperou deitado no mesmo colchão velho que algo diferente acontecesse...Ele estava sozinho e sua mãe havia saído logo cedo para mais um dia de trabalho.Não tinha lua e nem estrelas.
- E agora, como Papai Noel poderá me enxergar aqui nessa escuridão?
O jeito seria fingir que era uma noite como tantas outras e então fechou os olhos.
- Mas ela prometeu que seria uma noite especial...
Tapou os ouvidos com a pontinha do travesseiro, querendo muito adormecer embalado nas cantigas de Natal que se misturavam no pé do morro.
Foi quando alguém deu duas batidinhas na porta, deixando um pacote enfeitado com um laço de fitas e um cartão de Boas Festas.Uma letrinha miúda e borrada por tinta azul dizia que o Papai Noel não conseguiu enxergar o caminho daquele barraco porque estava muito escuro, porém havia lhe pedido que entregasse o seu presente de Natal.
Carlinhos procurou ao redor e não encontrou ninguém.
Estava só na escuridão da noite, mas ao olhar para o céu pode ver que uma estrelinha nova, singela e muito especial brilhava para ele.Era a sua mãe, que feito anjo de Deus conseguiu realizar o desejo de Carlinhos.
Nisso ele chorou de emoção e de saudades, abraçado aquele pacote pequenino, simples e colorido mas que cabia direitinho dentro de sua alma iluminada !

PARA SEMPRE


















Vitinho e dona Martinha era o casal mais famoso da rua por suas brigas ao ar livre para toda a galera ver de perto quem mandava no “pedaço” .
Ela nem se lembrava do reumatismo, fazendo verdadeiras acrobacias com o cabo da vassoura no topete encrespado do maridão .
Na verdade não tinham motivos aparentes, pois Vitinho era um pobre homem de sessenta e cinco anos que não abria a boca para nada .E dona Martinha parecia tão dócil com sua expressão de avozinha caridosa, disfarçando toda a ira que guardava dentro de si .
Só que entre eles o bicho “ pegava” de uma tal maneira que até o olhar passivo de Vitinho lhe irritava profundamente .
Dizia que ele era preguiçoso e que nunca gostou de colocar o lixo na rua.Depois não aguava as plantas do quintal e ainda se fazia de surdo todas as vezes que precisava comprar o leite na padaria .
Mas para jogar dominó no meio da praça, era uma beleza ! Quando o primo Bidú batia palmas no portão ele se descabelava todo, colocando o chapéu para sair rapidinho na ponta dos pés .
Ah, este era o pior motivo de todos ; o mais poderoso e cabeludo !
Dona Martinha bufava de raiva porque o serviço da casa sempre sobrava para ela e já não tinha saúde para ficar dando brilho nos móveis.
Queria ver o dia que ficasse doente ...Ai sim seria tarde demais para as suas lamúrias .
Aquele “fanfarrão” só aparecia no finalzinho da tarde, justo no horário da sopa das seis, morto de fome e querendo beliscar o caldo com o miolinho do pão .
E era este tipo de ousadia que deixava dona Martinha louca da vida , resmungando com as panelas .
A vizinhança morria de rir com seus gritos neuróticos, desafiando Vitinho para uma briga .
Ele não tinha vergonha em ficar plantado num banco da praça, jogando conversa fora sem ter ao menos cumprido suas obrigações domésticas e blábláblá !
Depois se fazia de vítima, com o coração partido, dizendo que ele não era mais o mesmo da época da formatura :
- Como você mudou, Vitinho !- enxugava as lágrimas .
“Prefere ficar sassaricando por ai com o primo picareta, só de butuca nas mocinhas assanhadas que passeiam pela praça” .E ela, pobre mulher do lar se acabava no tanque, na pia e no fogão !”
Nisso Vitinho se fazia de surdo como que se nada tivesse acontecendo .
Só que a sopa das seis estava com os dias contados e se quisesse, que fosse preparar .Dona Martinha prometeu aos pés da Santa que passaria a pão e água, mas Vitinho também .Não teria mais um pingo de dó !
Pronto, tava feito a encrenca !
Cada um foi dormir em camas separadas e sem muita prosa.Ele ligou o radinho do quarto para ouvir as notícias enquanto ela fazia crochê embaixo das cobertas, se fingindo de morta .
Ele roncava alto e ela tossia.
Ele pigarreava e ela cantarolava, espiando por rabo de olho.E assim corria tudo bem até que numa manhã de domingo, daquelas que Vitinho estaria de prontidão a espera do primo assanhado , silêncio total .
Dona Martinha fez barulho com os pratos, gritou com o passarinho e fez de tudo para que o companheiro acordasse, mesmo que fosse resmungando, como fazia todos os dias .Mas desta vez, não !
Ela caminhou até a porta do quarto , esticando o pescoço apenas para espiar melhor .Foi quando pode constatar a agonia de Vitinho , gemendo de dor .
Pra quê ! Dona Martinha quase morreu do coração !
Começou a ficar desesperada, andando de lá pra cá, feito louca .Só que era mais um golpe de Vitinho, apenas para lhe chamar a atenção .
Explicava que era uma dor horrível, que vinha de trás para frente, fazendo um bolo aqui e ali ...E ela gemia junto, como que se sentisse o mesmo.
- Meu bebezinho, conta pra sua Martinha onde dói...
- É o peito.Não, acho que é o coração, minha pretinha.
- Quer que eu faça uma massagem de cima pra baixo...
- Só se for de baixo pra cima, minha preciosa.
- Vai mais para o canto, meu querido.
Quando toda a vizinhança conseguiu entrar no quarto, encontrou os dois abraçadinhos na cama, chorando baixinho com muito medo .Medo de se perderem um do outro, porque eram companheiros, namorados e cúmplices de um dia-a-dia maluco, mas que somente os dois conseguiam compreender .
Vitinho pediu um beijo ...Ela lhe ofereceu um café bem quente , do jeitinho que ele mais gostava e tudo foi se ajeitando .Logo mais teria o jogo de dominó na praça, as brigas de dona Martinha, o cabo da vassoura voando longe ...e todo um romance que começou há mais de quarenta anos atrás, onde apenas o amor sincero e verdadeiro consegue unir diversas emoções, fazendo de Vitinho e dona Martinha um casal cada vez mais apaixonado .E com direito a sopinha das seis, é claro .

Silmara Retti

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

O MENININHO PERDIDO


Eu era um menininho comum, lambido e cheio de danadisse expressa num olhar maroto, a procura de um pipa no céu .E nos meus sonhos de moleque era Rei no meu próprio mundo .
Fui dono de todas as estrelas, de todos os brinquedos e de todos os doces ...Mas ninguém sabia que quando fechava a porta do quarto os duendes se espreguiçavam das gavetas e riam comigo do modo engraçado que as pessoas usavam sapatos e relógios de pulso .Fui crescendo e as minhas fantasias também ...
Ficamos grandes demais para esta realidade monótona e então decidi arrumar as malas carregando toda a minha ansiedade .Com quinze anos mudei-me por inteiro para este castelo imaginário onde poderia reinar sem limites .
Fui uma tristeza para minha mãe , uma decepção para o meu pai e no íntimo fui um fracasso para mim mesmo porque não conseguia encarar as pessoas de frente, me escondendo do mundo atrás de um óculos escuro que usava para disfarçar o vermelhão dos olhos .
Não tinha amigos, não tinha saúde e não tinha paz! Minha perspectiva diária era construir aquela imagem de bandido somente para encobrir o mocinho medroso que estava ali dentro da minha alma .
Estava consumindo cada vez mais e o muito, já era pouco . Só conseguia sorrir quando estava dopado e insistia em parecer alegre, mesmo com um sorriso triste que desbotava com o efeito da DROGA .
As mãos tremiam e sentia vergonha daquele corpo frágil, pálido e quase morto .Mas todas as vezes que dizia NÃO ; a vontade, o vício e a fissura se transformavam dentro de mim e eu desejava desesperadamente aquele pacotinho que me fazia viajar para bem longe da fome, da miséria e da falta de Amor .
Quando conseguia abrir a porta do quarto, me derretia no assoalho com os olhos pairados no teto e não era mais o sujeito valente que falava grosso com os amigos, numa explosão eloqüente , causando um impacto na sociedade .Sentia medo de tudo e o maior deles era do embrulho miúdo que trazia colado no corpo como que se fosse uma segunda pele .Talvez um revestimento que encobrisse a minha covardia , a minha insegurança e a minha verdadeira personalidade .
Ali embrulhado estava o pó mágico que tinha o poder de me deixar poderoso para os outros, porém pequenino diante de mim mesmo .
Começou feito uma brincadeira e aos poucos foi se tornando uma obsessão e a maior delas era a minha paz interior que não se encontrava em nenhuma drágea .
Depois vinham as lágrimas coladas nos lábios trêmulos e eu jurava em voz alta que seria a última vez ...
Só que o meu corpo pedia mais ! E fazia de tudo para satisfazer aquela fome animalesca .Já não sentia vergonha em vender o tênis, o relógio, o sexo ...
A única luz que conseguia enxergar era o brilho do pó e ria , numa emoção fulminante que não durava o suficiente para que pudesse ser feliz .
Precisava usar , de qualquer modo, mesmo que um vácuo me absorvesse feito uma febre e tudo de lindo neste mundo era pouco para mim .
Meu pai me via, porém não me enxergava, preferindo fechar os olhos para não sofrer .E a minha dor ? Dentro de mim, tudo doía .
Entre nós havia um abismo que separava o meu mundo do seu e estávamos cada vez mais distantes !
Pai, se você não tivesse me omitido ...Se você tivesse me encarado de frente, teria visto a minha expressão de pavor .Somente assim perceberia que éramos todos inocentes nesta luta pela vida !
Durante anos acompanhou a minha agonia, fechando os olhos para não ver, sufocando o peito para não sentir e travando as mãos para não me abraçar junto ao seu corpo .Eu era apenas um menininho carente de colo que queria apenas trafegar pelas veias muita saúde , como qualquer outra criança da minha idade .
Porém o meu pai nunca ultrapassou as barreiras do preconceito, deixando-me cada vez mais sozinho .
Sei que sofria tanto quanto eu, chorava também do outro lado , mas não conseguia me erguer daquela sarjeta .
Assistia a tudo como que se fosse um filme e depois virava as costas, voltando para o seu mundo, simplesmente indignado .Apenas indignado, e nada mais! Eu tinha somente duas lembranças do meu pai ;
A primeira era daquela tarde ensolarada que lhe esperei durante horas no portão , guardando no bolso da bermuda a grande surpresa que iria lhe fazer : um dentinho de leite que havia caído logo cedo no travesseiro .Olha de lá, olha de cá e nada !
Que demora, meu pai não vinha .Corre pra cima e pra baixo .Cadê ? De repente lá vinha ele pela rua com sua carteira marrom debaixo do braço .O importante era a
sua carteira marrom, porque dentro dela estava guardado um calendário de uma loira pelada e a moedinha da sorte.Eu sentia saudades do meu pai porque era um homem muito ocupado e nunca teve tempo para mim .
- Pai, pai, me trouxe uma balinha ?
E lá vinha ele pela rua com sua carteira marrom, quase vazia se não fosse os documentos remendados com durex .
Caminhávamos juntos com grande dificuldade porque seus passos eram ligeiros, de gente importante .Silêncio.
Abriu o portão e entramos pelo corredor do quintal .
- Pai, hoje fui na venda sozinho e nem me perdi .E também tenho uma novidade ...meu dentinho caiu e agora já tenho uma janelinha . - dei risada .
Ele não riu .Ouviu e nem se importou .Deveria estar cansado, isto mesmo .Foi até o tanque de lavar roupa e molhou o rosto suado .A professora havia me dito sobre a violência e queria lhe explicar tudo o que já sabia .
- Pai, a violência machuca , principalmente o coração .
Pulei no seu colo, cantando .Sorriu rapidamente me colocando de novo no chão .Foi para a sala e ligou a TV no noticiário das oito , nervoso com o grande número de menores abandonados pela cidade .Só que eu era um deles ...e não sabia !
Aprendi com ele o verdadeiro sentido da palavra descaso; a violência contra a alma .
E a última lembrança que tive do meu pai foi quando me encontrou morto por overdose, naquela calçada opaca como a minha própria vida ,com as mãozinhas congeladas , numa prece :
- Á você que possui a alma embalada por sonhos coloridos e vícios eloqüentes , ofereço meu abraço magnético .Á você , dono dos olhos mais profundos e do corpo trêmulo,ofereço um quilo do pó da vida e uma dose de paz .Porque a paz não se encontra em cápsulas ou em sorrisos dormentes daqueles que perambulam pelos becos a procura deles mesmos !Esqueça o desespero, o pranto, o medo e me abrace , pois toda a juventude lhe agita interiormente e a capacidade de se fazer guerreiro estrangulará qualquer vício, transformando a lágrima num grito de liberdade !


Silmara Torres Retti-

domingo, 16 de agosto de 2009

DE PAI PARA FILHO *


















Eu ainda me lembro do dia que você nasceu...Era a grande final do campeonato de truco e aquela rodada de cerveja seria por minha conta.Ajeitei o charuto no canto da boca com os olhos vidrados nas cartas .Tava no papo!
Foi quando de repente alguém gritou o meu nome avisando que um moleque me aguardava na entrada do boteco.
Que atrevimento! Até as pedras sabiam que eu não admitia que me atrapalhassem no jogo, principalmente na Grande Final.
Nem pisquei, mandando que entrasse logo.
Nisso colocou um bilhetinho sobre a mesa onde pude decifrar as letras miúdas:
- Nasceu.- estava escrito.
Você nasceu.Foi assim que veio na minha cabeça a lembrança de sua mãe arrumando uma sacola de viagem. Mulheres! Sempre dispostas a arrumar confusão.Mas desta vez parecia diferente.
Não foi para a casa da mamãe, como de costume. Foi para a Maternidade.Continuei em silêncio esperando o momento certo de comemorar;
- Um, dois, três, truco! - gritei pulando em cima da mesa numa felicidade sem fim.
Agora a vitória estava completa e num orgulho de pai fechei o boteco pagando bebida para todo mundo.Só sei que ao clarear o dia passei na banca do camelô pedindo que separasse a camisa do timão porque o meu filho tinha nascido e precisava agradar a patroa .
Passei em casa colocando o meu melhor terno num assobio desafinado.Mais que depressa levantei o colchão e lá estava todas as economias guardadas.Que mulher!
Às vezes varava a noite na máquina de costura e nunca deixou que nos faltasse nada.Nem mesmo minhas frutas preferidas que eu gostava de enfeitar a mesa no churrasco de domingo.
Quando entrei no quarto da maternidade suava feito bica.Nos encaramos por um minuto apenas e ela abaixou os olhos com você apertadinho nos braços.Como era miúdo! Se soubesse, juro que esperaria mais um pouco para lhe conhecer porque não tinha nada em você que parecesse comigo.
Eu e sua mãe não tínhamos assunto.Acho que só conseguia conversar com as panelas e com elas tinha uma amizade antiga.Talvez fosse uma questão de afinidade.
Andei pelo corredor pensando que eu não tinha muito que fazer por ali, porque você só queria mamar.Então resolvi sumir por um tempo.Aliás, um bom tempo.
Foi a melhor época da minha vida, sem compromisso com ninguém. Dormia nas mesas dos botecos, acordando sempre com uma mulher diferente.
Não sei se você me entende, mas homens são homens e gostam de aventuras, mas nada que significasse alguma coisa séria para mim.
Numa noite de muito azar, perdi tudo o que tinha no jogo.Fiquei desgostoso, chateado e pensativo.Era hora de voltar para casa!
Não tinha idéia do tempo que havia ficado longe de você.
Abri o portão devagar, entrando na pontinha dos pés.O varal estava repleto de fraldas branquinhas e um pirralho corria pela grama, vestido com a camisa do timão.
Senti dentro do meu peito que era você.
Ali estava o meu menino, com o cabelo, a boca e o nariz parecido comigo.Fiquei feliz como que se acabasse de nascer e na verdade chorei de emoção.
Sua mãe me encarou como antes e novamente abaixou os olhos.Que alívio! Nada tinha mudado e então percebi que podia ficar.
Se não tivesse contente, logo arrumaria a sacola de viagem indo embora pra casa da mamãe.Mas não foi e nem me perguntou o motivo daquele sumiço repentino.Nunca falamos sobre o assunto e apenas trocávamos olhares.
Você não se fez de difícil procurando por minhas mãos e pedindo um agrado.Não era homem de agrado!
Quando queria lhe deixar contente trazia uma bala no bolso da calça; era o meu jeito de lhe dizer muitas coisas.Talvez que me perdoasse por ter sido um pai ausente e cheio de compromissos na rua.Esse negócio de carinho era pura “boiolagem” e não queria que você virasse um fresco.
Estávamos cada vez mais parecidos, só que você tinha os olhos castanhos e eu, avermelhados.
Acho que para me afrontar, sua mãe deixou um jornal em cima da cama, do lado do travesseiro, com uma notícia de primeira página sobre um vírus sei lá o quê que estava matando sei lá como.Era meados de 1981 e aquilo não me disse nada.Nem perdi tempo em ler tamanha provocação.Parecia que tava desejando a minha morte!
Mas ao chegar no boteco vieram com o mesmo assunto, dizendo que uma peste gay estava acabando com toda a raça.
Fizemos piadinhas picantes, querendo muito que aquele castigo viesse do céu e colocasse um fim naqueles desvirtuados.
Quem não gostou muito da nossa farra foi um loiro aguado que tinha um filho meio suspeito, com o pé na jaca.
Na hora me lembrei de você, confiante em sua masculinidade.O pouco tempo que ficava em casa podia observar suas brincadeiras com a molecada da rua; tinha um carrinho de rolimã, bolinhas de gude e apetrechos de macho.
Então para estimular suas energias levei de presente uma “ revistinha porreta” .Se não sabia ler, pelo menos olharia as fotos.E que fotos!
Nos trancamos no quarto e eu lhe ofereci o presente, numa risada maliciosa.Conforme ia folheando as páginas, você corava de vergonha.
A vida era assim e eu deveria lhe ensinar o caminho da felicidade.
Era um dever de pai e senti muito orgulho por isto.Estava crescendo rápido e precisava mostrar serviço.Tanto eu, como você.O melhor ainda estava por vir e era apenas uma questão de tempo.
Quando vi que suas pernas se espicharam feito um bambu, lhe chamei para perto de mim, reparando nos fiapinhos que apareciam sobre os lábios.Era o momento certo.
Mandei sua mãe separar sua melhor roupa porque a noite seria longa.
Eu andava na frente e você bem atrás.Não abria a boca, com medo de me desagradar.
O jogo já tinha começado e os companheiros não perceberam a nossa presença.
Puxei uma cadeira ordenando que ficasse ali sentado e fui até o balcão cochichando no ouvido de uma mulher elegantemente vestida com um par de tamancos vermelhos.
Enfiei uma nota enrolada dentro do seu decote e sumi novamente, lhe proporcionando a sua primeira noite de Amor.
Você chegou em casa um pouco depois de mim e não parecia feliz . Preparou um copo de leite quente e sem olhar nos meus olhos, adormeceu sobre a mesa.
Já era um homem.Foi desta maneira que lhe conduzi aos prazeres do mundo, tentando lhe salvar da peste gay.
Poderia morrer de cirrose, de tanto beber com mulheres boazudas, mas com certeza não morreria com aquela doença horrível que as pessoas já chamavam por AIDS. E quantos não se foram!
Era o assunto mais comentado no momento; só que estávamos protegidos porque éramos homens. Outras noites vieram e não precisava mais de mim para lhe fazer companhia.
Parou de estudar passando horas na rua, fazendo sei lá o quê!
Sua mãe continuava falando com as panelas e às vezes chorava com elas.Nunca conseguiu compreender o universo masculino e por isto parecia muito aborrecida.
Você era de poucas palavras, mas de muita ação e comentavam nos botecos que se tratava de um cara “da pá virada”, igual a mim.
Tinha sua própria turma e alguns eram filhos dos companheiros de truco, como que se fossemos uma grande família.
Durante um jogo importante ouvi um falatório na mesa ao lado que me intrigou.Um velho dizia que achava importante o diálogo com os filhos.O seu moleque mais danado havia lhe perguntado sobre camisinha e então ele começou a lhe explicar tudo sobre sexo, numa conversa franca e aberta.
Quanta tolice!Você aprendeu com aulas práticas e deveria ter se doutorado no assunto porque era freguês de carteirinha da boate mais famosa da vila. E aquela tal de camisinha era história para quem não queria encarar “o biscoito de perto”.
Não sei se você se lembra, mas era muito determinado em suas atitudes e não aceitava ser contrariado, quebrando tudo em casa com um pontapé certeiro.Eu tentava lhe entender, pois éramos homens e pensávamos iguais.A culpada de tanta ira decerto era sua mãe que lhe cobria de chateações, querendo xeretar sobre toda a sua vida.
Eu achava bobagem brigar com você por causa da escola.De repente dava uma sorte no jogo do bicho e pronto, se arrumava na vida! Pagava todas as contas atrasadas, enchia a geladeira de comida e construía um puxadinho no quintal pro churrasco do timão.
Somente eu lhe compreendia e deixei que fosse feliz.
Numa noite estava um pouco indisposto e resolvi chegar mais cedo em casa.Pelo vão da porta pude perceber o seu corpo escorrendo até o assoalho com os olhos pairados no teto e senti que alguma coisa estava errada.
Aquilo não era bebedeira.Antes fosse um porre.
Preferia que bebesse como eu mesmo lhe ensinei, mas você não aprendeu e foi procurar outras maneiras de ficar ligado.
A bebida serviu como uma porta aberta para a droga e naquele momento você deixou de ser o meu filho para se transformar num desconhecido para mim.Talvez se eu me aproximasse...Talvez se eu lhe prendesse nos braços como deveria ter feito na maternidade...Porém não consegui lhe falar nada e o seu rosto mórbido, os lábios trêmulos e o corpo frágil me fizeram chorar!
Quase que lhe chamei pelo nome, estendendo-lhe as mãos.Era o meu filhinho perdido no escuro, carente de diálogo, carinho e direção.
Outras noites vieram e você não escondia mais o vício de ninguém, vendendo o tênis, o jeans e até o relógio da parede.Depois apareceu com uma televisão nova, vinda não sei donde e colocou na estante da sala. Nem assim sua mãe ficou feliz.
Acho que sabia que era por pouco tempo; um dia ou dois.
De repente chegou cabisbaixo e percebi que tinha algum problema. Precisava de dinheiro para pagar uma conta.Encarei sua mãe e ela abaixou os olhos.
Você já não era mais o mesmo homem disposto e qualquer gripe lhe derrubava na cama.
Nisso eu ficava horas lendo sobre esportes, política e até mesmo sobre horóscopo, menos sobre AIDS, uma doença fatal que já havia levado consigo inúmeros desconhecidos.
Mas não era problema meu.Você gostava de mulheres e de dormir com elas. Se ele era drogado, nunca me contou.Melhor assim.E no meu íntimo não queria nem pensar que aquela dor poderia ser nossa.
A AIDS estava longe do nosso mundo, até que fiquei sabendo sobre a morte de um conhecido e depois de outro.Era uma doença traiçoeira porque me enganou por muito tempo ao pensar que morava distante de nós .Eu poderia ter me aproximado querendo saber sobre o que fazia nos muros e nos becos da cidade, mas acho que tinha medo.
Um tal de Cazuza morreu.Sua mãe resmungou alguma coisa com as panelas, porém ele nem era da nossa família.
O tempo foi passando e você estava cada vez mais estranho, magro e cheio de olheiras. Deveria ser as mulheres, a noitada e os amigos.
Quase não comia; estava pálido e sem vida.Nos encontramos no corredor de casa e me assustei com vontade de lhe encarar um pouco mais.Tossia muito, enrolado num cobertor nas tardes de verão.Talvez fosse gripe.
Fiquei preocupado e fui lhe espiar.Gemia de frio, de dor e de medo.
Acho que você se lembra da noite que foi levado para um hospital, ao som de uma sirene desesperadora que calou a voz de sua mãe num soluço salgado.Foi passando pelas ruas da cidade, contornando os becos, os botecos, os muros e até mesmo a boate.
Era a final de um campeonato de truco e eu não podia faltar.Seria a grande chance da vitória e se assim fosse, fechariam o boteco até o amanhecer.
Foi quando gritaram o meu nome avisando que um moleque me esperava com um recado amassado entre os dedos.Nisso jogou o bilhete no meio da mesa;
- Está morrendo.- estava escrito.
Não, não poderia ser você.As lágrimas foram se misturando com as cartas e o meu peito doía muito.Era o meu menino e qualquer companheiro ali presente não compreenderia tanta tristeza.
As horas foram passando diante dos meus olhos feito um filme em preto e branco. Coloquei o charuto no canto da boca e sai em silêncio no meio do jogo.
Não quis levar um presente para o hospital.A minha presença seria o melhor de todos.Corri pelas ruas querendo ganhar tempo.Tínhamos muito que conversar! Falaria sobre sexo, drogas e principalmente sobre Amor.Falaríamos sobre o mundo; sobre vida e até AIDS ... Só precisava de mais um minuto; um pouquinho de tempo, uma chance para lhe renascer com um beijo na testa.
Atravessei a portaria e as muralhas dos meus preconceitos, indo direto ao encontro do seu coração.Você estava com os olhos cerrados, numa prece final.
Sua mãe me encarou e eu abaixei o olhar.Desta vez não conversava com as panelas, murmurando uma ladainha misteriosa.Era o meu menino, com cabelo, a boca, o nariz e o vermelhão dos olhos.
Ajoelhei-me do seu lado e lhe chamei de filho, começando ali a nossa conversa e de homem para homem fiz um carinho tímido para depois lhe abraçar junto ao peito como deveria ter feito na primeira vez que nos conhecemos, lá na maternidade.
Quando percebi estava no meu colo e renascemos naquele instante.
- Pai, ô pai ...Por que você demorou tanto? Fica comigo ...Só um pouco mais!
Na verdade eu havia demorado muito para perceber a minha omissão e com certeza estaria sempre ao seu lado, lhe apoiando se tropeçasse, lhe protegendo se sentisse medo.
Não me importava se era uma hepatite, dermatite ou apendicite.
Estaríamos juntos, lutando pela vida.E acho que você confiou em mim, pois abriu os olhos e sorriu.Talvez você não saiba, mas aquele dia sua mãe me encarou como que se encara um homem de verdade, segurou a minha mão e nos transformando numa família.
Chamei o médico no canto do quarto, pedindo que me explicasse tudo sobre a AIDS.
Para superar qualquer preconceito deveríamos nos esclarecer, deixando aquele velho tabu do lado de fora do quarto.Não permitiria que o magoassem ou que dissessem inverdades, lhe descriminando diante dos outros .Depois do nosso reencontro, você começou a desejar o próximo instante, reagindo melhor com os medicamentos.Ainda não consegui decorar o nome de todos, são muitos, porém eles refletem o avanço da ciência.
Você era parte de nós e uma equipe de profissionais competentes se mostrava prestativos, solidários e amigos.
Não é fácil rever conceitos, principalmente um velho como eu. Porém velho é aquele que não se renova; e estacionar no tempo, significa não evoluir, buscando a própria decadência mental.
Aprendemos sobre a vida e você foi o nosso principal motivo.Não existia nada mais importante do que estar ali, lhe fazendo companhia no banho de sol, na hora do almoço e antes de dormir.
Nem a Grande Final do jogo de truco era tão importante assim e aos poucos fui compreendendo o sentido do verdadeiro AMOR.
Aquele que nada tem e tudo pode justifica todas as formas de mudanças, feitas de dentro para fora.O nosso carinho foi um bálsamo para os momentos de angústia.
Quando voltou para casa, os móveis continuavam no mesmo lugar. Apenas nossos objetivos engrandeciam aquele regresso, enriquecendo a sua chegada como que se jamais tivesse partido.
Não sentíamos dó ou qualquer outro sentimento negativo.Sentíamos respeito por você e era assim que deveria ser.O meu menino sempre foi do mundo, conduzindo sonhos e esperanças, mas dono exclusivo de seu próprio caminho.Então só me restou acompanhar com os olhos a grande lacuna que nos separava cada vez mais, deixando o tempo engolir o álbum de figurinha, a pipa colorida e toda a nossa infância retratada num retrato infeliz.
Poucas pessoas foram lhe ver, talvez por receio de encarar uma situação que um dia poderiam viver também .Pavor de encarar em seus olhos os olhos de alguém conhecido e amado .Porque a AIDS não visita apenas a casa do vizinho, o filho dos outros.O meu filho estava ali com ela e poderia ser o seu.O nosso filho.
Todo começo é difícil e você enfrentou o seu próprio preconceito.A primeira atitude foi de negar o problema.Depois foi a revolta, procurando o culpado. Só que não existe um culpado, porque a AIDS não é um castigo de Deus!
Muitas vezes me encontrei perdido e achei mesmo que eu não soube iluminar o seu caminho, lhe deixando no escuro e sem rumo.
Eu e sua mãe fomos nos procurando mais e passamos a conversar todos os dias depois da janta.Enquanto ela lavava os pratos eu ia me aconchegando perto das panelas apenas para ouvir o que falava.Que mulher!
Nisso dei um palpite, falando sobre a vida e sobre você.E após tantos desencontros diários percebi que estava diante da mulher mais forte do mundo! Melhor mãe, companheira e acima de tudo, amiga.
O jogo de truco não tinha mais tanta graça assim e nem tão pouco a final do campeonato.
Eu preferia ficar jogando conversa fora com você.Com o passar do tempo já ríamos feito duas crianças, comendo pipoca no tapete da sala.
Íamos juntos em todas as consultas médicas e não tínhamos receio em perguntar, esclarecendo qualquer dúvida.
Sempre ouvíamos falar sobre curandeiros famosos que prometiam acabar com a doença da noite para o dia.Só que o próprio médico infectologista nos explicou que a ciência está bastante evoluída oferecendo uma melhor qualidade de vida aos pacientes , porém até o momento nenhum medicamento conseguiu matar ou retirar o vírus HIV do corpo do portador .
Muitos profissionais estão do nosso lado, investindo cada vez mais nesta luta contra a AIDS e é muito importante a participação da família, se amparando entre si, fortalecendo os laços e acreditando que a união faz a FORÇA PARA VIVER.
Nunca é tarde para arejarmos nossas mentes, porque o corpo é a morada do saber e temos que edificar o amor, criar raízes e abrir janelas, purificando o ambiente.
Somos humanos, poderosos e cheios de graças.
Nossos meninos querem carinho e temos o dever de enlaçar cada um numa ciranda de paz, pois eles têm o direito de serem felizes antes que se percam no labirinto da vida.
Não permita que o mundo adote sua criança assim de uma forma tão dolorida. Não lhes deixe á mercê dos instintos desumanos, sendo que o maior de todos é o abandono de um pai.Deixe aquela posição de mero espectador e abra as portas do seu coração, permitindo que ele faça parte de sua ALMA.
Hoje, meu filho, você é guerreiro, digno e corajoso.Mesmo sendo um menino conseguiu fazer de mim um grande homem sempre pronto a lhe aconchegar nos braços que desta vez se unem num abraço, recomeçando uma história de perseverança, coragem e muito AMOR .


Silmara Torres Retti

DE MULHER PRA MULHER


















Todas as noites antes de dormir meus filhos querem que eu conte uma história diferente e com fortes emoções, mas fica difícil coordenar as palavras se não consigo raciocinar direito com tantos remédios que me salgam a boca numa ânsia profunda... Ânsia de medo, de esperança e de vontade de viver!
Era o meu primeiro dia nesta luta contra o vírus HIV e nunca ninguém conseguirá expressar ou definir tamanha sensação. O meu corpo se coçava por inteiro, sentia náuseas, vômitos e não conseguia abrir os olhos.
O nome “Coquetel’’ posa de todas as formas, sem normas, indo direto ao meu preconceito mais íntimo, sentindo no peito que a Aids não era pra mim. E é esta história que eu gostaria de contar aos meus filhos e aos seus também, porém não posso porque sou uma dona de casa, mãe de família e tenho pessoas ao meu redor que ainda acreditam que isto é coisa de quem vive às margens da sociedade . Só que não sou imoral e jamais fui indecente.Simplesmente fui alguém que acreditou em outro alguém, pronta pra viver um romance sem censuras, sem proibições ... Sem camisinhas! E pra que preservativos se ele era tão especial e eu não conseguia enxergar com todos os defeitos e vícios?
Já nos conhecíamos a um bom tempo e começamos a viver momentos eternos que sempre terminavam no final do dia. Não tínhamos maldade e tudo era uma brincadeira inocente que me tocava a pele da alma numa busca de prazer e ser feliz!
As portas do meu coração se abriram para um novo amor e me encontrei totalmente absorvida por aquele amigo que talvez fosse apenas um inimigo.
Foram os olhares mais profundos e um toque de mãos que não tinha sentido, sem sentir, diferente, indefinido, sem razão de existir!
Éramos bonitos, saudáveis e risonhos.
Então me deixei conduzir pela paixão num caminho totalmente desconhecido por mim e pronto, estávamos namorando .
Vivíamos um romance como que se acabássemos de descobrir todas as delícias da vida com cheiro de chocolate quente, dropes, bala de goma, amendoim, pipoca lá da pracinha, doce de abóbora e paçóquinha.
Só que ele foi ficando estranho, cada vez mais violento e muitas vezes sumia no mundo, mas eu nem dava importância, pois pra mim a sua volta já era um bom motivo pra sorrir! Falava sobre drogas, sobre sua escravidão; procurando, fumando e cheirando. Vendia suas roupas, relógio e o tênis, mas eu sempre tapava os olhos.E que morresse amanhã, desde que me fizesse viver feliz hoje!
Enquanto eu ria muito por qualquer bobeira, ele ria também, sempre com os olhos avermelhados numa expressão perdida, procurando por outras emoções.
Acho que eu era pouco pra ele e por isso suplicava por mais; bebida, sexo e mais drogas!
A Aids não era assunto para nós dois e admitir a sua existência era como ter a convicção que nós éramos vulneráveis e mortais.Era abrir uma porta escancarada para todas as doenças sendo que a mais grave é a falta de informação, diálogo e respeito!
Quando eu percebi que estava grávida, recolheu-me para dentro de sua casa prometendo que um filho seria a passagem definitiva que o traria de volta a realidade.Passamos fome, frio, medo... Suas melhores roupas foram sumindo aos poucos e mesmo assim não conseguíamos pagar nossas contas! Ríamos das próprias desventuras, mas na verdade não tinha graça nenhuma, pois estávamos literalmente no escuro.
TUDO o que ele tocava se transformaria em pó e ficamos perdidos, porque um viciado não se mata sozinho.Ele leva consigo uma multidão de sonhos, esperança e vida.Eu estava sem forças e não me preocupava com mais nada.Os meus amigos se distanciavam de mim... Ele estava magro, abatido e sem rumo! Não fiz o pré-natal e nenhum tipo de exames de rotina por pensar que nada de ruim aconteceria justo comigo.
Então amanheceu diferente, sem o brilho do dia.Estava com febre e dores agudas, gritando ao mundo inteiro que precisava viver, só um pouquinho mais!
Agora nós tínhamos o nosso filho e ele merecia ter um pai que lhe fizesse sentir orgulho, que pudesse passear com ele de mãos dadas na praia com a certeza que era o melhor de todos; de cara limpa e peito aberto .Alguém que lhe desse segurança, educação, saúde e um futuro decente.
Não conseguia mais andar e nem abrir os sonhos.Ficou internado por um mês.Seus movimentos se atrofiaram e paralisou, cheio de medo da morte.Que ironia, já que se matou por tantas vezes enquanto envenenava o corpo, jurando que era poderoso assim...Mas que poder era este que lhe transformou num trapo humano, dependendo de todos para conseguir continuar?
A droga havia lhe derrotado e lhe restava somente a sua força interior.Aquela que nos faz levantar novamente.
Quando o médico me explicou que ele estava com Aids, consegui compreender que talvez fosse a sua última chance de renascer, porém longe do vírus da morte que se chama DROGA.
O que se passava pela minha cabeça? Passei horas sentada no sofá, sozinha no meio de tantos pensamentos.Morrer faz parte da vida.Se deixar morrer faz parte de um processo de auto-destruição e eu não merecia ser tratada assim, principalmente por mim mesma. Então percebi que só tinha dois caminhos:
- Ficar parada no tempo esperando qualquer infecção oportunista ou levantar a cabeça, sacudir a poeira e seguir em frente.Como tantas outras vezes, nesta vida!
Eu deveria ficar lúcida, equilibrada e segura nas minhas atitudes, porque éramos uma família e agora teríamos que ser companheiros!Comecei fazendo uma faxina dentro de mim, jogando fora qualquer sentimento que não contribuísse para esta luta.
Palavras como revolta, rancor e piedade não rimavam com saúde, nem ficar se questionando sobre culpas para depois sentir dó de si mesma... Assim tracei alguns pontos que deveriam ser a base sólida deste objetivo:
- Viver melhor, me preocupando não com a quantidade, mas com a qualidade de vida.
- Procurar recursos médicos e psicológicos
- Exigir respeito como qualquer outra pessoa que apenas deseja ser feliz!
- Confiar na ciência, deixando de lado crendices populares, porque atualmente a Aids não tem cura, porém temos medicamentos que melhoram a qualidade de vida e usar a informação séria como uma arma contra o preconceito. Preconceito, como assim?
Aquele sentimento que vem não sei de onde, sem razão e sem por que, mas que é capaz de afundar qualquer estrutura. E o mais devastador de todos é o que cultivamos durante anos, passando de pai para filho, como que se fosse uma tradição familiar.
- Aceitar ajuda, apoio...carinho!
Aprendi que não precisava padecer sozinha e o meu companheiro estaria comigo nesta busca pela vida. A sua família me apoiou, profissionais da saúde e pessoas estranhas que talvez não soubessem do nosso problema, mas se mostraram solidários. Enquanto eu ministrava um remédio e outro, disse que tínhamos muito que conversar... A nossa conversa começou com um sussurro, foi criando forma e aos poucos se desaguou num mar de lágrimas.E quando amanheceu estávamos abraçados num único objetivo: Viver em paz! Teríamos que aniquilar a mágoa e qualquer outro sentimento que sugerisse destruição, construindo defesas, vencendo obstáculos e fortalecendo o Amor. O legítimo amor, aquele que é capaz de dar a volta por cima e renascer !Somente assim estaríamos saudáveis de dentro para fora e o preconceito, a discórdia e a droga foram superados pela vontade de recomeçar. Reconstruímos novos valores juntos, vivendo intensamente cada vez mais todos os momentos como que se fossem os melhores... Renascemos de uma força capaz de nos proporcionar saúde e prosperidade, por que desejamos o próximo minuto, sempre!
Se nunca fiquei triste, magoada, com medo? Claro que sim, só que lá fora da minha janela tem um mundo pulsando com a certeza que nós somos vitoriosos nesta busca incansável pela vida. A aids é um desafio para a nossa própria fé interior e não acreditar que somos capazes de superar, significa desconfiarmos da nossa capacidade própria.
Nunca se subestime. Nunca se deixe vencer. Jamais se deixe morrer vítima do seu próprio desamor.
Sei que esta história é um exemplo de luta, coragem e perseverança, como tantas outras. Hoje o coquetel já faz parte do nosso dia-a-dia, assim como os exames de CD4 e Carga Viral para monitorarmos a doença.É importante levar o tratamento a sério para que possamos brincar com nossos filhos , comer pipoca com guaraná, dar boas gargalhadas e ser igual a qualquer outra pessoa que apenas deseja ser feliz, acreditando que o amor sempre vence, fortalece e faz nascer flores através das cinzas.Basta apenas semear.


SILMARA TORRES RETTI

COMEÇAR DE NOVO *


















No cantinho do quarto de Alcione tinha uma cama de mola, estica e puxa, muito das mixurucas, onde dona Tita descansava o corpo após um dia de trabalho duro, ralando a estampa do vestido no tanque de roupa suja.Era uma mulher simples e calada em seu próprio mundo.
Criou Gerônimo, Marcos, Adélia e Alcione...Criou sonhos, caminhos e carinhos.O seu colo era do povo, dos filhos dos seus filhos e dos que viessem também querendo um dengo, um chamego e um cafuné gostoso que só dona Tita sabia dar. O mundo passou por suas mãos calejadas, transformando pó em ouro, lixo em luxo e retalhos em colchas.
Foi mãe e pai; amiga e inimiga, mas apenas quando precisava defender o pão de cada dia com unhas e dentes, espantando o monstro da fome que teimava, tinhoso, em aparecer na sua frente.Mulher simples, sofrida e matuta!
Dona Tita era alegre e conseguiu espremer da dor um bom motivo para viver cantarolando pela casa, enquanto deixava um cheirinho de limpeza no ar.
Nunca precisou ir á escola para aprender a multiplicar o grande amor que tinha dentro do peito.
Alcione, filha caçula, turrona feito ela mesma, achava tudo difícil demais nesta vida e reclamava a todo instante da má sorte que colava no seu pé, deixando que ficasse para titia, na maior desilusão do mundo.
Achava que dona Tita era a verdadeira culpada desta zica, dizendo que ela nunca havia lhe dado o conforto que uma moça da cidade tinha.Não conseguia enxergar na mãe uma pessoa que carregava muitos quilos de problemas na cabeça, mas sempre dando um jeitinho de acreditar num futuro melhor e batalhando bastante para que ele se realizasse.
- Ê mãe, ê mãe!- resmungava.
Talvez se não fosse tão xucra, bicho do mato, teria conseguido patrocinar uma vida “de gente” para todos eles e decerto já estaria casada com um homem fino e bem aventurado. Não se fazia de boa menina, não mesmo! Falava essas verdades na cara de dona Tita, com a voz cheia de rancor.E bem feito mesmo que precisasse dormir naquele mocó duro.Quem mandou não ter outras ambições na vida?
Mas dona Tita tinha a sua fé e entregava nas mãos de DEUS uma mala cheia de mágoas.Um dia, quem sabe, Alcione seria mãe também e assim aquele seu gênio danado de ruim se derreteria todo, transformando a raiva em amor.
Enquanto este dia não chegasse, o jeito era continuar dando um duro no tanque, no fogão e na casa dos outros, nem se lembrando que em agosto completaria 6O anos de idade.Não tinha tempo para essas bobeiras e o negócio mesmo era “fazer negócio”.Fazia e vendia.Botava preço e depois caia na rua, batendo de porta em porta.Quando começava a escurecer, sem ao menos ter se alimentado o suficiente, caia na cama mortinha da silva.
Então os anos foram passando e tudo continuava do mesmo jeitinho de sempre.Até que Alcione e os irmãos tiveram uma idéia de ouro: Dona Tita já estava velha, meio caduca e se esquecia fácil das coisas.Chegou a colocar sal no café e falava com as panelas. O melhor mesmo seria que fosse para um asilo.
Num almoço de domingo, no mês de agosto, bem pertinho do seu aniversário, se reuniram numa boa para explicar para dona Tita que ela estava fazendo hora extra naquela casa.Enquanto Gerônimo acariciava seus cabelos grisalhos, Adélia lhe cobria de beijos: - Mãe, vai ser melhor para todos!
Dona Tita não abriu a boca.Não quis chorar na frente de estranhos, porque na verdade não eram seus filhos; os seus meninos que estavam falando aquilo!Não era Gerônimo, não mesmo.Nem Marcos, nem a pequena Adélia.Esperou calada que lhe arrumassem os seus pertences.
Não tinha quase nada.Só tinha dois pares de sapatos e um vestidinho de missa.O resto era resto.O resto foi o que conquistou na vida; coragem, determinação e dignidade .Dona Tita passou a dividir, mais uma vez, o seu mundo. Agora com as amigas e companheiras de quarto.Não quis levar fotos de ninguém para não se lembrar do passado.
Então, entregou de novo a Deus uma outra mala repleta de lágrimas e muita FÉ.Durante sua vida inteira aprendeu que a nossa família está aqui e ali.
A casa ficou vazia sem dona Tita .Todos passaram dificuldades, pois não tinham mais a riqueza que ela ofertava, muitas vezes sem poder. Passaram, pela primeira vez na vida, fome de amor !
Depois de alguns meses sem dona Tita, perceberam que não podiam viver sem ela e foram lhe buscar.Todos eles estavam mortos de saudades e arrependimento por tamanha ingratidão.Quando chegaram no asilo, com os olhos inundados de lágrimas, ela não estava mais no quarto.Nunca foi mulher de se amuar em uma cama, derrotada.
Procuraram por todos os cantos e dona Tita estava no jardim, passeando com as novas amigas .Estava sorridente, muito mais bonita e feliz.Aproveitava os momentos de lazer para colocar a conversa em dia.
Agora tinha mais tempo para ouvir uma boa música, rabiscar algumas letrinhas, que logo se uniram formando palavras, e realizar antigos projetos.
- Viemos lhe buscar! – murmuraram, num abraço.
Dona TITA sorriu com o mesmo jeitinho de mãe amorosa e aconchegou cada um em seu colo, lhes contando uma história: havia chegado naquele abrigo com todos os seus sonhos demolidos em pó. Chorou muito de saudades da sua casa, da sua gente e da sua família.Sentiu medo, solidão e tristeza.Pensou até em adormecer, para sempre, tentando tirar da memória tamanha dor! Mas um dia percebeu que aquelas mulheres precisavam também de um pouco do seu carinho e resolveu acordar para a vida.Pertencia á uma outra família e ali era a sua nova casa.Então ela recebeu de braços abertos àqueles outros braços carentes.E os muros da incerteza foram dando lugar a uma ponte, aonde se iam e vinham, livremente, construindo, aos poucos, um mundo melhor.
Dona TITA estava recomeçando a viver e buscava outros desafios.Estava empenhada com um grupo de mulheres que promovia a alfabetização solidária.Ela tinha planos para o futuro.Queria trabalhar como voluntária naquele abrigo.Nunca foi de se deixar vencer pelo cansaço.Eles, melhor do que ninguém, sabia da sua vitalidade. Mágoa? Não tinha mais nenhuma.O tempo havia cicatrizado as feridas.Talvez fosse obra do destino ter ido para aquele lugar.Lá sentiu que ainda havia muito que se fazer.
- Mas, mãe...Precisamos de você.O que será de nós?
- Não, não precisam mais, pois aprenderam a caminhar sozinhos.São livres para buscar a própria felicidade.E sejam felizes! Eu estarei aqui e podem me visitar sempre que quiserem.Mandarei cartas, assim que puder.
- Como, mãe? Esqueceu-se que nunca foi á escola...- sorriram.
- Mas nunca é tarde para aprender.Neste lugar eu passei a ter mais tempo para mim; aprendi a ler e a escrever algumas palavras, graças ao empenho de outras companheiras.Aprendi também que a felicidade está em qualquer lugar; em qualquer canto e que precisamos apenas ter olhos para percebê-la e muita sabedoria para compreendê-la.
Dona TITA abraçou Adélia, Gerônimo, Marcos e Alcione. Não voltaria com eles.Agora ela estava muito ocupada com a sua paz interior, renovando as energias apenas para recomeçar.Sentia-se de bem com a vida!
Foi caminhando com o semblante sereno e num aceno distante, sorriu, com a certeza que havia feito o seu melhor.Quando estava longe, deixou uma lágrima teimosa escorrer livremente pelo rosto, abaixando os olhos para que ninguém percebesse que já sentia saudades, muitas saudades!

Silmara Retti

BRAVA GENTE DE UBATUBA
















Quando você descobrir Ubatuba, majestosa e deliciosamente bela com suas curvas sensuais, como uma mulher praiana à espera do nascer do sol, um novo sentimento brotará em seu peito e com certeza você já estará perdidamente apaixonado por ela.E assim, não haverá mais nada a se fazer. Mesmo estando distante, Ubatuba estará por perto, absorvendo seus pensamentos e se fazendo cada vez mais presente! Não adiantará fugir, pois quem vai, sempre volta.E quem fica, se encanta.
O coração bate forte porque tudo aqui se torna mais bonito.O verde é farto e convidativo à prática do prazer pela vida, que pulsa de dentro para fora, feito um tambor indígena.
Ubatuba, esta mulher caliente, possui um aroma perfumado com a essência da maresia, convidando a todos para mais um mergulho em suas fontes naturais.Seu ventre é fértil e sua generosidade abriga e protege àqueles que se instalam em sua alma feminina.
Tem índios “de verdade”, da Aldeia Boa Vista, com seus artesanatos exóticos, como se saíssem de um retrato; com os olhos expressivos que traduzem num colorido mágico traços da cultura brasileira. Representam a própria natureza, banhados com a luz do sol e a força da vida, através de suas gerações multiplicadoras de energia. Ubatuba, mãe dedicada e amorosa, sente orgulho de seus filhos indígenas, abraça a todos com carinho, ofertando hoje e sempre, o seu colo protetor.Para eles, dá tudo de bom; sol e chuva,serra e mar, água pura e cristalina, verdes campos pra plantar. Sementes de esperança, regadas a cada dia com o suor do trabalho, transformando com criatividade penas em colares, palha em cesto, o futuro ...em realidade !

( Poema publicado na XIII Antologia Internacional Del Secchi )
Silmara Torres Retti


A Aldeia Boa Vista está localizada no bairro do Promirim, representando com simplicidade e beleza o espírito guerreiro de Ubatuba. É pra esta brava gente, de cultura e tradição, que prestamos esta singela homenagem.

AMOR PERFEITO*



















O amor ultrapassa o infinito, se instalando dentro da alma feito um Foco de luz, que transcende, ilumina e dignifica o ser humano.
São gestos mudos que falam por si.Ás vezes chora, grita e surpreende.Porque o AMOR não tem sentido exato; é abstrato e totalmente absoluto, porém se resume em toda a energia que conduz o Universo.Pode ser o universo do corpo e também do próprio âmago.
Não se explica.Apenas sente, sem sentido, sem razão, sem piedade.
Tortura e faz doer.Mas preenche todos os vazios e clareia todas as brechas diferenciando olhares e se tornando cúmplices de um único motivo para ser feliz.
É o combustível capaz de mover mundos desconhecidos numa sintonia harmoniosa, dando um toque de beleza a cada fragmento que desperta para a vida.Exala um perfume de criança, um abraço amigo, um colo de mãe...Retrata toda a inocência de apenas se querer bem e fluir pensamentos de paz! Construir o futuro de alguém a cada minuto mesmo no anonimato dos que amam no silêncio, doando-se sem limites numa entrega íntima, simplesmente por amar.
Por não ser o único, desdobra-se em mais de um.Multiplicando forças, criando vínculos, absorvendo matérias; corpos, bocas, pele...a pele da alma .O amor transpõe palavras.Ultrapassa promessas.Abrange o impossível, nos tornando deuses soberanamente imperfeitos. É o templo da vida.A arte de criar um momento inesquecível perante a Eternidade.Vai além do desejo, do prazer e do sexo.
O amor não faz guerra.Faz amor com quem se ama.Estimula a sedução num toque sutil, sem pecados e sem malícia.Abrangem a meiguice e despertam sorrisos.
Faz-se presente mesmo estando ausente.Não precisa ser especial.Basta ser simples e viver em função dos que vivem, tornando-se um rastro incandescente.Uma centelha de luz.
O amor tem braços que se resumem num abraço.
Tem olhos que protegem, absorvem e encantam.
Não tem sentido em se viver...sem sentir o amor .
É o bálsamo de todas as dores, a cura de todas as chagas, o milagre de superar qualquer obstáculo.
É o álibi de muitas guerras. É o crime de muita gente ( gente evasiva que não se contenta em amar, apenas por amor ).Sem retribuição.
Precisa ser humilde, simples e manso.
Dar tudo de si sem querer nada em troca.
É muito mais que dividir-se. É dar-se por inteiro.

O AMOR não exige.Conquista.
Não morre.Renasce.
Não crítica.Perdoa.
Não aniquila.Constrói.
O Amor não escraviza, nunca.Apenas liberta.

SILMARA TORRES RETTI