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quinta-feira, 20 de agosto de 2009

TIO CIRO, SHOW DE BOLA













Benedito Ciro dos Santos, mais conhecido como Tio Ciro, é uma personalidade marcante na História do Futebol de Ubatuba.
Nascido em 1935 na cidade de Taubaté, foi jogador na década de 50 atuando em vários clubes de renome da região, como o XV de Novembro em Caraguatatuba.
Em 05 de outubro de 1975, juntamente com o amigo Rubens Salles, fundou a Escolinha Municipal de Futebol, que traz em seu lema:
“Bom na Bola... Bom na Escola.”
Atualmente a Escolinha Municipal de Futebol Rubens Salles, conduz mais de 600 crianças de Norte a Sul de Ubatuba, oferecendo-lhes o exemplo vivo de Tio Ciro, que mesmo após ter nos deixado no ano de 2001, continua presente dentro de nós.
“Tio Ciro, muitas vezes precisamos driblar os problemas, dando um olé nas dificuldades, para depois levantarmos a galera com um surpreendente gol de placa, nos tornando inesquecíveis na memória de cada um .”


Silmara Torres Retti

TIA Terezinha

Eu não tenho palavras que consigam definir dona Terezinha; a amiga, a mulher, a mãe de cada um de nós, sempre carentes de seu colo amoroso, de suas palavras de conforto e de seu sorriso espontâneo.
Filhas de pais ubatubenses,soube definir com dignidade, amor e dedicação o perfil da mulher caiçara.Trabalhou como merendeira em várias escolas da rede estadual e municipal de Ubatuba.
Quem não conheceu dona Terezinha...
Quem não ouviu falar sobre a tia Terezinha; aquela pessoa que contagiava a todos com sua alegria de viver, rodeada por crianças e amigos...
É com muita emoção que nós, familiares recebemos esta homenagem neste dia tão especial e com certeza, onde Dona Terezinha estiver, se sentirá honrada em estar cada vez mais presente no coração de todos nós.
Em nome da família Fernandes Rossi, aqui representada por seus filhos, sobrinhos, netos, genros e a nora , Silmara Retti, agradecemos a Prefeitura Municipal de Ubatuba, ao prefeito Paulo Ramos e a Secretaria da Educação por esta iniciativa . Que Deus abençoe as crianças da EMEI TEREZINHA FERNANDES ROSSI, hoje e sempre!


Silmara Retti - NORA

ASILO











Todos os dias eu lhe espero
Com os olhos perdidos ao vento,
procurando a felicidade
que se perdeu com o tempo


Se ontem fui o teu pai
já hoje não sei quem sou
e o teu retrato me persegue
pelos caminhos onde vou

Por que me deixou aqui
feito um embrulho de presente
se esta não é a minha família
e me encontro tão carente

Não quero lhe pedir muito,
e se não tiver ocupado,
traga-me de volta o sorriso
para que eu me sinta amado

E se depois desta visita rápida,
num domingo qualquer
for embora para sempre
sem um aceno sequer



Descansarei eternamente
no leito do seu olhar
como que se um dia pudesse
para casa regressar

Não quero grandes riquezas
nem tampouco , ilusão
pode ser apenas um abraço
que me aqueça o coração !


Silmara Retti

SOLIDARIEDADE JÁ



















Abra bem os olhos, procure e se encontre. É em você que está a solução de todos os problemas, a resposta de suas perguntas mais íntimas, o início e o fim de suas dúvidas.Cada boa atitude começa de um bom pensamento e nunca espere que os outros façam por você.Dê o exemplo com gestos determinados e sem medo de renovar sempre o próprio coração. É muito fácil criticar em cima do muro como mero telespectador da vida.
Participe, doe e ame! Ame sem medo de ser correspondido, sem receio de dar o seu melhor, sem preconceitos, sem limites.
Às vezes amamos sozinhos, mas que bobagem, pois quem verdadeiramente ama nunca está só.
A prática da generosidade não tem tempo.Precisa ser agora.
Deixe que as emoções percorram seu corpo, transbordando a solidariedade e fertilizando novos caminhos com a semente do Amor.

Silmara Retti -

SIMPLESMENTE VOCÊ


















Já não sabia há quanto tempo estava olhando pelas grades daquele quarto triste e vazio, mas repleto de pensamentos confusos que me faziam ter insônia durante a noite e delírios constantes no decorrer dos milhões de minutos, homicidas de toda a energia concentrada nos meus olhos.Olhos negros, sonolentos e dopados pelo mesmo psicotrópico de sempre, receitado após as refeições como se fosse um docinho de abóbora.
Agora eu não era mais o moleque comum que sorria no quadro da parede, onde não me enquadrava num retrato feliz.Era mais um doente da sociedade, isolado da minha própria família em nome da benevolência humana e jogado junto com o meu medo diante de um psiquiatra; dono absoluto do meu corpo, do meu destino e dono de mim!
Minhas pernas tremiam de tantos remédios e quando passei as mãos nos cabelos percebi que foram picotados. Melhor assim porque não precisava mais pentear, como antes fazia.Não precisava mais ser o bonitinho para ninguém e a ala feminina do manicômio era saturada por mulheres frias, silenciosas e silenciadas pela solidão.
Chamadas apenas de LOUCAS VARRIDAS, que arrastavam suas caras sonsas pelos corredores, a procura de motivos que as fizessem acreditar que teriam um almoço familiar ao lado daquele marido distante, que nunca mais apareceu. Igual a mim.Tínhamos as mesmas caras e o mesmo uniforme pálido que não definia nossas curvas, nos transformando em seres assexuados e “alheios”.
Ali dentro eu não era mais o estudante de engenharia eletrônica, que sempre fui . Este homem havia ficado para trás dos muros, num passado que não fazia parte da minha nova personalidade.
Uma camisa de força havia nos separado e quando as pessoas ao meu redor perceberam que eu não poderia ser mais aquele homem sociável, subitamente me prenderam dentro de um camburão no qual fui conduzido para um outro mundo, confinado a permanecer vagando entre os demais desiludidos, feito carcaças humanas entupidas por calmantes, apenas para não incomodar .
Ao meu lado estava o armário de ferro, companheiro de longas tardes de primavera, verão, outono e inverno !
Era o meu único amigo e quando quiseram trocá-lo por uma cômoda nova, protestei como pude para que pudesse ficar ali comigo. Este hospital tem um jardim florido e muitos bancos pintados por tinta clara.Depois das árvores coloridas tem um muro alto que vai além dos meus olhos e da minha imaginação.E sei que depois dele tudo é diferente e perfeitamente normal.As pessoas do outro lado não babam e não adoecem de pavor ao saber que não existe futuro...Estou aqui a espera.Estou aqui esperando que um dia não exista mais nenhuma doença mental; que um dia não exista mais esta solidão e que um dia alguém venha apenas me ver.Podem me trazer pipocas, dar comida na minha boca e me fazer uma graça sem me deixar sem graça por eu não achar mais nada engraçado.
Vocês podem percorrer este jardim desbotado, passar pelo isolamento e depois ir embora.Abrir aquele portão de ferro com os olhos impregnados de piedade, dar um aceno distante, virar as costas e simplesmente ir embora.
Você já me deu a certeza de um destino incerto;me deu calmantes para ficar tranqüilo dentro de um manicômio; me deu uma camisa de força para não me rebelar contra uma estrutura falida, um sistema que castrou a minha liberdade de poder simplesmente tomar cafezinho no bar da esquina ...E agora, vai me dar o quê?!
Fechei os olhos devagarzinho e me transformei num sonho onde pudesse distrair os pensamentos e alegrar a minha imaginação sonâmbula.Agora não sou mais um som.
Um mero som que os surdos não ouvem, pois o meu cantar incomoda os seus ouvidos e os hipócritas ignoram.Omitem. Agora sou mais que um conjunto harmonioso.Cansei de me perder no Cosmos a procura de algo que me tornasse vivo perante a sociedade.
Algo que me desse o poder de libertar sorrisos aprisionados atrás de um simples radinho triste que cantarola musicas antigas.
Agora sou eu mesmo que acabou de encontrar-se...Não na simplicidade do meu ser, mas na grandiosidade dos meus sentimentos.
Estou aprisionado no seu preconceito. Preciso ser livre.Neste verão quero vestir uma camisa de força.Quero usar camiseta, como você.

Silmara Retti
Fábio, ainda amo você.

SEPARAÇÃO*



















Dona Selma e Seu Reginaldo não morriam de amores por crianças e assim
que foram morar juntos resolveram adotar Haroldinho como um filho do
coração.
E quem era esse tal de Haroldinho? Simplesmente um cachorro mimado que tinha o bom e o melhor do requinte paulista; cama macia com almofadas de cetim, prato de porcelana para a sobremesa e copo de suco com canudinho colorido.No verão costumava se refrescar com uma sunga de crochê na sua piscininha de plástico e no inverno usava um capote jeans com um gorro de tricô que deixava Haroldinho com cara de abobado. Ele fez até chapinha para ficar com os pêlos lisinhos.
Só que de bobo não tinha nada!Outros cachorros do bairro odiavam Haroldinho, achando que ele era um traidor da própria raça canina, preferindo se fazer de humano enquanto eles padeciam de raiva, humilhados sem um pingo de dignidade.Mas alguma coisa de ruim estava acontecendo naquela casa e diziam as más línguas que o casal sensação era coisa do passado e a “batata” de Haroldinho já estava assando no vapor...
Dona Selma resmungava o dia inteiro com seus botões e só de pirraça mandava um pontapé na barriga do cachorro que já não tinha nem mais a ração do meio dia... Foi-se o tempo que era um cachorro feliz! Sem amor, sem carinho e sem os biscoitos noturnos, sabor camarão. Haroldinho tava um caco! Oh, vida cruel! Só podia ser inveja da oposição.
Até que o papagaio fofoqueiro espalhou para a casa inteira que Dona Selma e Seu Reginaldo iriam se separar.Vichê Maria!
Com certeza o final de Haroldinho seria num orfanato pulguento, lá do outro lado do mundo, sendo tratado feito um Zé Mané, comendo grama seca do quintal e bebendo água da chuva.
Logo o coitado, que sofria do coração, emagreceu cinco quilos.Tentou marcar uma consulta com seu analista, mas foi tudo em vão.O mundo lhe ignorava! Por mais que tentasse chamar a atenção de seus pais fazendo gracinhas com a bola de borracha eles nem lhe olhavam na cara.Tudo que fazia era motivo de chacota:
- Haroldinho está ficando cada vez mais idiota! – resmungavam.
Só tinham olhos para as suas picuinhas e Dona Selma chorava quietinha no canto da cama enquanto Seu Reginaldo não sentia nem mais gosto em jogar dominó com os amigos.Após tantos desafetos, Haroldinho ouviu atrás da porta que o pobre homem estaria indo embora para Caraguatatuba, sua cidade natal.Foi o fim! Acabou-se em lágrimas e percebeu que o seu desfecho também seria triste, trágico e fatal.
Naquela noite fazia um frio do cão e chovia muito enquanto os dois brigavam na sala.E num chute certeiro mandaram Haroldinho para o meio da rua, sem se preocuparem com sua saúde debilitada.
Por mais que chorasse de frio, não lhe ouviam, porque na verdade ele não tinha nenhuma importância naquele momento .
Já não era mais o cachorro do coração, o caçula, o filho querido!
Então resolveu cair no mundo, feito um Zé Ninguém. Começou a fuçar nas lixeiras para não morrer de fome e a dormir num caixote velho de feira.
Ele não estava revoltado com a própria sorte...Estava decepcionado!
Conseguiu entender na pele o que acontece com alguns filhos quando seus pais se separam e os colocam para fora de suas vidas como se fossem culpados por aquela separação.
Só que após a tempestade, vem o sol e quando Dona Selma não o encontrou na soleira da porta, quase se descabelou toda de arrependimento.Haroldinho não tinha culpa de suas desavenças com Seu Reginaldo e não merecia ser tratado assim .Era somente um cachorrinho perdido naquela cidade sem lei, precisando de um colo de mãe, um abraço de pai e uma casa feliz!
Na verdade ainda formavam uma família e precisavam resgatar aquele filho perdido, porque ele só queria um pouco de carinho, nada mais.
Uniram-se numa busca sem fim! Colocaram anúncio no rádio e no jornal.Distribuíram fotos do pobrezinho e percorreram todas as ruas desesperadamente.
Foi assim que acharam Haroldinho, todo minguado de tanto chorar, perambulando pela cidade, com seu lencinho xadrez enrolado na pata direita, totalmente deprimido.
Nisso os três se abraçaram num momento de paz e juraram que nunca o abandonariam.Talvez não houvesse uma reconciliação...Talvez Seu Reginaldo fosse mesmo embora...Eles tinham muito a conversar, decidir e avaliar, porém Haroldinho merecia respeito e o seu lugar era cativo no coração de cada um deles, principalmente nas horas mais difíceis , onde o Amor prevalece superando qualquer obstáculo !

Silmara Retti

SEM TEMPO


















Desde cedo que a pequena Marília esperava o avô, debruçada no muro do quintal, com os olhos atentos ao movimento da rua.Procura daqui e dali, mas seu Onofre não vinha.De repente lá estava ele, sempre muito ocupado com sua carteira de couro preta, onde guardava fotos antigas de toda a família.Eram sorrisos já apagados pelo tempo, porque não existiam mais.Também não existia mais a guerrinha de travesseiro no tapete da sala, a brincadeira de pega no fundo do quintal e o beijo melado que costumava lhe dar, desejando uma boa noite de sono.
Agora o avô era um homem de pouco tempo e não conseguia enxergar nada além das contas atrasadas.Ele apressou o passo e abriu o portão, com um olhar obcecado, desejando apenas tomar um banho rápido para aliviar a tensão do dia-a-dia.Teria que ser bem rápido, porque ele não tinha tempo.Passou por ela sem perceber que estava crescendo a cada instante e precisava de uma força para ser mais feliz.
Apenas pagar as contas do colégio não era tão gostoso quanto comer pipoca no tapete da sala.E por que não? Era a sua menina e muito mais do que isto; o avô Onofre também precisava de um colo, só que não tinha tempo...
Marília puxou a ponta de sua camisa para lhe contar um monte de novidades, porém ele continuava com os seus pensamentos distantes.
- Ô vô, hoje a professora falou sobre a violência...
Ele caminhou até o banheiro e apenas lavou o rosto para tirar o suor.No outro dia cedo teria reuniões de negócios e a sua cabeça girava a mil por hora.E se não ganhasse a comissão tão esperada, aquela que pagaria o consórcio do carro? Então suava frio, pedindo que lhe servissem uma dose de uísque sem gelo, somente para relaxar.Mas se resolvesse sumir para uma praia deserta? Sem chance.Não tinha tempo!
Marília sentou-se do seu lado soltando uma gargalhada gostosa.Na verdade queria muito que o avô lhe acompanhasse na brincadeira, porém ele continuou mudo.Estava tenso demais e as gracinhas de Marília já não tinham mais tanta graça assim! Havia se transformado numa menina boba, desengonçada e banguela.Só que ela não desistiu, procurando a todo custo algum motivo para que o avô sorrisse novamente.Pulou em seu colo, engasgando com as próprias palavras e com muito medo que ficasse irritado, perguntou baixinho:
- Vô, ô vô, o que é mesmo violência? – roeu o canto da unha, tímida.
Ele não respondeu, porque na verdade não compreendia que a maior violência é o descaso, a omissão e a falta de diálogo. É estar ausente mesmo estando presente e esta violência também machuca, oprime e faz doer tudo por dentro.
Então Marília, na sua simplicidade marota, abraçou o avô Onofre, como há muito tempo não fazia, lhe colocando em seu colo infantil.Acariciou os cabelos grisalhos e lhe contou uma história de ninar, acompanhada de um beijo de boa-noite.Quando percebeu, estavam rindo como duas crianças, porque ainda eram amigos e se amavam de verdade!
Seu Onofre esqueceu-se do mundo nos braços da pequena Marília e resolveu tirar um tempo para si mesmo.No outro dia bem cedinho ligou para o escritório avisando que não poderia ir, pois agora estava em reunião com os prazeres da vida e naquele momento o melhor negócio era a companhia de Marília.E para ela, com certeza, teria todo o tempo do mundo!


Silmara Retti

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

SEM PALAVRAS








Quando o caminhão de mudanças atravessou a rua, chacoalhando de lá pra cá alguns móveis antigos, a pequena Adelaide ria para o vento de pura felicidade, porque estava em direção á casa nova.E que de nova não tinha nada.Simplesmente era um cômodo miúdo que mal cabia um armário de madeira, um colchão furado e de brinde toda aquela criançada barulhenta que achava graça em tudo.
Seus irmãos eram terríveis e eles não se contentavam em apreciar a natureza, meditando num canto qualquer. Tinham que fazer muito barulho, deixando todo mundo com os cabelos em pé!Mas para ela o importante era uma janelinha colorida que dava vista para o mar, deixando a casa muito mais bonita.
Era um quadro natural que já fazia parte do cenário, com direito à exclusividade, porque combinava direitinho com os enfeites da estante.
Adelaide passava horas olhando para a rua, observando cada morador que saia logo cedo para o trabalho. E lá no meio da muvuca, estava Isabela, uma menininha sonhadora que filmava tudo com os olhos, para depois desenhar no seu caderno. As duas se viam todos os dias, mas nunca se falaram.Era como se fossem duas estranhas .
Isabela não dava atenção para ninguém, vivendo em um mundo só seu.Decerto se achava a bonitinha do pedaço e fazia muito gosto em ficar com uma gaiola velha no colo, trancafiada do portão para dentro de casa.
Adelaide não se conformava com tamanha indiferença, se remoendo de curiosidade para saber o motivo de tanta solidão.
Talvez fosse chata, implicante ou sem graça, mas isto não justificava a petulância de não lhe dizer uma só palavra.
Poderia ser qualquer coisa, desde que pudessem começar uma nova amizade.E assim Adelaide ficava matutando um modo de lhe chamar à atenção e fazia de tudo para que a outra percebesse a sua presença.Agora era ponto de honra! Ela fazia questão em desafiar a outra menina com desaforos, ditos no meio do quintal.
E mesmo assim Isabela parecia distante, sem dar a menor importância para aquela lamúria toda.

Ela era muda e a família preferiu isolar a menina do mundo, para que ninguém lhe conhecesse de verdade.E Isabela não era apenas uma menina diferente; era muito especial!
Mas preconceito não combina com felicidade e ela não poderia viver assim o resto da vida.Não era justo que se isolasse do mundo por não usar o mesmo tipo de linguagem das outras pessoas, sendo que a amizade é um sentimento Universal.
Só que isto elas apenas aprenderam numa tarde de domingo, quando o passarinho de Isabela havia fugido da gaiola, fazendo com que ela chorasse desesperadamente.
E fugiu para onde? Para o quintal de Adelaide, é claro!
Agora seria uma oportunidade e tanto para que lhe desse o troco e desta forma escondeu o danado embaixo da própria blusa.
Ela não sabia das dificuldades de Isabela e foi para o portão lhe fazer chacotas, enquanto a outra se descabelava toda.
Aproximaram-se lentamente e Adelaide lhe mostrou a cabecinha do passarinho, dando uma gargalhada maldosa.
Queria que lhe implorasse pelo bichinho, porém Isabela continuava com lágrimas nos olhos.
Foi assim que Adelaide conseguiu perceber o seu grande equívoco e ficou pasma diante de tamanha emoção.
A menina apenas lhe estendeu as mãos, pedindo que lhe devolvesse o amigo e desta vez Adelaide também lhe estendeu as mãos em sinal de paz!
Sorriram, achando graça uma da outra e de repente o passarinho não vacilou, fugindo para cima dos telhados das casas e indo embora para sempre.Mas tudo bem, porque agora Isabela tinha uma amiguinha que lhe entendia de dentro para fora.
Poderiam brincar de qualquer coisa, pois a amizade de Adelaide e Isabela não precisava de argumentos.
Era de coração e este sentimento não precisa de palavras para ser completo.Necessita apenas de Amor para ser feliz!


SILMARA RETTI

SEJA FELIZ!















Um Ano Novo está começando, a cada dia, constantemente a cada minuto . Você se renovou ou continua com os mesmos conceitos, preconceitos e fórmulas antigas de viver?
Tudo muda e não podemos parar no tempo, nunca!
Não importa se você já tem mais de 21 anos, pois se não tiver satisfeito consigo mesmo, transforme-se. Mude! Cresça! Invista em outros valores, porque vale a pena se reciclar.
Mau humor, fofocas e melancolia, tá por fora e faz muito mal para a saúde! Viver de passado é sofrer duas vezes ou duas mil.
A vida é uma passagem sem volta a estações regressas.
Pisou no tomate? Tudo bem, quem nunca deu uma escorregadinha de leve, hein? Se você fosse perfeito, com certeza não estaria aqui nesta época, neste espaço, neste planeta.
Agora o importante é se aperfeiçoar em qualidades, acumulando para si o máximo de inteligência, generosidade e felicidade.
A felicidade não precisa ser eterna, porém deve ser conquistada no dia-a-dia, como rolar com os filhos no tapete da sala.Comer pipoca na praça da igreja e dar uma gargalhada gostosa faz bem para a saúde.
Depois que se acostuma, a felicidade chega livre, leve e solta!
Ou você é daqueles que faz um drama danado com qualquer bobeirinha? Se chove, meu Deus ! Se faz sol, Misericórdia !
Então, não o mundo não é chato. É você que é um porre!
Repara só como você fica com cara de bobo quando está para baixo, se lamuriando feito um Zé Mané...
Faça a sua parte e não fique esperando que o futuro lhe seja entregue dentro de uma caixinha de surpresas.
A maior surpresa de todas é se surpreender de como você é capaz e ninguém deve fazer nada por obrigação.
Trabalhar também dá prazer.Se você não está satisfeito, mude de emprego.O mundo nos oferece muitas opções e viver bem não é uma conquista apenas do seu vizinho.
É sua também!Abra bem os olhos, abaixe as armas e relaxe.
O Universo conspira a seu favor.Acredite.
A arte de viver está no seu dom íntimo.Na sua capacidade em dar piruetas, driblando os problemas e cair sempre de pé, confiante em mais uma vitória.Porque um novo ano não está representado em nenhum calendário humano.Está dentro de cada um de nós!



SILMARA TORRES RETTI -

SEGURA ELA, GENTE!


















Cissinha era uma mulher que vivia exatamente dos trocados que ganhava limpando o palacete da patroa e aquela “fortuna” não servia para nada, porque depois do dia 10 ninguém encontrava a boneca desfilando por ai.Decerto se entocava no buraco do tatu, fingindo de morta só para não pagar ninguém.
Fazia milhares de dívidas como se fosse a poderosa Rainha da Mufunfa! Que piada mais ridícula do mundo, porque ela não tinha aonde cair morta, precisando até fazer um curso de equilíbrio para conseguir suportar o peso de tanto carnê!
Era o carnê do “mico” ondas, do “figo” bar e do aparelho de “são”. Aqueles cacarecos ficavam empilhados num cômodo apenas, sem luz elétrica e sendo iluminado por um lampião velho. E Cissinha ficava fula da vida, dizendo com a boca cheia que tinha o direito de consumir também:
- Eu sou pobre, mas sou gente!
Gente de carne e osso, carteira de couro e com as antenas ligadas em qualquer pechincha; qualquer promoçãozinha besta e barata que pudesse entupir sacolas e mais sacolas de pacotes maravilhosos que levavam Cissinha á loucura, principalmente no dia do pagamento .
O salário daquela tonta era um cisco de nada em vista da montanha de bugigangas que aparecia na sua porta.
Cissinha era pirada de tudo! Era uma consumidora fanática e não conseguia se controlar, sentindo tremedeiras de emoção ao ver uma propaganda nova na TV. Ainda mais se o produto era facilitado em 36 vezes de um valor pititiquinho, quase nadica de nada!A sensação em ver o caminhão virar a esquina com aqueles homens maravilhosos vestidos com um macacãozinho azul era muito forte.
Um bem adquirido e sacramentado, em duas vias, sem fiador e comprovante de renda, era uma terapia maravilhosa.
Depois eles desovavam o pacote, achando mesmo que se tratava de alguém com muitas posses!
Taí o segredo de tanto prazer, pois Cissinha esquecia de vez a sua infância pobre todas as vezes que sacava o seu Super Carnê, deixando para trás qualquer coisa que rimasse com: - pouco dinheiro ou pobreza e somente assim “crescia” por dentro, abafando para os outros e para si mesmo .
Era uma forma de “aumentar” a sua auto-estima e de ficar devendo cada fio de cabelo, é claro.
Por mais que tentasse por um breque nesses instintos selvagens e nesta gula de consumo, não conseguia de jeito algum .Você pode até achar graça nas picaretagens de Cissinha, mas isto é um problemão .
O Dia dos Pais estava chegando e aquela maluca já estava PIRANDO .Só de pensar que as lojas estariam entupidas por barbeadores elétricos, pijamas de seda, cadeira do papai , vendedores babões tratando qualquer Zé Mané como se fosse o Lordy Gato ...se empipocava toda .Pronto! Não agüentou tamanha pressão psicológica e quase lhe amarraram na cama .
Tudo em vão ! Cissinha teve um surto, saindo para a galera .
Parecia hipnotizada , abobada, macumbada ...Mais que depressa GRUDOU a bolsinha debaixo do braço, passou um batom vermelho , deu um tapa na peruca e FUI !
O barato é que Cissinha nem tinha mais pai vivo, porém isto era um detalhe bobo .O importante era o valor sentimental da coisa .Cruzou a rua da direita, virou a esquerda e caiu com tudo na loja principal da cidade .
Estava se sentindo em casa, no próprio lar .Se acabou nas bancas e no crediário , com os olhinhos piscando a mil por hora . Os vendedores amaram Cissinha, dando brinde surpresa, pirulito de graça , vale-compra ...
Ela atravessou a rua sorrindo de emoção e quando chegou do outro lado da calçada estava chorando feito louca .Que horror, não tinha mais um tostão furado !
Estava arrependida e morta de vergonha .Era impossível pagar tantas dívidas assim e não tendo outra pessoa a se apegar, foi direto para a casa da patroa, contando-lhe sua triste desventura .Dona LILI lhe passou um sabão daqueles , depois ficou comovida e prometeu lhe ajudar.Tudo bem, vai .Que atire a primeira pedra quem nunca fez uma besteira na vida...
Dona Lili foi até o Banco, pediu um empréstimo para o gerente e acompanhou a coitada da mulher até a loja, liquidando de uma só vez todas as prestações posteriores .
Pagou a conta dos presentinhos do papy de Cissinha , que chorava lágrimas de sangue .Conversaram sobre o assunto e ela jurou de pés juntos que NUNCA MAIS .
Nunca mais até o próximo dia 10, é claro .O tempo passou ligeirinho e Cissinha estava envergonhada com toda áquela situação. Então pediu saída mais cedo do serviço para refletir melhor sobre o assunto, tomar um banho quente, comer um miojo, descansar assistindo uma TV ...Êpa, promoção a vista !
- aparelho de musculação em oito vezes sem juros, com direito a uma mesa de canto totalmente grátis ?
- um kit capilar com xampu importado, peruca de várias cores e um implante de mechas loiras de meio metro ?
“TÔ DENTRO !” . Não pensou duas vezes .Afinal de contas Dona Lili merecia um presentinho no capricho, com entrega a domicílio e direito a uma super foto ao lado do gerente da loja .Isto sim era digno de qualquer freguesa cinco estrelas, sindicalizada pelo clube dos Consumidores Unidos Jamais Serão Vencidos , graças a sua tremenda picaretagem, ao seu faro de raposa e ao seu olho de luneta, maior que a própria cara , é claro .


Silmara Retti -

SE ALGUÉM TE AMA



















Zelina amava Gustavo, que amava Judith, que amava Pedro, que amava Marcão.O quê ?! E Marcão que não amava ninguém.
Beto que amava Rodrigo, que amava Neidinha, que amava Jair.Aliás, na verdade ela nem o conhecia direito, mas acordava e se deitava com o pensamento amarrado naquele cafona de uma figa .
- Ah, Jair é o dono absoluto do meu coração!- suspirava.
Defeitos ele não tinha nenhum.Era a perfeição da beleza tropicana; muito bem definida nas suas perninhas de bambu, no seu corpão de pau de arara e na sua cabeleira em forma de coqueiro.Um homem fino em todos os sentidos .Diziam que ele tinha verrugas no canto da cara, mas Neidinha jurava de pés juntos que era uma pinta muito sensual.
Bobagem , parecia mais um canteiro de bromélias que dava um toque másculo na sua feição de homem rústico .
- Homem que é homem precisa ter furúnculo, bafo de onça e chulé.- defendia.
E tudo nele era motivo para suspiros e tremores, aos olhos de Neidinha, que criou uma fantasia mirabolante sobre a vida de Jair .Muita gente vê nos outros somente aquilo que quer enxergar e quando alguma coisa desanda, o amor acaba, vai para o saco e no outro dia já se ama outro.
Jair nunca havia reparado num fiapo de cabelo daquela mulher que matutava um modo de ensacar o bonitão.
Precisava lhe provar que era a outra metade da sua laranja ...O ovo que faltava em sua marmita .
Tingiu o cabelo de loiro, colocou uma malha bem colada nas curvas, rebolou sobre as tamancas , mas nadica de nada .E quanto mais era desprezada por Jair, mais ela se apaixonava por ele .Passou a ser uma questão de honra conquistar aquele baita homem e se descabelava toda só para lhe chamar a atenção a qualquer custo .
Quem não se conformava com esta novela mexicana era o pobre Feliciano .O infeliz se dizia de quatro por Neidinha, mas ficava na “dele” curtindo a maior fossa.
Até que numa noite de inverno, fria que dói, abriu a porta do seu apartamento, indo trabalhar.Deu de cara com Neidinha caída no corredor, desmaiada com uma garrafa de pinga grudada no beiço .Que porre! Não suportava mais ver Jair se esfregando por aí,sem saber ao menos que ela existia.
Então o babaca lhe estendeu o braço, num abraço .Ouviu suas lamúrias , lhe servindo café quente e sem açúcar .
Tirou o dia para lhe fazer companhia .
Enquanto Neidinha gritava o nome do outro suculento, Feliciano acariciava os cabelos da sua musa .
Parecia mais bonita assim e mesmo que chorasse por outro,continuava a lhe querer bem .Tinha suas qualidades e defeitos :
- era uma pinguça de carteirinha
- tinha pé grande, cheio de frieiras
- suava feito um gambá , mas era louco por Neidinha .
Estar apaixonado é você querer alguém por ela ser uma pessoa "maravilhosa" .
Amar é você querer alguém apesar dela não ser uma pessoa tão maravilhosa assim .
A paixão é um relâmpago , um tiro de canhão .Pode durar somente o tempo em que fantasiamos , onde tudo é lindo e sem defeitos .O amor é realista e apesar dos pesares e além dos defeitos.Dura o suficiente para se fazer alguém feliz e são esses detalhes que fazem a diferença .
Feliciano só queria ver Neidinha bem e sofria em saber que ela estava sofrendo também .
Precisava fazer alguma coisa para lhe alegrar e teve um plano DEZ .Aproximaria os dois num encontro íntimo e poderia ser até no seu apartamento, se quisesse .
Ela não se conteve de tanta alegria e Feliciano era um amigão “daqueles” , de todas as horas.
Começou a enxergar nele um homem completo e era tão divertido , apesar de ser um chato logo cedo, irritante quando roía unha e um porco quando roncava alto no chão da sala .
Ficaram durante dias combinando o combinado , mas Neidinha não saia da sua cola e nunca combinaram tanto assim ! Então percebeu que alguma coisa estava acontecendo de novo : estava amando de verdade alguém que conhecia de perto .Tinha uma careca estranha, mas que lhe caia bem .Uma espinha de dois andares e uma boca de sapo, mas era incrível quando contava piadas; quando falava sobre os seus planos para o futuro ou quando explicava a teoria da relatividade .
Nem se lembrava de Jair, que somente existia em sua imaginação .
Ela abriu o coração e se deu uma chance de ser feliz .
É gostoso curtir um grande amor, de carne e osso, que muitas vezes começa de uma simples amizade , pois é através dela que conhecemos pessoas que realmente nos querem bem, nos desejando tudo de bom .
Além dos defeitos e superando as dificuldades .
Dê uma chance a quem te ama e perceba que a felicidade está muito mais perto do que você imagina , aguardando a oportunidade de lhe mostrar novos caminhos a serem conquistados a dois .


Silmara Retti

SAUDADE DE VOCÊ
















ERA UMA VEZ UM RIO MUITO BONITO QUE NASCEU POR ACASO NO MEIO DO MATO.
ELE TINHA UMA BELEZA ESPECIAL PORQUE CONSEGUIA REFLETIR O BRILHO DA LUA, AS CORES DO SOL E TODA NATUREZA A SUA VOLTA .
DENTRO DELE EXISTIA UM MUNDO MÁGICO ONDE DIVERSAS ESPÉCIES DE ANIMAIS TINHAM VIDA PRÓPRIA E CONTRIBUÍAM ATIVAMENTE PARA O EQUILÍBRIO DO PLANETA .
OS PEIXES VIVIAM EM GRUPOS, OS CRUSTÁCEOS ERAM UNIDOS E AQUELA COMUNIDADE FAZIA O MAIOR SUCESSO DEBAIXO D’ÁGUA.
DURANTE ANOS FOI ASSIM E NADA ATRAPALHAVA A FELICIDADE DAQUELAS CRIATURAS EXÓTICAS, QUE CURTIAM A VIDA NUMA BOA .
SEM FALAR NO PEIXINHO PIXOTE QUE SE ACABAVA DE TANTO REINAR NA CORRENTEZA DO RIO, FAZENDO MIL TRAVESSURAS E DEIXANDO TODO MUNDO DE BARBATANA EM PÉ .
NA SUA CABECINHA DE PEIXE ABOBADO AQUELE PARAÍSO NUNCA TERIA FIM .
COM CERTEZA SEUS FILHOS E NETOS SERIAM CRIADOS ALI, DANDO CONTINUIDADE ÀS SUAS TRAQUINAGENS .
ATÉ QUE DE REPENTE ALGO MUITO SINISTRO ACONTECEU E NUNCA MAIS AQUELE RIO FOI O MESMO .
NÃO SE SABE SE ERA DIA OU NOITE, PORÉM UM BARULHO ENORME ACABOU COM O SOSSEGO DA GALERA .
PIXOTE QUASE CAIU DURINHO DA SILVA , COM OS OLHOS ESBUGALHADOS DE TANTO SUSTO .
COISA DE LOUCO ! PARECIA QUE O RIO ESTAVA SE RACHANDO AO MEIO E TODA A VIZINHANÇA ABANDONOU O LOCAL , PERDIDA E SEM RUMO .
ALGUNS PEDIAM POR SOCORRO, JÁ OUTROS NÃO TINHAM NEM FALA .
HOUVE UM DESMORONAMENTO DE PEDRAS E TODO O PARAÍSO SUMIU DE SEUS OLHOS , SENDO TOTALMENTE OCUPADO POR UM ENORME SOFÁ VELHO E ALGUNS CACARECOS ESTRANHOS .
PEIXOTO SÓ PENSAVA EM NADAR BEM RÁPIDO E QUASE ENTROU EM ÓRBITA, COM SUA SUPER NADADEIRA PODEROSA .
LEMBROU-SE DOS COMPANHEIROS DE INFÂNCIA, DAS BRINCADEIRAS NO FINAL DA TARDE, DOS PLANOS QUE FAZIAM PARA O FUTURO ...
- ADEUS FAMÍLIA, CASA, LUGAR .
ANTES PARECIA TUDO PERFEITO , ETERNO E INATINGÍVEL .
EMBORA NÃO CONHECESSEM DE PERTO O CRIADOR DAQUELE PARAÍSO, ACREDITAVAM SER “ALGUÉM” MUITO ESPECIAL QUE SABIA ENCANTAR A TODOS COM TAMANHA BELEZA .
ALI ERA O SEU LAR , QUE FOI LHE OFERECIDO COM MUITO CARINHO E POR ISTO MERECIA RESPEITO .
PIXOTE NÃO CONSEGUIA ENTENDER O MOTIVO DAQUELA DESTRUIÇÃO E SENTIU UMA IMENSA TRISTEZA .
ENQUANTO NADAVA PARA BEM LONGE DALI, ERA AINDA BOMBARDEADO POR LIXO DE TODO O TIPO E TAMANHO .
TINHA GARRAFAS DE VIDRO E DE PLÁSTICO, LATAS, RESTOS DE ALIMENTOS E CAIXAS DE PAPELÃO . O MAU CHEIRO LHE DEIXOU TONTO, COMPLETAMENTE DESNORTEADO .
PIXOTE TENTOU REAGIR, MAS O RIO FOI FICANDO CADA VEZ MAIS POLUÍDO E AS PLANTAS MORRERAM “ENVENENADAS” .
SUA ÁGUA FICOU TÃO ESCURA QUE NÃO DAVA MAIS PARA VER AS PEDRINHAS NO FUNDO .
E O TEMPO FOI PASSANDO LENTAMENTE ...
PIXOTE JÁ ESTAVA VELHINHO, MAS AQUELE RIO NÃO SAIA DO PENSAMENTO . FOI NELE QUE VIVEU OS MELHORES MOMENTOS DE SUA VIDA .
ATUALMENTE MORAVA EM OUTRO LUGAR , PORÉM CORRIA O BOATO QUE TODO O LIXO INVADIU O LOCAL .
A LARGURA DO RIO DIMINUIU E A PROFUNDIDADE TAMBÉM,SOBRANDO POUCO ESPAÇO PARA A ÁGUA CORRER .
O RIO FICOU ESTREITO E SUMIU DO MAPA .
PIXOTE AGORA JÁ ERA UM PEIXE SÁBIO E COMPREENDEU O GRANDE DESASTRE QUE HAVIA OCORRIDO NO RIO DE SUA INFÂNCIA .
ALGUMAS PESSOAS ACHAM QUE O RIO É UMA IMENSA LATA DE LIXO , CONTRIBUINDO ATIVAMENTE PARA O SEU DESAPARECIMENTO .
SÓ QUE NÃO PERCEBEM QUE QUANDO UM RIO DESAPARECE, TODO UM ECOSSISTEMA SE ACABA .
E FOI ASSIM QUE PIXOTE CONTOU PARA SEUS FILHOS E NETOS A TRISTE HISTÓRIA DE UM RIO QUE JÁ NÃO EXISTIA MAIS, FAZENDO PARTE APENAS DE SUA ETERNA LEMBRANÇA .


Silmara Torres Retti

Santo de casa não faz milagre



















Sabe aquele papo furado de beira de boteco, que o palhaço já mamado, esnoba a peladona da Playboy, como se ela fosse a sua amada amante? Pois é . Geraldino estava ali na roda, petiscando uma moela de frango enquanto contava vantagem , dizendo que eram duas, três e até cinco mulheres por noite! E olha que nunca precisou de nenhum tempero extra, hei. Nada de ovo de codorna ou qualquer urucubaca do gênero.
Então os camaradas arregalavam os olhos e queriam saber detalhes do ocorrido.E a cunhada? Também já foi pro saco.E a vizinha da frente? Virou freguesa de carteirinha.Nisso a galera delirava, acreditando que Geraldino era um esfomeado e que não perdoava nem a galinha de estimação.
Mas o que Zenaide achava desta gula toda, hein? Opa, deixa a dona Zenaide fora disto. Era a sua patroa, mãe de seus filhos e devota de Padre Cícero.Rezava dia e noite, pedindo pra chover ou para fazer sol, para crescer o bolo e até para que Geraldino ficasse bem longe da cama de casal. Será que ela não gostava daquilo? Eeeeê! Era uma mulher de muito respeito e aquilo não fazia parte de sua vida.Tinha dor de cabeça quase sempre, dormindo com uma calça de brim só para evitar as perturbações. Não eram marido e mulher? Não.Zenaide não era uma mulher, não senhor.Era uma Santa! E com Santa não se brinca, não se toca e não se peca.
Quando a galera começava a perturbar Geraldino com tantas perguntas indiscretas, ele mandava pendurar a conta, fazendo muita força para conseguir chegar em casa e dar de cara com a cara peluda de Zenaide.E que Zenaide, hein.Parecia um armário embutido, com um chumacinho de cabelo amarrado charmosamente por um barbante velho.Pra encarar mesmo, só tomando uma; uma dúzia de cachaça.
Ao ver Geraldino, mais que depressa corria para o tanque, se fazendo de ocupada. Será que aquela pedra de gelo ambulante nunca foi chegada na coisa? Olha só, a imaculada da dona Zenaide não gostava de sexo.Adorava! Era louca para fazer um mexidinho, só que no capricho.Ela queria com direito a beijinho na boca, bituquinha no dedão do pé, cócegas na dobrinha das banhas...Tudo feito com muito carinho, é claro.E assim o sabe-tudo do Geraldino não sabia fazer.Mulher precisa de dengo, carinho e chamego.Não existe mulher fria.Zenaide, de fora para dentro, e de dentro para fora, era a típica mal amada.Sempre bufando, de cara amarrada e com raiva do mundo.E o que faltava para que fosse feliz? Uma boa acordada, daquelas de rachar o teto.Só que Geraldino era poderoso para os outros, porque dentro da própria casa aquele Santo picareta não fazia milagre.
Do lado direito da cama estava Zenaide, murchinha da silva, e do esquerdo, Geraldino, de trombeta amarrada. A cumplicidade na vida do casal é tudo e se não houver amizade, lealdade e companheirismo, baú-bau, já era!
Enquanto Geraldino contava vantagens de bar em bar, a pobre Zenaide passava mal pelos cantos da casa, se consumindo aos poucos com seus desejos reprimidos.Tinha pressão alta, diabetes, artrite, frescurite...Era uma morta viva com dores até no branco do olho. Então ela resolveu tomar a iniciativa e fazer uma surpresinha para o garanhão do pedaço.
Naquela noite, quando Geraldino voltou da rua, não encontrou a mulher nem na pia , nem no fogão.Procura daqui e dali.De repente lá estava ela toda embonecada na cama, vestindo apenas uma camisolinha transparente, pronta para servir o jantar.
Geraldino achou que estivesse tendo uma visão.A Santa Zenaide pirou! Tava toda descabelada, feito um gorila no cio. Queria sexo? Não só isto.Queria sentir-se amada.
E tirando um chicote debaixo do colchão, ordenou que o indefeso do marido fizesse as honras da casa.
-Senta. Dança.Late! – rosnava com os dentes trincados.
Você pensa que Geraldino negou fogo? Que nada.Uma mulher assim; poderosa, decidida e endiabrada merece mesmo uma refeição vitaminada, pois na cama tudo acaba em pizza, feita com muito carinho e regada com um tempero todo especial.

Silmara Retti

ROXA DE CIÚMES*

















Na boca do povo, ciúmes é a maior prova de amor e precisa ser aquele fulminante, esvoaçante e paralisante! Tem que sacudir as tamancas, fazer escândalo, puxar os cabelos pra depois tudo acabar em pizza, ou seja, na cama. Quanto mais ciúme, melhor.Será?Valdete que o diga, pobrezinha. Era um chicléts na cola de Jair.Não comia, não dormia, não vivia.E o boneco era feio que dói! Mas fazer o quê se debulhava corações com sua boquinha murcha, exibindo apenas um dentinho de alho? Cantava todas as mulheres, fazendo charminho com os olhos, a procura de um novo rabo de saia.Porém os seus dias de solteirão estavam contados e a cidade inteira sabia do seu enlace matrimonial, menos ele.
- Dá-lhe Jair! – gritavam, animados - Mandou bem! –
Já outros desconfiavam da rapidez daquele casamento, sem pé e sem cabeça.Mas, qual casamento? Ora, de Jair com Valdete, é claro.
Na verdade nem se conheciam direito, mas ele precisava de alguém que lhe desse uma força.Morava sozinho, pagava aluguel e ainda tinha que contratar uma diarista.As mulheres que se interessavam por ele só queriam saber da farra e Jair começou a sentir falta de alguém que pudesse dividir as dívidas. Então, bingo! Valdete era a tal.Por que não? Já que a madame queria tanto, Jair resolveu “resolver sua vida”.Ele nem precisou caprichar no xaveco.Esperou que saísse do serviço, lhe convidando para um drink no bar da Zulú.No final da noite já estavam dançando forró com o rostinho colado, prometendo amor eterno.
Pronto.O golpe foi consumado e os dois pombinhos já dividiam o mesmo bangalô, que simplesmente valorizou com a presença de Valdete.Agora tinha vasos de plantas na varanda, cortina florida nas janelas, cheirinho de café fresco no final da tarde...
Jair adorava tudo isto e mais aquilo, porém não conseguiu deixar a gandaia de lado e continuou levando a mesma vidinha de solteiro; aparecia em casa junto com o sol, todo amassado e engomado.
Assim era de matar!E o que sobrava para a coitada da Valdete? O farelo de Jair; o pó tosquiado do seu corpinho abatido de tanto ciscar em outro galinheiro. Valdete se dizia roxa de ciúmes, picotando sua camisa de cetim com a tesoura de cortar frango.Nisso o teto rachava ao meio e o bangalô tremia.Mas nenhum, nem o outro, largava o osso.Ele porque precisava dos seus préstimos de dona de casa.Ela porque precisava do seu amor.
Que amor?!? Qualquer um que fosse, até mesmo de patrão por empregada.As pessoas admiravam tamanha devoção, medida por seu ciúme infernal.Mas este ciúme tinha outro nome: - falta de amor próprio.Falta de respeito consigo mesma.
Valdete nunca se olhou no espelho, se valorizando.Mal conseguia pendurar um grampo no cabelo, porque passava a manhã inteira procurando bilhetinhos de amor nos bolsos de Jair.Procurou tanto que até encontrou uma foto da perua...com o peru.
Que susto! Valdete quase morreu do coração, prometendo vingança.Só podia ser macumba...e das brabas! A primeira coisa que pensou foi em procurar um Pai de Santo, pra desfazer aquela bruxaria ridícula. Já ia sair voando de casa com uma galinha preta na mão, quando resolveu ir até a penteadeira para pegar o seu “santinho protetor”, bem ligeiro.Foi desta maneira que deu de cara com sua cara.Parou um minuto e não reconheceu em si a Valdete de antes.Credo, mais parecia uma bruxa! Puxou um banquinho, pasma de terror.Jair miserável.Olha só o que aquele traste havia lhe feito...Só que na verdade ela permitiu que fosse assim e nenhum homem merece esta destruição.
Que Pai de Santo, que nada! Quem gosta da gente é a gente e Valdete resolveu rodar sua própria baiana, jogando um sal grosso no falecido. Apanhou todas as suas coisas e cantou pra subir.Sem choro e sem vela! Não precisava passar por tudo aquilo.Era uma mulher inteligente e merecia respeito.Jair que fosse abaixar em outra freguesia, porque ela estava FORA. Deixou o terreno limpo para que pudesse semear a sua auto-estima e colher os frutos de um novo amor.O Amor Próprio!

Silmara Retti

RIMA DE MENINA


















Quando eu era uma criança
Mais moleque, do que menina
Conheci no seu olhar
O desencanto da minha sina .
Estava escrito, em cada lágrima
uma história de amor
Escravizando a própria alma
Num suplício de dor !
O mundo parou naquele instante
O peito aberto, ofegante,
na alegria de um reencontro
Num verão vivo, a pele em chama
No caminho de quem ama
Hoje, sempre, no infinito
Cada dia mais bonito, em rumo a eternidade;
Superando a distÂncia, vencendo a saudade .
Porque do jeito que ele veio, simplesmente se foi
Sem aceno, sem despedida
Numa única partida, levando consigo a certeza
Que me ensinou a crescer
Transformando qualquer tristeza
Com a força do bem querer !

Deu-me o primeiro beijo,
A semente do desejo
Que brotou dentro de mim ;
A esperança perdida numa ilusão esquecida
E para ele eu disse SIM .
Sim pra tudo o que queria
Corpo e alma comeria
Com seus dentes de marfim ...
Atrás do muro da cidade, gritando de felicidade,
Menino anjo, querubim .
Aprisionado num destino
Já homem bravo, mas pequenino
No meu colo de cetim !
Falou-me sobre a nobreza
Em ser bom por toda a vida,
Pois a principal beleza
É ter uma palavra amiga,
Na mais difícil ocasião
Sempre com a cabeça erguida,
Com as mãos postas, á seguir
Sem medo da escuridão,
Feito estrela cintilante,
Divina luz, irradiante
Neste mundo, a seguir !
Falou-me sobre o DOM,
De amar, não importa a quem
Abraçando qualquer pessoa
E não se esquecendo de ninguém .
E quando ele foi chamado,
Para ir embora de repente,
Abandonando a sua gente,
Pai e mãe e a nossa casa, como um pássaro sem asa
Sentindo um vento forte
Em infinito rumo ao tempo
Renascendo da própria morte !
Foi o homem, namorado
Dos amigos, o mais amado
Fonte da minha inspiração
O verso de toda rima
O sonho de qualquer menina
E o dono do meu coração !

SILMARA RETTI

RECOMEÇO












Luisinho sentia saudades do pai porque ele era um homem muito ocupado, cheio de afazeres, e todas as vezes que ele acordava cedo para ir ao colégio, seu Pedro ainda dormia esparramado no chão da sala .
Era um sono pesado que fazia com que ficasse o dia todo de molho, resmungando com qualquer um que desse um “piu” sequer, que fizesse um barulho diferente ou lhe perturbasse as idéias .
Xingava as crianças, falava palavrões cabeludos e não queria a luz do sol no seu rosto ...E dona Janice ouvia tudo calada, no mais puro silêncio apenas para não atiçar a ira do marido .
Afinal de contas ele era o “Poderoso” , o “Rei do Trovão” e sabia impor o seu lugar a golpe de cinta .Para quem não entendesse o recado , um grito só bastava , não precisando usar nenhum outro argumento .Não tinha palavras doces e nem tampouco qualquer outra forma de carinho .Aliás, seu Pedro se dizia muito macho e carinho era fricote de boiola .
Então Luisinho foi aprendendo, com o paizão, a conseguir as coisas no tapa e com muita porrada .E dentro da sua casa não existia espaço para os direitos de uma criança .Somente os deveres :
- Dever de permanecer calado até a segunda ordem .
- Dever de engolir tanta violência, tanto descaso, tanto “poder”, resumido numa única pessoa :Seu Pedro , o Rei do mocó .
Um pai que apenas poderia oferecer à aquelas crianças o seu exemplo de vida .
Depois que anoitecia ele assobiava uma cantiga boemia, colocando a filharada em seu colo, com todo o cuidado para não amassar a calça de linho .
Era famoso na vizinhança e não parava de ir gente chamar por ele no portão .As vezes era o dono do açougue, da quitanda e até algumas mulheres que faziam dona Janice sufocar o rosto no travesseiro, chorando baixinho para ninguém ouvir .Mas não tinha coragem alguma de mudar esta história, como a maioria das mulheres que sofrem qualquer tipo de violência doméstica .
A opressão é uma violência que dona Janice não deveria permitir porque ela também agride e deixa marcas na alma !
Quando seu Pedro chegava ao amanhecer, com o corpo cambaleando, fumava um cigarrinho já com o copo na mão , só para relaxar .
Esta tirania ridícula humilha qualquer pessoa, mesmo que este semelhante seja somente um filho.Porque se não podemos ser bons para eles, não poderemos ser para mais ninguém !
A escola da vida começa dentro da nossa própria casa, com a nossa família e seu Pedro não tinha os olhos verdes , nem azuis ...Tinha os olhos vermelhos!
Até que dona Janice ficou sabendo do A .A
( alcoólatras anônimos ) e com muito medo de lhe deixar nervoso, deixou um bilhete sobre a cama com o endereço anotado a lápis .Escreveu ainda que o alcoolismo era uma doença e que seu Pedro precisava querer se ajudar .Nisso ele percebeu que estava sozinho na casa, sem ninguém para dar ordens, impor os seus limites ...Olhou ao redor e nada ! Apenas retratos pelas paredes.Passaram-se dias e noites ...
Dona Janice e seu Pedro apenas se reencontraram na primeira reunião do A.A ., porque ela o esperava de braços abertos somente para lhe mostrar o caminho de um recomeço .Não seria fácil , mas estaria ao seu lado para lhe amparar, lhe dando a maior força e lhe ensinando que ainda vale a pena acreditar na vida e em si mesmo .
Silmara Retti

PARA UM AMIGO TONY LUÍS

Tenho certeza que o “Ranchinho Caiçara” , um programa cultural que ganhou espaço durante inúmeras tardes, conquistou definitivamente um lugar muito especial no coração de todos .
Por diversas vezes nos emocionamos; choramos, rimos e nos expressamos através do jeito irreverente do radialista Tony Luís que abriu caminho às tradições caiçaras, semeando sonhos e garimpando tesouros, oferecendo a eles a oportunidade de mostrar o seu imenso valor .E pelas ondas do rádio, muitos, até então anônimos, de repente se tornaram personalidades ilustres .
O programa “Ranchinho Caiçara”, que teve início em abril de 2002, conseguiu contagiar as pessoas de norte a sul de Ubatuba e cidades próximas .
Foram tantos participantes que perdemos a conta .
O prof. Júlio Mendes estreou com a história “ O Matuto Migué e o Guarda Florestal ” e partir daí não parou mais, firmando uma parceria marcante .
Contavam “causos”, anedotas e se misturavam numa energia tipicamente caiçara .
Este programa, com sabor de banana verde e aroma de aipim representou Idalina Graça, Seo Filhinho, Mestre Bigode, Dona Ofélia, Dona Lígia, Dona Dirce, Dona Mocinha , Da Motta,Julinho Mendes, Prof. Quincas, Clementino, João de Sousa, João Barreto, Carlos Rizzo, João Teixeira Leite, Sinéia , Seu Genésio, André, Nenê Veloso, dona Nena, Jair Carpinetti, Catito, João Alegre, Dito Fernandes e tantos outros que nos fizeram sentir orgulho em sermos cidadãos caiçaras , dando corpo e voz a nossa gente ; gente simples , gente aqui da terra que tomou posse diante do microfone, para cantar e contar sobre suas raízes que merecem muito respeito .
E é por isto e muito mais que venho prestar minha singela homenagem ao Programa Ranchinho Caiçara e ao seu apresentador Tony Luis, que nos prestigiou durante anos com sua irreverência, sinceridade e alegria. Meu amigo, Ubatuba agradece, enaltecida, por você existir.Você e todas as nossas raízes culturais ! Que Deus lhe abençoe hoje e sempre .

Silmara Retti

RAÍZES CAIÇARAS




















Falar de Ubatuba é percorrer os caminhos da História , numa busca constante por raízes fortes que estruturam a cultura do nosso povo caiçara .
Esta gente merece todo o respeito e admiração, pois retrata no cotidiano a presença viva de suas origens, estampadas no sorriso confiante de cada criança que acredita ser o futuro de uma tradição exemplar, mágica e encantadora !
São conhecimentos a serem perpetuados através da memória incansável daqueles que valorizam sua própria história, muitas vezes marcada por lutas infindáveis e conquistas surpreendentes.
Ubatuba nos faz redescobrir o sentido exato da combinação perfeita entre a natureza e o que ela nos fala, dentro do seu íntimo, se expandindo para todos os cantos desta cidade que tem muito o que contar .
Considerando ainda a capacidade turística e as riquezas da cultura caiçara que se deslumbram constantemente diante dos olhos de todos, achamos importante investir em uma formação significativa e coerente com a realidade em que vivemos .
Somente assim conseguiremos despertar nos nossos alunos o interesse em conhecer cada vez mais as suas raízes , com sabedoria e orgulho .Estes sentimentos fortalecem laços, criam dimensões e abrangem o universo humano .
É importante sabermos sobre os aspectos físicos do município , porém precisamos conservar dentro de nós o instinto de preservação de nossos valores culturais, para garantirmos a multiplicação de idéias férteis e inteligentes, que com certeza semearão um mundo muito melhor !

Silmara Retti

NOSSO PEREQUE AÇU!






















FOTO BY SERGIO ROSSI

RAINHA DO LAR





















Quando dona Etelvina avistou pela primeira vez os braços robustos de Bébinha, cresceu o olho, pensando num jeito de escravizar toda aquela energia em benefício próprio .
As mãos de Bébinha clamavam por um tanque de roupa suja; seu corpo dançava no ritmo da batedeira; a sua cabeça balançava em harmonia com o ventilador de teto e os joelhos se dobravam diante de um assoalho, com tanto charme que mais parecia uma bonequinha de corda .
Eram qualidades excepcionais que faziam dona Etelvina encher a boca de água todas as manhãs, espionando a outra ralar o couro feito uma louca, somente para ganhar o seu ganha pão .
Mas não se conformava em ter Bébinha só de vista ...
Queria que fizesse parte da mobília da casa; que compartilhasse seus problemas domésticos e que deixasse sua vida um “ brilho total radiante” , com muito suor, é claro !
Então ficava buzinando na orelha do maridão que "adquirisse" Bébinha a qualquer preço, como se fosse um mimo, que lhe faria a Rainha do Lar mais feliz do mundo; proprietária de uma escrava branca, alvejada e clarinha da Silva !
Dona Etelvina ficou aguada e lombriguenta, com os olhos amuados e prestes a derreterem-se em lágrimas de sangue .
- Nabor, eu querooooooo pra mim!
Nisso o coitado do marido não suportou tantos fricotes e pra fazer uma graça conseguiu contratar Bébinha .Que farra ! Agora sim seria rica e poderosa, sendo amparada por sua fiel secretária.
Tratou de lhe fazer um uniforme discreto com as suas iniciais bordadas na gola : “ DONA ETELVINA COMPANHIA LIMITADA ”. Comprou uma bandeja para o café da manhã na cama , uma jarra de plástico para o suco de tomate e um pote decorado para os bolinhos de chuva . Detalhes que Bébinha jamais conseguiria entender o verdadeiro valor , pois a casa era do tamanho de um ovo e dona Etelvina era uma brega do tamanho do mundo.
- Bébinha, presta atenção: tira o lixo.Ah, tira a minha sombrancelha;corta a minha unha; penteia o cachorro; seca o pêlo dele...Depois, quero um suco de tamarindo.O quê??! Não é epoca de tamarindo?? Pode ser de damasco, então.
A sua sorte era que Bébinha nunca reclamou de nada e preferia apenas se lastimar sozinha pelos cantos, com os olhos inchados de tanto chorar .
Era a piada da rua e ninguém se conformava que uma pobretona violenta pudesse puxar a funcionária pela coleira, lhe colocando no seu "devido" lugar: o sub-solo .
Mas fazer o quê ?Ela precisava daquele emprego .
Opa, assim já é masoquismo!
A gente pode procurar o nosso caminho e pé na estrada .
Na verdade dona Etelvina era muito mais pobre do que Bébinha .Pobre de cultura, de sabedoria e de espírito .
O importante é que evoluíssem, porém Bébinha aceitava que fosse desta maneira .Talvez se desse um basta, a história seria outra .E foi ...
Ninguém se deixa enganar a vida inteira e situações como estas merecem um olé . Pode parar !
Aos poucos Bébinha foi se interessando por um curso de corte e costura.Começou a fazer seus traçados nos finais de semana e foi conquistando a sua clientela .Dona Etelvina só espichava o olho, reclamando:
- Você anda muito soberba, hein Bébinha...Cuidado!Estou no comando.
Bébinha aprendeu a fazer muitas coisas e o mais importante foi traçar o seu próprio destino.
Conseguiu sair de cena com muita categoria, deixando no tanque um saco de roupas sujas ...Trouxas do passado!
- Sua ingrata.Vai me deixar assim, com as mãos abanando?- gritou.
Então Bébinha deu meia volta, lhe entregando a vassoura.
- Pra suas mãos, querida!
Agora ela era dona absoluta de sua vida e acima de tudo com capacidade própria de mudar o seu futuro com diplomacia, garra e determinação ! Aprendeu a ler, a escrever e conseguiu um espaço melhor no mundo , porque o amor próprio é capaz de nos fazer incansáveis e todos nós merecemos conquistar este valor!


SILMARA RETTI

Quero a mata sempre assim !












QUERO A MATA SEMPRE ASSIM
COM A NATUREZA PERTO DE MIM,
DE VOCÊ, DE TODOS NÓS,
DE QUEM SE AMA ...

E EU QUE ERA TRISTE
DESCRENTE DESTE MUNDO
COM A FAUNA E A FLORA REDESCOBRÍ
QUE SOMENTE A VIDA TEM VALOR,
MEU AMOR!





SILMARA TORRES RETTI

QUE DROGA É ESTA !
















A droga é um caminho escuro que não conduz ninguém, porque ela ilude e depois abandona você sozinho com o próprio medo .
Deixou-me mutilado; sem corpo .Oco; sem alma . Morto; sem vida ! Depois que exerceu seu fascínio perante meus olhos deslumbrados e depositou em minha boca o gosto amargo do vicio , se foi para longe de mim, me enlouquecendo de desejo .Mas percebi que ela dobra a esquina e me espera no beco .
Desaparece da nossa percepção, porém me engole por dentro .
Digo que sou seu devoto .Seu bandido .Seu servo !
Não tenho tempo para mim e ela me absorve por completo, anestesiando a minha dignidade e me derrubando no chão feito um animal selvagem .
Transforma os sentidos, manipula a consciência, aniquila o AMOR .Está comigo em qualquer vazio, em qualquer canto e já não existe pudor algum que me faça desistir desta devoção .Estamos íntegros num único pó .Enlaçados no mesmo pico e absolutos na mesma loucura .É uma entidade fosca que me persegue .Mesmo depois de morto continua sendo o meu único “brilho” .Droga, que droga é esta !



SILMARA RETTI

QUANDO UM HOMEM AMA UMA MULHER !


















Serginho era um amor de criança que com seu jeito simples encantava todos dali da redondeza. Vivia descalço pra cima e pra baixo com um trapinho de pano que chamavam carinhosamente de ¨bermuda¨ e, se deixassem, só aparecia em casa na hora de ir para cama .
Às vezes dona Isabel nem se lembrava mais dele e dizia, cheia de orgulho, que moleque tranqüilo igual a Serginho, era um achado !
E numa tarde de verão, dessas de tostar o couro, estava pendurado no muro quando seus olhos tímidos encontraram os olhos sabidos da professorinha Liliane e quase despencou de tanta paixão!
O mundo parou naquele momento único em sua vida e com o peito ofegante, suspirou com um pirulito na boca:
- Que mulher!
Uma criança não pode passar vontade e tinha de armar um plano rápido para arrastar Liliane direto para o seu coração.
Ela já era uma mocinha formada e jamais teria um quê de não sei o quê para o lado de Serginho; um moleque magrelo que ainda precisava comer muito fubá de milho.Mas ele ainda tinha esperanças que um dia Liliane conheceria de perto o poder do seu charme irresistível.
Estava cada vez vaidoso, passando horas diante do espelho. Ele levantou as perninhas reparando no tamanho e na finura; os bracinhos que não tinham músculos, a bundinha murcha e desse jeito era covardia! O pior de tudo era que aquela roupa estranha de lhe deixava com jeito de bobo.
Será que dona Isabel, a senhora sua mãe, não lhe tinha mais amor? De que maneira conquistaria a professorinha, se era brega e sem graça, hein? Logo estariam namorando e precisaria crescer imediatamente, para ter pêlos, bíceps, glúteo, panturrilha e se aparecesse uma barbicha ia ser o máximo! Mas o que pode fazer um simples menino de nove anos contra a natureza Divina? Talvez Deus nunca se apaixonou por uma mulher mais velha, do contrário faria os meninos já nascerem com bigode. Agora se dizia um homem maduro e não queria ficar de bobeira no quintal, como um Zé Mané . Aliás, não queria nem se sujar no pó do muro! Engomou os cabelos para trás e passou a usar roupas do irmão mais velho.Passava horas escrevendo cartas de Amor enfeitadas com desenhos do Bob Esponja.Com certeza, era a mulher da sua vida e a mãe de seus filhos.Sentia isto.Era para sempre.Pena que ela não sabia.
No pé da goiabeira estava escrito Serginho e Liliane.Escreveu também na lancheira, na mochila, no caderno de desenho, na parede do quarto...
Liliane nem havia percebido tamanha emoção e achava Serginho meio esquisito, sempre entocado pelos cantos, com os olhos arregalados, filmando tudo.
- Este moleque é meio biruta.- pensava.
Dona Isabel não sabia mais o que fazer para colocar um fim naquele caso de Amor mal resolvido, sem magoar o moleque. Então resolveu convidar Liliane para almoçar domingo na sua casa. Queria lhe explicar o acontecido para que juntas pudessem encontrar a melhor solução. Serginho ficou radiante e nem acreditou que se encontraria com sua musa encantada dentro do aconchego do seu próprio lar.Aliás, do futuro cafofo.Colocou a sua melhor roupa, tomou um banho de lavanda e ainda um pouco receoso, sentou-se ao seu lado para conversar.Do que falariam naquele primeiro encontro romântico, hein? Mal conseguiu abrir a boca para lhe contar sobre a sua coleção de figurinhas do Pokeimon, porque ela desembestou a falar um monte de baboseiras sem graças, como política e educação.Ufa, que mala! – pensou.
Então ele resolveu impressionar a donzela, lhe mostrando o skate novo, a prancha de surf, o boné da Billabong ( que parecia original), o boneco importado do Homem Aranha,as canetinhas coloridas, o livro do Harry Potter...Mas, nada.Aquela perua nem se abalou.Agora ela escrevia receitas de bolo para Dona Isabel e as duas estavam no maior papo furado, nem percebendo que Serginho babava de raiva .Que decepção!- bufou.
A professorinha sabichona não entendia de pipa e nem sabia rodar um pião.Com certeza não gostava de nada de bom e foi assim que Serginho foi saindo pelo canto , disfarçando o mau humor.
Que gostoso ter nove anos e ficar dependurado no galho da goiabeira!
Liliane era bonita e inteligente, mas não sabia aproveitar a vida .
Nisso Serginho aprendeu a sua primeira lição: que para ser um homem de verdade, primeiro precisa ser moleque, com direito a bolinha de gude e bala de goma . Tudo na vida tem o seu tempo certo; vale a pena curtir cada um deles como que se fossem os únicos e acima de tudo eternos!
Silmara Retti -

O PRESENTE DE NATAL


















Nessa época do ano o nosso planeta se envolve por uma camada de energia mágica, renovada e poderosa, capaz de
Transformar o desejo de alguém num Presente de Natal.Todos os anjos ficam de plantão, recolhendo as súplicas daqueles que pedem com fé, resignação e do fundo da alma.
Não precisa ser uma oração longa e repetitiva, que pode dar sono.Precisa ser apenas uma conversa ao pé do ouvido, simples e de peito aberto, feita entre as quatro paredes de um quarto.
Um papo de filho pra pai...Porque Alguém lá em cima conhece os seus sentimentos e sabe muito bem dos seus desejos.Este Pai tem certeza que você ainda engatinha na estrada da Vida e que um dia...vai crescer.
Carlinhos morava num cômodo apenas, que era dividido ao meio por uma estante feita por caixotes de madeira.Todas as noites aquele moleque se deitava no colchão velho e com os olhinhos sonolentos procurava estrelas no vão das telhas furadas.Queria crescer rápido para ficar com os braços fortes e carregar muitos sacos de cimento.
Somente assim não seria mais aquele menino pobre, sem eira e nem beira que ria muito...para não chorar! Chorar de frio, de fome e de vontade em ser realmente o futuro da Nação.
Era um menino resumido num par de olhos famintos a procura de um agrado que lhe fizesse feliz.
Enquanto delirava com seus olhos abobados, logo era despertado para a realidade do mundo, onde sua mãe tentava a todo custo disfarçar a tristeza cantarolando uma cantiga de ninar.Um amor escondido em lembranças do passado, onde talvez um dia tivesse sido feliz.
Ela tinha o corpo sofrido e cheio de cicatrizes que nunca conseguiu explicar, porque dizia que já foram curadas pelo tempo e nem doíam mais...
Sempre sozinha, forte e única.Ela passava as mãos no cabelo ajeitando uma presilha dourada e se sentia bonita assim.Maria? Joana? Tereza? NÃO importa o seu nome porque sua luz interior falava por si...
E Carlinhos não conseguia entender o motivo de tamanha “dureza” precisando morar num cantinho minúsculo que mal cabia todos os seus desejos.
Talvez fosse por falta de espaço que não tinham mais que um caldeirão no fogo.Talvez fosse por pura falta de sorte que não tinham o que colocar dentro dele...Que pena, que raiva, que dó! Nem tinham espaço para uma geladeira nova, uma cama de verdade e uma televisão colorida, mas quando ele crescesse seria um pedreiro conceituado, só para levantar uma casa bem bonita com uma janela vistosa, sempre aberta, para que as estrelas do céu pudessem entrar no seu quarto.
O tempo foi passando e o final de ano estava logo ali, trazendo com ele a esperança de uma vida melhor.Aos poucos a cidade começou a ser enfeitada e tudo parecia muito mais bonito.
Carlinhos não disse nada a ninguém, mas queria um presente de Natal.Era um desejo absurdo e não teve coragem de pedir, pois sabia que naquele buraco não tinha luz elétrica e por isto Papai Noel não conseguia enxergar o seu sapatinho na janela.Durante anos foi assim.

Então se lembrou que um dia sua mãe havia lhe contado sobre os anjos e resolveu fazer uma oração, pedindo para que na Grande Noite de Natal aparecessem todas as estrelas do céu, iluminando o caminho da sua casa para que desta vez o Papai Noel não se perdesse no escuro.
De repente a mãe, que estava por perto, ouviu suas palavras de fé e lhe abraçou forte, lhe prometendo que naquele ano o seu sonho seria realizado.
- Acredite, meu filho. Será uma noite muito especial.
Carlinhos sorriu, acreditando em sua promessa.
Agora faltava poucos dias para o Natal e ela se desdobrava ao meio para conseguir fazer de Carlinhos um moleque feliz.
Mesmo sendo uma mulher franzina, lavou roupa fora, subiu morro e catou muita latinha na praia.Só que seria por uma causa nobre e uma oração de criança jamais poderá ser esquecida.
Na verdade Carlinhos não sabia ao certo que noite era aquela, mas lá embaixo tinha barulho de festa e as pessoas soltavam rojões.
Esperou deitado no mesmo colchão velho que algo diferente acontecesse...Ele estava sozinho e sua mãe havia saído logo cedo para mais um dia de trabalho.Não tinha lua e nem estrelas.
- E agora, como Papai Noel poderá me enxergar aqui nessa escuridão?
O jeito seria fingir que era uma noite como tantas outras e então fechou os olhos.
- Mas ela prometeu que seria uma noite especial...
Tapou os ouvidos com a pontinha do travesseiro, querendo muito adormecer embalado nas cantigas de Natal que se misturavam no pé do morro.
Foi quando alguém deu duas batidinhas na porta, deixando um pacote enfeitado com um laço de fitas e um cartão de Boas Festas.Uma letrinha miúda e borrada por tinta azul dizia que o Papai Noel não conseguiu enxergar o caminho daquele barraco porque estava muito escuro, porém havia lhe pedido que entregasse o seu presente de Natal.
Carlinhos procurou ao redor e não encontrou ninguém.
Estava só na escuridão da noite, mas ao olhar para o céu pode ver que uma estrelinha nova, singela e muito especial brilhava para ele.Era a sua mãe, que feito anjo de Deus conseguiu realizar o desejo de Carlinhos.
Nisso ele chorou de emoção e de saudades, abraçado aquele pacote pequenino, simples e colorido mas que cabia direitinho dentro de sua alma iluminada !

PRA VOCÊ, UM BOM DIA



















Enquanto você descansa à noitinha , a natureza não dorme e se multiplica, se amplia, constrói paisagens, colorindo um mundo novo que estará brilhando logo cedo diante dos seus olhos .
São plantas que nascem, aves que voam, crianças que chegam , trazendo com elas o desejo de recomeçar intensamente cada instante como que se fossem únicos e sagrados neste caminho evolutivo . Receba este dia como um presente guardado numa caixinha de surpresas e faça dele o seu melhor .
O Universo trabalha no anonimato para que você seja feliz, florindo o seu jardim, iluminando a sua estrada e aconchegando a sua alma .Desperte alegrias e gere prazer .
Construa um bom dia para alguém que você ama e com certeza esse amor se tornará contagiante , enlaçando o mundo num abraço de paz .



Silmara Torres Retti –

PRA VOCÊ , SERGIO ROSSI ...

Quando você chegou pra mim
Feito um presente embrulhado
num sorriso encantado de moleque-querubim
Senti o céu chegar mais perto
no seu peito, sempre aberto
num amor quase sem fim !

Me deu o Mar num beijo molhado,
a Terra num abraço apertado
e o infinito num chamego enroscado;
espremido , sentido, gostoso e salgado ...

No vão das minhas curvas
Na pele da sua Alma
Com visão, cega, turva
E sussurrando, pedia : calma!

Mas eu queria rapidinho
Você aqui comigo ,
Colado no meu umbigo,
Olho no olho,
Preso num gemido
forte, alto, destemido
Capaz de mover o mundo
Com um desejo profundo
De morrer em seus braços
Unidos como um laço,
De um pacote surpresa ,
Bonito, coisa boa :
Jeitoso, de grande beleza
doce gostoso de sobremesa,
ou muitas flores, talvez um maço
de todas as cores , cheiro e gosto
Valsa dançada, rosto a rosto,
Corpo a corpo; só emoção !
É uma mistura enlouquecida
De amor, ódio e paixão ,
Mas é uma paixão pela vida,
Por você , criança perdida
No colo do meu coração .

Pra você, Sergio Rossi .Te amamos!



Silmara Retti

Por você ...Fábio Retti .















FÁBIO RETTI não sabia há quanto tempo estava olhando pelas grades daquele quarto vazio, mas completamente repleto por pensamentos confusos .Um “tererê” danado que lhe deixava com insônia durante a noite e uma paranóia estampada na cara, feito um carimbo, diferenciando :
- gente boa e gente louca .
E ele não era mais o moleque sorridente da mamãe que dava uma de bonitinho para a família ver e rever, babando de orgulho .Agora ele era um sujeito “doente”da sociedade, o pobre bololó , que em nome da piedade humana foi isolado do mundo num manicômio publico, apenas para não molestar os bons costumes da vizinhança com seu jeito irreverente , como que se a sua loucura fosse um pecado mortal e um Castigo Divino .
É mais fácil pensar assim porque não estamos preparados a ter filhos especiais, “diferentes” do Pedro, do João, do Antônio ...
O nosso preconceito é de dentro para fora e nos desespera e aprisiona .Preferimos varrer o problema para debaixo do tapete e sair sorrindo por ai, esquecendo que aquele moleque aprisionado num Orfanato , numa Clínica de Detenção, num hospício qualquer é filho do nosso mais puro descaso .
E vivem abandonados, longe de tudo e de todos, fazendo do armário do canto o melhor amigo e companheiro de muitos pensamentos de solidão .
Fábio já não sabia mais o caminho de volta ...No Natal ninguém apareceu , nem no aniversário, nem no domingo .
E se apareceu, ele não viu porque estava dopado .
Talvez tivessem medo de encarar o seu cabelo picotado por uma navalha assim que foi internado .Não queriam ver de perto o seu jeito sem jeito e os olhos perdidos num grito de saudades :
- Me levem para casa e cuidem de mim .
Aquele lugar tinha um jardim florido com banquinhos pintados de branco e depois um muro enorme que ia muito além de sua imaginação .E ele sabia que depois do muro tudo era perfeitamente normal, onde as pessoas do outro lado perambulam pelas ruas liberando seus instintos animais, porém aceitos e copiados no mundo inteiro .
Justo Fábio que era estudante como tantos outros, que tinha seus sonhos de se dar bem na vida e de repente, com vinte anos, pirou .
Os médicos não acharam um nome que pudesse definir o que não se define .E desse jeito as pessoas não lhe aceitam mais por inteiro, com seus problemas e limitações. Morrem de vergonha de ter suas manias por perto e decidem por conta própria que o melhor lugar do mundo é o quarto de um manicômio , por esconder bem escondidinho o que não querem ver ; o que agride, o que contesta ...
O que vem feito uma bomba direto no nosso egoísmo e no medo de libertar os nossos preconceitos desta prisão. Estes moleques não precisam viver assim, isolados da gente porque eles também fazem parte da Família .
Poderiam ser seus filhos, netos e amigos ...Ou até mesmo um desconhecido que espera uma atitude de alguém .
Esses manicômios têm seus quartos, suas enfermarias, suas camisas de força ...seus métodos antigos e indiferentes e continuam , ano após ano, anônimos diante de nossa realidade .
Nós preferimos nos esparramar no sofá da sala e assistir o Noticiário das Oito , de boca aberta por tanta violência, mas o descaso é uma delas e pensar que o mundo gira apenas ao redor de nossas vaidades , isto sim é loucura .
Todo manicômio tem um portão de saída, que só é permitido para poucos, porque podemos passar por ele, dar um aceno distante, virar as costas e ir embora .
Ninguém poderá fazer mais nada .Nem oferecer um abraço, um caminho diferente, um futuro melhor ...
Não vamos deixar que nossos moleques fujam da realidade e se aprisionem assim , tão longe do nosso carinho, do nosso afago e do nosso Amor .
Para você, Fábio, João,Antônio ...Para todos vocês que são especiais; fiquem aqui pertinho de nós, porque o melhor lugar do mundo é o nosso coração .Dentro dele não precisa ter muros, trancas, prisões ...Precisa ter apenas um jardim florido e acima de tudo, ao ar livre !

Silmara Torres Retti

UBATUBA, UM PARAÍSO EXÓTICO









FEITO SÓ PRA VOCÊ .

Ubatuba é uma inspiração complexa de todos os dons da natureza, com suas cores cantadas em versos através de um poema lírico que encanta, cativa e apaixona .Somos todos poetas nascidos em seu ventre e emancipados diante da beleza majestosa de uma gente simples que revela a sua História num espetáculo de cultura.É o Farol da Barra, a Casa da Farinha, o Museu Caiçara e o Morro da Prainha ...
A tradição caiçara é contada de uma maneira cada vez mais presente, emoldurada por um retrato vivo de pescadores, seresteiros e historiadores que exaltam Ubatuba através de um sorriso hospitaleiro.
Aqui se tem qualidade de vida e nossas crianças buscam suas raízes em todos os detalhes desta cidade surpreendente, perfumada pela maresia do mar que se mistura com o Azul Marinho .É preciso conhecer a energia mágica de seus patrimônios históricos e suas praias exuberantes, transformando a natureza em um cartão-postal .
Padre Anchieta inspirou-se nas areias da praia de Iperoig ...
Cunhambebe despertou o espírito guerreiro adormecido em seu povo ...Idalina Graça nos surpreendeu com sua literatura humana que emanava de sua alma ...
Ubatuba é mãe.É sensual. É feminina.Ubatuba é tudo isto e muito mais, decifrada somente por aqueles que conseguem enxergar a intimidade divina, numa expressão artística do Amor .
Silmara Torres Retti -

TRABALHAR ...SEMPRE .













Trabalhar é dar vida a antigos projetos,
É colorir o mundo com a energia de nossas mãos;
Sempre prontas à servir
Da melhor maneira possível,
Transformando o mundo numa oficina de costura
E tecendo com carinho e dedicação
Traços que unidos somarão.
Trabalhar é dar vida a novas idéias,
É construir caminhos,
Transformando o mundo num vasto campo
Fértil, florido e germinado
Com as sementes do bem-querer.
Trabalhar é se sentir vivo,
Em sintonia com o Universo,
Oferecendo o suor de mais um dia conquistado
e a sensação de dever cumprido,
Pois somos parceiros,
Pequenos e grandes cidadãos
Que unidos sonham, acreditam e buscam
o progresso da nossa Nação.

- Silmara Retti -

PESO MORTO










Até ontem tio Miudinho era o peso morto da casa, pois não passava de um aposentado falido que servia apenas para se perder dentro do próprio banheiro e conversar com a geladeira do canto, achando que era a filha mais velha .
Era uma mala sem alça ligeiramente arreganhada no sofá da sala, fiscalizando o ambiente , metendo o pitaco em tudo e só com as antenas ligadas .Morria de medo que alguém pudesse colocar veneno na sua sopa de batatas ...
Definitivamente Tio Miudinho não era o bem-amado da casa e começou a sentir pavor de que lhe matassem dormindo, sufocado com a própria cueca .
Então passava o dia assustado, tentando armar um plano para se defender da maldade do mundo e achava mesmo que corria risco de vida todas ás vezes que aceitava um simples gole de café...
Pensou até em fazer um pijama blindado, que o protegesse de alguma bala perdida, porque aquela família era uma bomba!
Dona Bibi e Seu Altamiro trabalhavam o dia inteiro e não davam muita importância para o tio, o colocando para dormir na despensa, junto com os outros cacarecos .E era exatamente assim que tio Miudinho se sentia, fantasiando perseguições e sabotagens que nunca existiram de verdade.
Fazia-se de coitado, querendo arrancar baldes de lágrimas com suas lamúrias, como se fosse vítima do destino traiçoeiro.
Ninguém tinha tempo para suas histórias cafonas, da época que vendia chinelo na Igreja da Matriz ou da época que comprou uma charrete vermelha ou da época que era feliz!
Só que tio Miudinho não é o único a sofrer deste mal que a maioria das pessoas de sua idade sofrem...Tratados como um tapete usado, velho e maltrapilho !
Aliás, tio Miudinho foi desprezado até ontem porque dona Bibi e Seu Altamiro estavam passando por um inferno zodiacal e de repente a vida lhes pregou uma peça ,deixando o casal à mingua e o único que ainda podia contar com o pagamento do dia 10 era o pobre ( agora rico ) tio Miudinho .
Sem mágoas, sem ressentimento e sem qualquer tipo de preconceito, resolveram abraçar àquele homem como há tempo não faziam .
- Tio Miudinho é um amor!É um lordy paraibano!
Era o xodó do lar...O Santo aposentado que veio ao mundo para lhes salvar da miséria .Colocaram o precioso dentro do fusquinha, rodando com ele por toda a cidade até fazerem a compra do mês, a feira, o gás...Havia se transformado no rei da mufunfa e tudo mudou de repente ;
- Sua palavra era lei !Seu gemido, uma Ordem!
Nunca mais dormiu no chão e o cacareco da vez era Seu Altamiro, que ficou jogado para as traças , sendo fiscalizado diretamente pelo novo proprietário da casa ; Tio Miudinho.Ele sim foi promovido a General da Banda, com direito á uniforme de luxo, sopa de legumes no capricho e um apito tamanho família, para poder controlar melhor o trânsito que tinha da pia até a geladeira .

SILMARA TORRES RETTI